====== 1960-2 Subjetividade ====== //HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021// **SUBJETIVIDADE, CONSCIÊNCIA E DASEIN** 1. A clarificação da práxis médica exige a prova das pressuposições que resultam do círculo de visão, seja mediante uma aplicação restrita à técnica e ao cálculo de sucesso, seja junto à clarificação dos pré-suppostos, que são o previamente dado e historicamente legado pela tradição, considerando a historicidade das representações diretrizes e dos critérios de medida – não como relatividade, mas como o prévio, o sendo-sido e o adveniente –, e a aparente crítica em relação à permanência junto ao meramente consciente, com recurso ao inconsciente, é contraposta à falta de crítica em relação àquilo que é constantemente ponto de partida e de direcionamento, ou seja, o sentido e a conscienciosidade. 2. A meditação sobre a consciência ([[lx>termos:b:bewusstsein|Bewusstsein]]) pergunta o que isto significa, em que medida ela é separada no Dasein – apenas na medida em que é aberta para si mesma como referida, petição e mando, já manifesto e percebido –, e em que sentido o "in-" e o "não" são tomados como falta da atenção, da notação, como representação não notada, aspiração não notada, "esquecimento" ([[lx>termos:v:vergessenheit|Vergessenheit]]) ou "feixe de pulsões", ou como o velado, que é algo completamente diverso e próprio ao Dasein. 3. As questões colocadas são: se todo inconsciente é a partir da consciência, já que a determinação de consciência forma o ponto de partida de todas as investigações; se a consciência é o que dota de medida ao modo de um nexo de sentido sem lacunas, onde "sentido" e "cultura" são postos em questão; se o ponto de partida junto ao inconsciente "legítimo" está de acordo com o "modo de pensar considerado como correto"; se a consciência enquanto tal é suficientemente descrita e apresentada, quando os fenômenos percebidos precisam se recolher em relação às supostas aspirações; mesmo que isto fosse visto, pergunta-se se a "consciência" é o traço fundamental do ser do homem ou se ela pressupõe o princípio do homem como um sujeito sem mundo; e não se trata de uma posição contra a "consciência" enquanto tal, mas contra o fato de que ela determina normativamente o ser humano no sentido de um sujeito, opondo-se subjetividade e Dasein. 4. As questões prosseguem indagando se os senhores já perceberam alguma vez algo psíquico "na consciência" – um interior da pessoa –, o que não ocorre, nem se alcança esse algo por meio de uma conclusão ou esquema, mas ele é con-sciente como o imediatamente visto, o que se presenta, o presente, o con-viva, e pergunta-se como se dá o ser-com junto ao mesmo mundo. 5. A referência a Edmund Husserl nas "Investigações lógicas" V distingue três acepções de consciência: como consistência fenomenológica do eu, onde consciência é igual a ser vivenciado e a consistência fenomenológica real conjunta do eu empírico como entretecimento das vivências na unidade do fluxo vivencial; como percepção interior, ou seja, o aperceber-se interno das vivências psíquicas próprias; e como vivência intencional, designação sintética para todos os "atos psíquicos" ou "vivências intencionais", onde as vivências são acontecimentos apropriadores que se desenrolam na consciência, mas não necessariamente apreendidas em sua totalidade. 6. O [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] e o ser-com ([[lx>termos:m:mitsein|Mitsein]]) são abordados com a observação de que o desenho é inadequado, e o fato de o estado de coisas não se deixar representar por desenho fala a favor dele; ao ser-aí ([[lx>termos:d:da-sein|Da-sein]]) corresponde aquilo que o inconsciente é em relação à consciência, ou seja, algo precisa corresponder à retração ([[lx>termos:e:entzug|Entzug]]) e ao esquecimento ([[lx>termos:v:vergessenheit|Vergessenheit]]), e o ser-com é Dasein, mas de qualquer modo compreensão de ser ([[lx>termos:s:seinsverstandnis|Seinsverständnis]]) como encontrar-se no cerne da clareira ([[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]]). 7. O Dasein é clarificado provisoriamente pelos nomes, contrapondo-se consciência, inconsciente e histórico, sem uma visada para a coisa; os princípios metodológicos da metapsicologia, psicologia e psicologia do consciente são confrontados com a referência a Husserl e com a relação entre Dasein e consciência. 8. A primeira afirmação da psicologia sobre o inconsciente é que os fatos de os processos anímicos serem em si e por si conscientes e de os processos conscientes serem atos e parcelas meramente particulares de toda a vida da alma são preconceitos, pois a psicologia é habitualmente a doutrina dos conteúdos da consciência, mas "o anímico é o consciente" é um preconceito, e com a suposição dos processos anímicos inconscientes avia-se uma nova orientação decisiva para o mundo e a ciência. 9. Os princípios metodológicos estabelecem que a conquista de sentido e nexo é um motivo justificado que pode conduzir para além da experiência imediata, e que é uma desmedida insustentável exigir que tudo o que ocorre no psíquico precisasse se tornar conhecido também para a consciência, mas pergunta-se se "consciência" é a determinação essencial suficiente do homem e se o nexo de sentido explicável sem lacunas é uma ideia justificada para a determinação do Dasein. 