====== GA78 §7 ====== //Der Spruch Anaximander (1946) [2010]// **§ 7. A tradução fiel ao sentido de tà ónta** * A pergunta sobre o significado de "ser" (Sein) e a fluidez de nossa compreensão de ser revelam que a tradução literal de eînai por "ser" ainda não é uma tradução fiel ao sentido, pois o dicionário já traz uma interpretação das palavras que precisa ser constantemente questionada. * Quando se diz "o ente" (das Seiende), não se pensa necessariamente o que a palavra grega significa e nomeia de modo significativo, nem o que ela dizia ao grego que pensava, pois a mera correspondência lexical não garante a compreensão do pensamento grego. * O exame do que cada um pensa ao ouvir as palavras "ente" e "ser" revelaria opiniões tão múltiplas que não corresponderiam à aparente uniformidade da palavra "ser", e o que vem à tona é apenas a suposição de que já se sabe o que a palavra nomeia, dispensando um pensar mais detido. * A fluidez (Flüchtigkeit) do suposto entendimento é tão costumeira que a própria falta de constância dessa fluidez aparece como a constância do significado unívoco das palavras, e a pergunta sobre o que se está, de fato, evitando com essa estranha fluidez irrefletida talvez só possa ser respondida após a escuta do fragmento de Anaximandro. * Ao se perguntar o que significa "ente", as respostas usuais — "o real" (das Wirkliche), "o existente" (das Existierende), "os objetos" (die Gegenstände), "o objetivo" (das Objektive) — mostram-se problemáticas, pois não se sabe se todas essas interpretações significam o mesmo, qual é a medida para avaliá-las e, sobretudo, se o que se pensa com "ser" como "realidade" (Wirklichkeit) corresponde ao que os gregos pensavam com eînai e ón. * Tudo isso é em grande medida questionável (fragwürdig), e a pergunta que se impõe é se a tradução literal e corrente de eînai por "ser" é algo mais do que a transmissão irrefletida de uma irreflexão, pois não está claro o que "ser" significa em nossa própria língua, nem se isso corresponde ao que a palavra grega dizia. * A tradução de eînai por "ser" é literal, mas de modo algum fiel ao sentido (wortgetreu), pois não atenta para o que essa palavra, pensada e dita em grego, significa, afastando-se do grego e apegando-se ao próprio modo de pensar, que permanece preso à irreflexão do óbvio. * Com a palavra "ser" do ente, que é o tema tradicional da filosofia ocidental, pode-se escrever "ontologias" sem nunca pensar nela essencialmente, ou até mesmo negar a possibilidade da ontologia, ou ainda elevar a negligência (Nachlässigkeit) do falar sobre o "ser" a princípio do filosofar. * Aristóteles já disse que tò ón légetai pollachôs ("o ente é dito de múltiplas maneiras"), mas a pergunta preliminar é o que essa palavra grega pensa e significa, pois só se pode pensar a multiplicidade de significados do ón a partir da unidade se estivermos próximos do que a palavra nomeia. * A tradução de tà ónta por "o ente" (das Seiende) não é muito melhor do que a tradução por "as coisas" (die Dinge), e pode ser pior, pois, sob a pretensão de literalidade, envolve no engano de que o essencial já foi visto, quando, na verdade, a palavra tà ónta ainda não foi traduzida para o domínio de significação do dizer grego. * O que se fez até agora foi apenas substituir uma palavra grega pela "correspondente" palavra alemã, sem que nem uma nem outra falem propriamente; o que importa é que o pensamento se traduza para o lugar de onde a palavra grega fala, e para isso é preciso que os próprios gregos nos tragam para lá, mediante uma escuta mais cuidadosa ou um pensar que se dirija ao que vem à linguagem no fragmento. * A liberação provisória do sentido grego de ser, por meio do retrocesso a Homero (Ilíada I, 70), mostra que tà eónta significa o ente presente (das gegenwärtig Seiende), isto é, o que é vigente no tempo (das »zur Zeit« Anwesende), de modo que "ser" (eînai) significa ser-presente, estar-vigente (anwesen). * No verso de Homero sobre o vidente Calcas — òs hḗidē tá t' eónta tá t' essómená pró t' eónta — traduz-se: "que conhecia o que é, o que será ou o que foi antes", mas uma tradução mais literal seria: "que divisava tanto o ente como o ente posterior, e também o ente anterior". * O termo tà eónta, dito simplesmente, não significa o ente em geral e no todo, mas o que agora é ente (das jetzt Seiende), em distinção ao ente posterior (nachmals Seiende) e ao ente anterior (vormals Seiende), e o "agora" (jetzt) não se refere a um momento pontual, mas a um tempo mais amplo. * O anterior (Vormalige) é chamado de prò eónta, ou seja, é "ente presente" (Gegenwärtiges), apenas "presente outrora" (Gegenwärtige damals), e o futuro (Zukünftige) é "ente presente depois" (Gegenwärtige nachmals), não sendo, portanto, um ente completamente fora do ser, nem um não-ente. * O "ente presente outrora" ainda é eónta — "presente" (Gegenwärtiges), mas não mais "agora"; ele é ausente (abwesend), mas isso não significa que se dissolveu no nada, e sim que se foi como "presente" (Gegenwärtiges) "em seu tempo", e por isso é ainda algo que vigora (Wesendes), mas ausente nesse tempo. * O "ente" (das