====== 1964-1 A ====== //HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021// **A. SEMINÁRIO NOTURNO 24 DE JANEIRO DE 1964 – ANDAMENTO** 1. O que se pretende no seminário é uma suposição ([[lx>termos:a:annahme|Annahme]]), que pode parecer incompreensível ou supérflua, mas é considerada óbvia e necessária – não incondicionadamente, mas condicionada –, e a situação inicial do diálogo mostra pontos de vista muito afastados, como a ciência natural, a ciência e a filosofia; o que se pretende, a partir da leitura de Kant (século XVIII), não é um estudo introdutório à filosofia kantiana, nem uma interpretação de Heidegger ou uma confrontação com o título do escrito, mas sim ler o texto concentrando-se no que é dito e como é dito, para o que é necessário deixar de lado toda a ciência, pois ela se baseia em uma determinada interpretação do ser ([[lx>termos:s:seinsauslegung|Seinsauslegung]]), dar simplesmente ouvido ao que Kant diz, não julgar imediatamente se é correto ou falso, e imiscuir-se no modo como Kant diz sua tese e a "demonstra", sem que ele demonstre de maneira alguma, mas acene para algo manifesto. 2. A visualização da clareira ([[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]]) e do encontrar-se nela é contraposta ao pressuposto galilaico da natureza matemática, e quando esse pressuposto é riscado, não há referência possível àquilo que se interpela como alheio, remetendo-se à [[lx>termos:a:aletheia|ἀλήθεια]] e à ὀρθότης; quando riscado, contudo, a consideração da natureza ainda é possível, como em Goethe e nos gregos, mas com a experiência imediata modificada; não há "suposição" no sentido de hipótese, mas, de início, abstrai-se da psicologia e da psicanálise, contrapondo-se "[[lx>termos:d:dasein|Dasein]]" e "subjetividade"; a ὀρθότης é discutida a partir do "O que significa pensar?", onde λέγειν e ὁδός e ὀρθός remetem ao que se encontra diante de nós, e ὡς παντί φαινόμενα e λέγειν significam deixar encontrar-se diante de nós, dizer e "mostrar", enquanto ἀποφαίνεσθαι é aparecer e deixar-se presentar. 3. A insistência na clareira do encobrir-se (Lichtung der Verbergung) é relacionada à linguagem ([[lx>termos:s:sprache|Sprache]]) e ao presentar ([[lx>termos:a:anwesen|Anwesen]]), e pergunta-se em que medida "aparece" e se mostra despontando o ser, e em que medida "ser" diz pre-sentar e deixar presentar, questionando-se se se pode dizer "o ser aparece", como em Fichte. 4. As suposições (Voraussetzungen) são analisadas: supor é esperar, presumir, "imaginar", não sendo mera representação nem juízo (sim e não); o suposto é o "posto que – se – então", e "imputar" é estabelecer algo como condição sob algo que não é ele mesmo dado e que não pode ser dado, avaliado por meio do efeito, da explicação e do normativo, e pergunta-se que pretensão de clareza e de onde ela é determinada; o su-por é acolher um dado, manter, oferta e pretensão, se aberto para suposições imediatas, isentas e não aprisionadas em teorias, e a acceptio é o acolher e a oferta imediata de algo dado, enquanto a suppositio é a im-putação de algo não dado sob algo previamente dado, o que nunca é primeiro indicável previamente, e toda im-putação é ela mesma algo acolhido sob algo já previamente dado, e toda [[f>h:hypothesis|ὑπόθεσις]] remete para um ἀνυπόθετον; a explicitação inicial do que é dito é seguida pela checagem da verdade da tese e de como Kant a demonstra, e a palavra inaparente "manifesto" é discutida como manifestamente evidente (videri – deixar-se ver) e ἀναρχής como luminoso, brilhante (argentum, prata), mostrando-se a partir de si mesmo; a prova "esta mesa é" mostra que se compreende o enunciado sobre esta coisa, compreendendo o que o "é" tem em vista, sem poder dizer exatamente o que isso significa – o fato de que tal coisa "é" –, e Kant diz que ele não é "algo real", onde "real" é material e pertence à res, à coisa. 