====== 1960-2 B ====== //HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021// **B. ANOTAÇÕES AO SEMINÁRIO DE BURGHÖLZLI** 1. A discussão sobre a analítica do [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] ([[lx>termos:d:daseinsanalyse|Daseinsanalyse]]) contrapõe os prognósticos de tipo causal-genético, baseados em probabilidade e calculabilidade, a uma compreensão daseinsanalítica das perturbações corporais humanas, enquanto a psicologia tradicional subdivide a psique em inconsciente, pré-consciente e consciência, com descrições dinâmicas e determinações econômicas das forças, e a realização pós-hipnótica de um comando levanta a questão da introdução do "sujeito", como em Viktor von Weizsäcker, que trata as perturbações corporais como fenômenos "expressivos" do sujeito, e pergunta-se pela localização do comando, se na psique como recipiente, e pela ligação com o mundo na obediência. 2. A "clareira" ([[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]]) é questionada como imagem ou como algo inconsciente, relacionando-se com a visão e os olhos, numa parábola ou alegoria, e o ser pura e simplesmente (Sein überhaupt) é caracterizado como indeterminadamente universal e abstrato, mas também como unicamente-reunidor (einzig-sammelnd), sendo preferível, em vez disso, partir de coisas concretas, como sugere Nicolai Hartmann. 3. O modo de pensar científico-natural, com seus costumes, parte do ente "natural" para o ente complicado, mas pergunta-se se esse procedimento é seguro, e se podem haver outras "ontologias" ao lado da heideggeriana, enquanto os médicos são convidados a deixar de lado os "homens" e a "questão do ser", e a analítica do Dasein é considerada apenas uma "estrutura ontológica" em oposição aos fenômenos ônticos, que são os únicos a interessar o médico, especialmente o aspecto "dinâmico" (pulsional) e genético-causal, e pergunta-se como o pensar dá uma indicação para a lida medicamente compreendida com os doentes. 4. O simples despertar em meio à clareira (Lichtung) do ente enquanto tal (aqui do objetual) é caracterizado como o aberto e livre, e o despertar ocorre por meio de acenos, sobreouvir, acenar e apontar, num querer sobreouvir, e a experiência de ser apropriado em meio ao acontecimento ([[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]) para o desvelamento do ente enquanto tal e esse desvelamento mesmo são contrapostos ao retorno à conscienciosidade, que é apenas representar de algo, mas pergunta-se "o que" e "como"; a "pesquisa científico-natural" e a "práxis médica" são confrontadas com o objeto e o tema, no âmbito da "era técnica", onde a tradução do conhecimento científico em diagnóstico e terapia pode significar ou uma aplicação que move na mesma linha de visão, obrigando o ser humano a entrar nessa linha, ou uma experiência extracientífica do ser humano para testar se e como a ciência natural é útil; o progresso das ciências e a recaída no "esquecimento do ser" ([[lx>termos:s:seinsvergessenheit|Seinsvergessenheit]]) consistem no subtrair-se ocultando-se a verdade do ser do ente. 5. O automóvel é considerado como utensílio para dirigir, e o "livre em face de" e o servir-se dele, mas não é um auto no sentido de um quase. 6. A "cisão" entre a ontologia fundamental e a psicologia é discutida com Condrau, onde se pergunta se a psicologia a tudo abarca, e a alternativa "Freud ou Heidegger" é considerada inútil frente à ontologia fundamental e ao Dasein. 7. A ontologia fundamental é considerada inútil para Gebsattel. 8. A linguagem científico-natural, a linguagem médica e a linguagem psicológica são confrontadas como questões médicas. 9. A questão sobre a compreensão de ser (Seinsverständnis) em que C. G. Jung se movimenta é levantada, assim como a alternativa da tradução. 10. A historicidade da compreensão de ser (Seinsverständnis) é caracterizada como estada ([[lx>termos:a:aufenthalt|Aufenthalt]]) no desvelamento do ente enquanto tal, e a necessidade é algo tão trivial quanto a necessidade no chapéu. 11. O sentido de um processo psíquico é definido como intenção ou "tendência" que serve a uma intenção e sua posição em uma série psíquica, e o exemplo do ato falho no discurso de abertura ("Eu declaro a sessão encerrada") é considerado, e a explicação psicanalítica interpreta as manifestações como "manifestações de tendências ambiciosas, que trabalham juntas ou umas contra as outras", num jogo de forças na alma, onde os fenômenos percebidos precisam se retrair ante as aspirações apenas supostas, conforme as preleções de Freud. 12. A "meditação" ([[lx>termos:b:besinnung|Besinnung]]) é ilustrada pela referência a Shankaracharya e aos estados de vigília, sonho e sono profundo sem sonhos, donde o pensar precisa partir da consideração atenta do sono profundo para poder despertar daí, sabendo que se era o mesmo, e no estado da maior claridade possível experimenta-se que a "vida" habitual desperta ainda reserva, e a coisa é dita ao mesmo tempo no caminho da linguagem, liberando e retendo, no acontecimento apropriador (Ereignis), como exercício da experiência da meditação e saga (Sage) no próprio acontecimento apropriador. 13. A realidade efetiva da diferenciação entre atos anímicos conscientes e inconscientes (ou capazes de consciência) é discutida a partir da obra freudiana, que introduz um fator dinâmico (acúmulo de afeto) e um fator econômico (conversão de quantidade de energia), e as aparições, como o ato falho, são concebidas como indícios de um jogo de forças e como manifestação de tendências ambiciosas que trabalham juntas ou umas contra as outras, numa concepção dinâmica das aparições anímicas. 14. O aceno para a compreensão de ser (Seinsverständnis) não é um desvio em direção ao abstrato, mas conduz para aquilo em que cada um não apenas existe fatalmente, mas essencialmente, e em que se está reunido uns com os outros, no mais concreto, e a suposição de que não se mantém na compreensão de ser é questionada, pois a compreensão de ser não é um componente de uma filosofia, mas aquilo em que o ser humano se mantém sempre já como homem, e "compreender" significa projetar ([[lx>termos:e:entwerfen|entwerfen]]) e deixar-se tocar de uma maneira particular. 15. A realidade efetiva ([[lx>termos:w:wirklichkeit|Wirklichkeit]]) tem sua essência na alegoria, onde tudo o que é é uma alegoria, e "algo como" é a alegoria mesma, que se essencia no acontecimento apropriador (Ereignis), e não há diferenciação entre realidade efetiva propriamente dita e mera alegoria, pois ambas são idênticas numa identidade que permanece em questão. 16. A concepção científica é contraposta à práxis humana. 17. Em Burghölzli, a proposta da noite anterior de que se pode predizer o resultado é peculiar, pois cada um, julgado por seu trabalho profissional e pela ciência, constata que com isso não consegue fazer simplesmente nada, mas essa constatação correta é incompleta, pois aquilo sobre o que se julga é exatamente o que já foi feito (iniciado) com cada um, já sempre requisitando de tal modo que, sem ouvir essa pretensão, não se poderia empreender nada, nem na práxis nem na ciência, e a tese de que a ciência não pensa no sentido dos pensadores é retomada. 18. O pensar é definido como a ligação apreensiva-interpretativa com o ser, e a prova principal (incessante) é comparada a um "experimento", onde se produzem condições determinadas e supostas para comprovar o que acontece, mas o "aparelho" é apenas meio, e o essencial é o que está dado no auditório, como o estar sobrecarregado pelo trabalho do dia ou o tempo feio, que são expressos ou não. {{tag>GA89}}