====== 1964-7 ====== //HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021// **V. SOBRE O SEMINÁRIO DE 6 E 9 DE JULHO DE 1964** **A. CAUSALIDADE E MOTIVAÇÃO – FUNDAÇÃO** 1. O motivo (Motiv) e a motivação (Motivation) são o fundante do movimento, da ação e da práxis, respondendo ao "em virtude de que" e "por causa de que", onde o fundamento ([[lx>termos:g:grund|Grund]]) representado em seu fundar, como no conhecer, julgar e enunciar, é o "fundamento de de-terminação" que, enquanto tal, evoca para um fazer que corresponde ao querido e planejado, interpelando e exigindo obediência (realização consequente). 2. A causalidade (Kausalität) e o "princípio" de razão (principium reddendae rationis sufficientis), em Leibniz, são formulados como "Nihil est sine ratione" e "Omne ens (qua ens) habet rationem", onde ens – esse – ὑποκείσθαι significa deixar encontrar-se diante de nós e deixar presentar-se, e esse mesmo é sempre de acordo com o tipo do ente, sendo o fundamento, o fundar e o fundamentar. 3. A razão e as razões, ou causas (αἰτία), são remetidas à Metafísica Δ 1, 1013a 17 e seguintes, onde o ὑποκείμενον, o τί ἦν εἶναι, o οὗ ἕνεκα e a ποίησις são os tipos de ἀρχή, com a restrição à causa efficiens como consequência necessária no tempo, que é indeterminado e estatístico, mas calculável, e a ποίησις é a ratio como com-posição ([[lx>termos:g:ge-stell|Ge-stell]]). 4. A compulsão (Zwang) é caracterizada como compelir, concentrar, pressionar, restringir, e o aberto é vedado, não deixando margem de manobra, sem possuir nada em comum com a causalidade; em contrapartida, o não compelido é o "livre para", e a "indigência" é a compulsão e aflição, onde o necessário ([[lx>termos:n:notwendig|notwendig]]) é o que gira o que compele, incondicionadamente necessário e "indispensável", e virar, torcer e retorcer são modos do "não superado" (aberto, livre a partir daí). 5. A causalidade na física é tratada como processos físicos mensuráveis em termos empíricos, causais e quantitativos, onde "só o que é mensurável é efetivamente real" e "objetivo", e pergunta-se o que é a causalidade, se é uma pergunta física, uma "lei" ou uma relação de "ser causa de um efeito", com a suposição de mensurabilidade, calculabilidade prévia e encomendabilidade técnica; o transcurso causal é definido como a sequência necessária dos acontecimentos a partir dos dados em um ponto do tempo, e Heitler afirma que desde Newton a ideia de causa impera sobre toda a ciência, mas a causalidade mesma não é nada "causal", e sim uma "lei"; o princípio transcendental da sequência temporal segundo a lei da causalidade afirma que tudo o que acontece pressupõe algo ao que se segue segundo uma regra, e o conceito de causa diz que, quando algo é estabelecido, por meio daí também precisaria ser estabelecido necessariamente algo diverso, onde o efeito não se acrescenta à causa, mas é estabelecido por meio dela e ocorre a partir dela, sucedendo-se necessariamente; junto à causa natural, o "como" não é inteligível, em contrapartida à "motivação", e a causalidade, que não é uma causa atuante nem mensurável, pertence ao "ser" de um ente, fundando os processos causais, possibilitando-os, conservando seu poder-ser e clareando sua causalidade, sendo um tipo de ser fundamento, fundada no "fundamento" como "o primeiro a partir do que" – o fundar e o "ser" como "fundamento": deixar estar defronte, e a regra e a lei concernem ao posicionamento de um tipo uno de um certo múltiplo, onde "ser" é a posição de um ente. 6. O fundamento (Grund) e o mostrar ([[lx>termos:z:zeigen|Zeigen]]) são articulados no principium reddendae rationis sufficientis, onde fundar é dar fundamento, e a fundamentação é mostrar, indicar, deixar ver e deixar apreender, identificando por meio de uma "demonstração", comprovação e conclusão, ou por meio de acenos para aquilo que se mostra a partir de si – αὐτό καθ' αὑτό. 7. A imperatividade dos argumentos é abordada a partir do arguere – deixar reluzir – e do λόγον διδόναι, com a definição ciceroniana de argumentum como a ratio que facit fidem para uma sentença incerta, onde fides é confiança e credibilidade ([[f>p:pistis|πίστις]]), e rationem reddere é fundamentar, exigir concordância e produzi-la, tomando por algo; o "qua" ou "como" (ἤ) é o dizendo que algo se mostraria nele mesmo e perduraria diante de nós, como αὐτό καθ' αὑτό. **C. FUNDAMENTO E CAUSALIDADE** 1. O fundamento (Grund) como "motivo" (Motiv) é diferenciado da causalidade e da motivação: o fundamento mobilizador (Beweggrund, o motivo) é a "afinação determinante" e a "razão determinante", enquanto o ocasionar e o efetuar são a [[f>p:proairesis|προαίρεσις]]; no exemplo do barulho na rua que leva a fechar a janela, o barulho não é a causa eficiente do fechamento, pois a perturbação não provoca necessariamente