5. A investigação sobre a coisa é feita por análise: decompor a mesa – tampo, pés, figura espacial, cor, peso, dissolver em madeira, matéria prima, energia, mundo eventual –, mas a prova é um revisar a partir da coisa que se encontra diante de nós, onde com "é" não é dito nada real, e, contudo, ele é dito dela, desta mesa, de maneira tão decidida que todos os outros enunciados sobre esta mesa se baseiam nesse dizer, que já é co-dito e previamente dito em todo enunciado; se não pertence ao conteúdo material de uma coisa, pergunta-se onde se poderia encontrá-lo e como compreender o que de qualquer modo se compreende – "é" –, e a determinação kantiana de "ser" como "meramente a posição" é mantida em aberto, atentando-se primeiro para como Kant quer que essa determinação seja compreendida, remetendo-se a Platão (ἀνυπόθετον e ὑπόθεσις) e à Física de Aristóteles; o que elucida iniciando tudo é a clareira do ser, com ela para nós, dando algo elucidativo e exigido (αὐτὸ καθ'αὑτό), que a partir de si mesmo brilha como ele mesmo, como o sol brilha, sem nenhum "critério", sendo em si claro e luminoso; a contenda é que o que há de mais luminoso e autêntico não é o incontestável, e o que desta maneira mostra a si mesmo, constantemente brilha, se chama "fenômeno" ([[lx>termos:p:phanomen|Phänomen]]), e o primado do fenômeno (ἀνυπόθετον) está antes das su-posições, distinguindo-se "fenômeno" e fenômeno. 6. A sentença de Freud nas "Preleções sobre introdução à psicanálise" é citada: "Nós nos empenhamos por uma concepção dinâmica das aparições psíquicas. Os fenômenos percebidos precisam retroagir em nossa concepção na direção das aspirações apenas supostas", onde as supostas são "as condições para o vir a termo" dos fenômenos; Freud afirma que não se começa com pressupostos, mas com uma investigação, escolhendo certos fenômenos muito frequentes, muito conhecidos e pouco valorizados, sem relação com doenças, observáveis em qualquer pessoa saudável, como os atos falhos (falhas na fala, na leitura, na escuta, esquecimentos, perdas), que são "eventos inaparentes" e "ocorrências constatadas"; o fenômeno, porém, é o que aparece e o que se mostra nele mesmo, podendo ser percebido como "intuição empírica", mas a região do perceptível não equivale ao âmbito daquilo que se mostra nele mesmo, que já sempre se mostrou sem ser perceptível, mas não obstante é apreensível e ex-perimentável; também não há fenômenos meramente perceptíveis, pois eles não se mostram apenas aqui e acolá, mas constantemente, também e precisamente nos fenômenos perceptíveis. 7. A discussão sobre clareira e linguagem aborda: para onde demonstrações não são suficientes, o que não carece de uma demonstração e o que rejeita uma demonstração, onde demonstrar é fundamentar, remetendo ao princípio de razão (Principium rationis, Nihil est sine ratione) e ao "verificar". 8. A questão é levantada: se só se reconhece o que é demonstrado, os senhores podem demonstrar a sua própria existência? 9. A análise do "prometer" (versprechen) e do falar ([[lx>termos:s:sprechen|sprechen]]) parte do prefixo "ver-" em alemão, que intensifica ou inverte o sentido do radical, como em verbinden (unir de maneira radical) e versprechen (prometer), e o falar é tratado como dizer, e a linguagem como aquilo que se língua (fala); a insistência patente na clareira do encobrir-se é confrontada com a frase "Eu vejo esta mesa aqui", e pergunta-se, sob a suposição de que se fosse desprovido de linguagem, se ainda se poderia "ver" esta mesa, enquanto a águia e a abelha também "veem" de qualquer forma, ativando os olhos; a questão do dativo e do acusativo é mencionada em relação a "prometer-se". {{tag>GA89}}