10. Os princípios metodológicos são reiterados: a "conscienciosidade" forma o ponto de partida de todas as investigações, e a suposição do inconsciente é não apenas necessária e incontornável, mas "legítima", isto é, completamente adequada ao modo de pensar considerado correto. 11. O recuo de Freud é caracterizado pela necessidade incontornável e pela legitimidade do inconsciente, completamente de acordo com o habitual "modo de pensar tomado como correto", mas pergunta-se se a "conscienciosidade" como ponto de partida é suficiente para a determinação essencial do homem, considerando-se o sistema psíquico. 12. A consciência é comparada com Husserl, o neokantismo, o saber, Schopenhauer, Descartes, e com os termos conscientia, conscience, suveiönnis; a percepção "interior" e a "consciência moral" são contrapostas ao perceber algo como um todo e aos "atos" como vivências intencionais, remetendo a Hegel e à distinção entre consciência (sensível) e autoconsciência. 13. O inconsciente e o consciente são diferenciados: o "in-" é privativo ([[f>s:steresis|στέρησις]], α-), enquanto o consciente é representar, e o in-cógito é contraposto à consciência como conscientia, conscience, suveiönnis, incluindo a consciência moral (con-saber) e a autoconsciência como reflexão, remetendo a Hegel e Kant, e o "in-" é questionado como inocente ou inverdade, aquém de culpado e inocente. 14. O inconsciente é analisado a partir do "in-" como sem culpa ou sem consciência, e o "in-" é considerado como incorreto, falta de, ainda não, não mais, nem como inocente, nem aquém de culpado e inocente, sem nenhuma ligação com "consciência". 15. O inconsciente é definido como aquilo de que nunca se pode tornar consciente no sentido do perceber, e Freud escreve um ensaio sobre o inconsciente, sabendo dele e estando consciente dele, mas o inconsciente enquanto tal não se torna consciente, é apenas uma suposição motivada pelo consciente. 16. O in-consciente é considerado a partir da consciência e, em si, como velado, numa questão sobre em que medida isso ocorre. 17. O consciente é caracterizado por representações percebidas, presentes na consciência como "praesent" – que se presenta e como presente –, e saber é ter presente, notar e aperceber, enquanto o inconsciente é subsistente em si sob a forma latente no anímico, por eliminação da consciência. 18. Os atos falhos – como cometer um erro na fala, errar o caminho, escutar errado, esquecer, adiar, perder e enganar-se na fala – são explicados por meio de "perturbações da atenção", e o exemplo do presidente da câmara que declara a sessão encerrada mostra que o sentido do ato falho é o "significado" ou intenção, e o sentido de um processo psíquico é a "intenção à qual ele serve e sua posição em uma série psíquica", onde sentido é compreendido como significado, intenção, tendência e posição em uma série de conexões psíquicas. 19. A referência a Husserl sobre o "Dasein da consciência" nas "Investigações lógicas" V é retomada. 20. A presentificação ([[lx>termos:v:vergegenwartigung|Vergegenwärtigung]]) é distinguida do tornar presente e da imaginação, incluindo o lembrar, o re-memorar e o presentificar, como no exemplo de parar junto à catedral de Münster, onde algo se torna peculiarmente presente, talvez mais próximo do que quando se está diante dela, e o presentificar não é um "transpor-se" para lá, mas um dirigir-se daqui para lá. 21. A re-presentação ([[lx>termos:v:vorstellung|Vorstellung]]) é referida à "Crítica da razão pura" de Kant, a "O que significa pensar?" e a Schopenhauer, e a percepção é contraposta à sensação – como tocar uma panela quente, a dor, o barulho –, enquanto o tornar presente e a re-presentificação são distinguidos da rememoração. 22. A lembrança latente é considerada como mera presentificação, como no exemplo de nunca ter visto ainda a Acrópole em Atenas, onde ainda não há nenhuma lembrança, e toda lembrança é uma espécie de presentificação daquilo que vem ao encontro como experimentado, enquanto a re-lembrança e o lembrar (internalizar) são contrapostos ao destacar-se em direção ao outrora, permanecendo e exteriorizando-se para o sido enquanto tal, e a morte é pensada como extrema lembrança. 23. O relatório do seminário menciona Kind, com a questão da coisa não consciente e a temática da compreensão da determinação essencial, o ser-com com um animal e o compreender melhor sem receber resposta, perguntando onde está a diferença; Condrau, com a questão de por que diante de si se encontra um homem e qual o essencial; Bodenheimer, com o violino, a calculabilidade e a incalculabilidade, a coisa sem resposta, e a questão sobre se o ser humano é algo corpóreo e por que um terceiro ou algo terceiro, porque homem; Bally, com o diálogo onde se é afinado de outro modo, o estar de maneira tátil afinado, o objeto e a consideração teórica, todos já no quinto ou sexto andar; Heydt, com a pergunta sobre em que medida se dialoga com ele com base no que se deu anteriormente, antes do diálogo no qual ambos se movimentam um na direção do outro; Meerwein, com o adoecimento das artérias, o paciente e o fato de isto levar a uma tematização; e Blickenstorfer, com coisas e homens, o ser-com, o desenho, ou o ser humano enquanto ser-com, ser cego e surdo. {{tag>GA89 subjetividade}}