a ação, mas o "com base em" – o barulho ouvido como perturbador – é um "evocar" que clareia o "por meio do que" como exigência ou oportunidade, e o motivo (razão mobilizadora) é a ligação entre a razão do movimento e a resolução, onde o barulho causa uma contrariedade e irritação, mas não é a causa da resolução, que envolve a interpelação, o aceitar e o deixar-se-de-terminar; o motivo não afeta a realização da ação, e não é um "estímulo" nem um "ser impelido a", e "algo inconsciente" nunca pode ser "motivo"; a causalidade por liberdade e a causalidade da causa inteligível são contrapostas à causalidade na sequência temporal, sendo esta última também "temporal", mas no sentido da temporalidade ekstática (ekstatische Zeitlichkeit) do simultâneo das ekstases; a ratio cognoscendi é o fundamento do conhecimento, a partir de onde se conhece, não o que causa o conhecimento, e o telhado fumegante, como acontecimento, não causa o enunciado, mas é um motivo possível para o enunciado – o estado de coisas não é causa, mas o possível motivo (razão mobilizadora) para a ação, onde "com base em" é efetivo. 2. A discussão sobre o vazio ([[lx>termos:l:leere|Leere]]) e o abarcar mostra que o vazio é o livre para, e o "livre de" é fundado no "livre para", como no exemplo das cadeiras vazias (que são "livres" para serem ocupadas), e o "grande vazio" é negativamente "quase ninguém presente". 3. O [[f>a:aition|αἴτιον]] é relacionado ao estar em dívida, ser culpado e dever, onde o "dever" é algo exigente e aquilo que causa. 4. A fundação ([[lx>termos:b:begrundung|Begründung]]) é distinguida em ratio cognoscendi (fundamento do conhecimento), ratio essendi (fundamento ontológico, o ser o que) e ratio fiendi; algo colorido, como o vermelho, é apreendido a partir da difusão, que é o fundamento ontológico para algo colorido, e uma proposição S é P é o fundamento a partir do qual se compreende o que é um S, onde o [[f>l:logos|λόγος]] é o [[f>p:proton|πρῶτον]] e o trecho é a dilatação como algo livre, de – até, um "para fora do outro", ao lado de ponto, superfície, corpo, construto, e o "enquanto" é o algo como algo. **D. 9 DE JULHO DE 1964** 1. A última noite de seminário foi marcada por um insucesso, cuja primeira razão foi o procedimento de conduzir imediatamente ao fenômeno do "ser no espaço" junto às coisas e aos homens, sem uma preparação ulterior que normalmente consiste no aceno para aquilo sobre o que se pergunta e na indicação de como e por que caminhos se conquista o acesso aos fenômenos questionáveis; a opinião de que já teria ficado suficientemente claro em janeiro sobre o que se perguntava e para onde se dirigia a meditação, com o título "A tese kantiana sobre o ser", levou ao lançamento ousado em direção à tentativa de vislumbrar o ser (das [[lx>termos:s:sein|Sein]]) junto ao exemplo da mesa existente e à tese de que "Dasein", existência, não seria nenhum predicado real; a dificuldade reside na coisa mesma denominada "ser", pois para as ciências o âmbito objetual já está previamente dado, enquanto o ser, embora já clareado para o ser humano, não é atentado e considerado de maneira expressa, e a diferenciação entre ser e ente ([[lx>termos:s:seinsunterschied|Seinsunterschied]]) é a mais fundamental, difícil e arossante, especialmente quando o pensamento é determinado exclusivamente pela ciência, que trata apenas do ente. 2. A segunda razão do insucesso é a atual validade mundial das ciências naturais, que alimenta a crença de que só as ciências exatas dariam uma verdade objetiva e comprovada, de modo que a ciência técnica moderna seria a nova religião, e, na perspectiva do pensamento científico-natural sobre o ente, a tentativa de pensar o ser parece arbitrária, não demonstrável objetivamente e mística; na esfera da investigação do ente, com seus métodos e pretensões de verdade, "ser" e o que lhe é pertinente nunca têm como ser vislumbrados, pois "ser" exige um tipo próprio de comprovação, com sua própria imperatividade, que não se encontra sob o arbítrio do homem nem sob o domínio da ciência; para levar a termo a diferenciação entre ser e ente, é preciso recolher-se em relação à postura e às pretensões da ciência, e isso não significa abandonar as ciências, mas alcançar uma relação meditativa e sapiente com elas, que pense a ciência integralmente de maneira veraz; para o vislumbre do ser (Erblickung des Seins) é preciso uma prontidão da apreensão, e imiscuir-se aí é uma ação insigne do homem, uma transformação da existência, não um mero crescimento de conhecimentos. 3. Propõe-se uma nova tentativa de alcançar a diferenciação entre ser e ente, mantendo-se de saída junto àquele ente que se chama natureza, atentando para um traço fundamental que a determina, a fim de vislumbrar o que significa "ser" quando se diz: a natureza é. {{tag>GA89}}