Seiende), dito simplesmente, é o que vigora no tempo (das zur Zeit Anwesende), e só enquanto ón, isto é, enquanto vigente (Anwesendes), o "passado" (Vergangene) pode estar ausente; assim, tà eónta pode ser chamado simplesmente de "o vigente" (das Anwesende), sempre pensando com "agora" ou "presente". * Tà ónta significa "os presentemente presentes" (die gegenwärtig Gegenwärtigen), mas prefere-se dizer "os vigentes" (die Anwesenden), não apenas para evitar a repetição, mas por razões que estão na própria coisa a ser pensada, e uma tradução mais clara seria "o que vigora no tempo" (das zur Zeit Anwesende). * Se o ausente, no sentido de anterior e posterior, é algo que vigora "em seu tempo" (seiner Zeit), então no vigente (Anwesenden), isto é, no que vigora "no tempo" (zur Zeit Anwesenden), o ausente também deve vigorar (wesen), o que indica a necessidade de pensar a relação entre presença e ausência para além de uma dialética superficial. * O termo "presente" (Gegenwärtiges) é evitado porque facilmente se o entende como "contra nós" (gegen uns), como objetos para um sujeito, mas a presença (Gegenwart) para nós pressupõe a vigência (Anwesenheit), ou seja, o "vigorar no tempo" (Anwesen zur Zeit), e a objetividade não é uma interpretação subjetivista do ser, mas a verdade na qual o ser se coloca a si mesmo e determina um destino do homem na época moderna. * O retrocesso a algumas palavras gregas falantes mostra que "vigorar" (An-wesen) significa trazer-se à vigência (sich an-bringen), o que se manifesta como brilho (Bracht), esplendor (Pracht), aparecimento (Er-scheinen) e fulgor (Glänzen), indicando que o ente, enquanto vigente, é o que se traz à mostra e, assim, se faz valer. * Palavras como períosion (περίωσιον), periosía (περιωσία), parousía (παρωσία) e, finalmente, ousía (οὐσία) — que inicialmente significa "propriedade" (Vermögen), "posse" (Habe) — pertencem ao mesmo campo semântico, pois a posse só pode ser o que já está diante de si, o que vigora por si mesmo. * No "vigente" (Anwesendes), pensado gregamente, ressoa que ele oferece algo para ser tomado, e que só pode oferecer isso porque já lhe está à disposição a partir de si mesmo; o vigente traz-se à vigência e se coloca à mostra, e "an-wesen" (vigorar) diz "an-bringen" (trazer à vigência), sendo "trazer" (bringen) o deixar chegar e vir à presença. * O trazer-se à vigência (Sichanbringen) acontece como aparecimento (Erscheinen) no sentido daquele brilhar (Scheinen) que se conhece no nascer e brilhar do sol, que é o próprio sol; o brilhar (Scheinen) é o desabrochar do puro reluzir, no qual o que desabrocha deixa aparecer, e é um luzir (Leuchten), um fulgurar (Glänzen), no fulgor do qual outra coisa resplandece. * O vigente (Anwesende) como o trazido à vigência (Angebrachte) é o brilho (Bracht), o esplendor (Pracht): o fulgurante (Glänzende) — o que se oferece no fulgor (Glanz), e o que ultrapassa o ente como vigente, o que vai além do habitualmente trazido à vigência, diz-se períosion e pode tomar várias direções, sendo traduzido como "além da medida", "acima do mérito", "excessivo". * Períosia (περιωσία) traduz-se corretamente por "riqueza" (Reichtum), pensando-se no excesso, mas literalmente pensa-se no que vai além do vigente habitual (über das Anwesende sonst hinausgeht), permanecendo ao redor (perí) e envolvendo-o, de modo que o periòsion é o que ainda se eleva ao redor do que se eleva e é mais vigente (anwesender) do que o ente habitual. * O "restante" (Übrige) não é um mero acréscimo, mas a fonte no vigente (Quell im Anwesenden), o inesgotável que sempre traz o brilho (Bracht), e periòsion significa: mais ente do que o ente habitual: mais vigente, mais trazido à vigência, aparecendo no alto fulgor do simples brilhar, onde o fulgor não é um verniz que cobre, mas o luzir que traz o vigente à sua vigência. * O brilho (Glanz) é o próprio vigorar (Anwesen), e o vigente (Anwesendes) resplandece como tal no fulgor da chegada (Ankunft), e se algo vigora para além de outro, deve vigorar uma medida (Maß) no vigente, segundo a qual algo pode ser mais vigente (anwesender) do que outro, e o mesmo ente pode ora mais, ora menos vigorar. * A possibilidade de uma apreensão adequada do ente é uma consequência da medida (Maß) em que o vigente se traz ao brilho, e a aparência de falta de medida no ente habitual é o mais inquietante, caso a medida dessa falta de medida seja um dia experimentada. * A possibilidade da apreensão moderna da natureza como conquista (Eroberung) também é uma consequência da medida em que o ser deixa o ente chegar e lhe retira o vigorar, e isso depende de como o ser se retira, podendo até mesmo se entregar à "consciência" e acontecer como objetividade (Gegenständlichkeit), levando o homem a se insurgir contra o ente para subjugá-lo. * A reflexão sobre as palavras gregas que nomeiam o ente como vigente não prova nada, mas visa apenas indicar (weisen) o pensamento para o que a palavra grega diz, e esse indicar baseia-se no contexto do dizer grego, cuja clareza e altura na proximidade com o "ente" não pode ser superada, como se vê no início da Quinta Ode Ístmica de Píndaro.