====== Fenomenologia do Espírito – 9-12 ====== 9. A consciência fornece "em si mesma" (an ihm selbst) o critério de seu próprio exame, não porque precise desenvolvê-lo posteriormente e a partir de si, mas porque, pensada simultaneamente como autoconsciência cartesiana e como consciência transcendental kantiana, a objetidade do objeto já se funda nas funções unificadoras originárias (sintéticas) da autoconsciência, contra as quais todo objeto deve medir-se. * A comparação kantiana com a revolução copernicana, no prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura, não exprime subjetivismo algum, pois Kant não afirma que a árvore, enquanto árvore, deva conformar-se ao que dela penso, mas que o objeto, enquanto objeto, possui a essência de sua objetidade naquilo que pertence de antemão à essência da objetidade mesma. * Diferentemente de Kant, que se detém na autoconsciência humana, Hegel faz da própria autoconsciência seu objeto explícito, deixando nela desdobrarem-se os critérios mais originários, de modo que dizer que a consciência "fornece" seu próprio critério significa que, em seu curso rumo à própria essência, ela deixa aparecer, a cada vez, um critério distinto, sendo em si mesma formadora de critério. 10. A consciência, ao se comportar em relação ao objeto de que é consciente e, ao referir esse objeto a si mesma como seu próprio si-mesmo, comportar-se também em relação a si, realiza dentro de si a comparação entre aquilo que deve ser medido e o critério que mede, sendo essa comparação, em si mesma, exame — de modo que a consciência examina-se a si mesma, não ocasionalmente, mas sempre, enquanto pensa como autoconsciência em direção à objetidade do objeto. * A consciência é confrontação ([[lx>termos:a:auseinandersetzung|Auseinandersetzung]]) num duplo sentido: como disputa e exame que se lança-de-si-mesma-em-pedaços (Sichauseinanderlegen), autoexposição na unidade daquilo que nela se reúne — sentido cuja raiz grega remete ao [[lx>termos:l:legein|λέγειν]], ao [[lx>termos:d:deloun|δηλοῦν]], [[lx>termos:a:apophainesthai|ἀποφαίνεσθαι]] e [[lx>termos:h:hermeneuein|ἑϱμηνεύειν]], e cuja unidade dialógica se manifesta no [[lx>termos:d:dialegesthai|διαλέγεσθαι]] platônico, retomado por Hegel de modo modificado, moderno e incondicionado. * Como sublação tríplice, tético-antitético-sintética e formadora de critério, o curso da consciência é "dialético" em sentido originário, sendo esse "movimento dialético" aquilo que a consciência realiza sobre si mesma (an ihm selbst). 11. A revisão do percurso interpretativo até aqui recapitula que a Fenomenologia do Espírito, primeira parte do sistema-fenomenologia sob o título Ciência da Fenomenologia do Espírito, converte-se em parte subordinada no sistema-enciclopédia posterior, sendo o alcance dessa mudança para a metafísica do idealismo alemão apenas mensurável quando a essência da própria Fenomenologia estiver suficientemente esclarecida. * A pergunta pelo que é a Fenomenologia do Espírito é respondida a partir da Introdução, cujo propósito consiste na preparação da aproximação ao salto do pensar que se realiza na obra, mediante a elucidação do título suprimido Ciência da Experiência da Consciência, título estranho por incluir o termo "experiência" numa obra de metafísica especulativa absoluta, quando o empírico é justamente aquilo que, em toda metafísica, permanece inessencial. * A metafísica [[lx>termos:o:onto-theologie|onto-teológica]] do idealismo alemão reconhece que o conhecimento "do" absoluto só pode sê-lo se, ao mesmo tempo, conhece de modo absoluto, exigindo-se um exame cujo critério não pode ser suprido de fora, dado que a cognição não é "meio", mas o próprio raio pelo qual o absoluto nos toca, formulado nas duas proposições fundamentais: o absoluto já está conosco e quer estar conosco, e a cognição é o raio pelo qual a verdade nos toca. * Sendo a cognição o raio irradiado, seu caráter de "caminho" ([[lx>termos:o:hodos|ὁδός]], [[lx>termos:m:methodos|μέθοδος]]) não designa um trecho existente por si entre nós e o absoluto, mas o próprio vir do absoluto, percorrido apenas por nós ao percorrê-lo como curso, curso este já de antemão junto ao absoluto no sentido da síntese originária da elevação, o que determina o caráter tético-antitético, "dialético", do trajeto. * O exame do conhecimento absoluto não pode ser um procedimento que trata a cognição como meio disponível, mas realiza-se no próprio curso irradiado, sendo suas três proposições fundamentais: a consciência é, para si, seu próprio conceito; a consciência fornece em si mesma seu próprio critério; e a consciência examina-se a si mesma — restando a nós apenas o "puro olhar" (das reine Zusehen) sobre o movimento que a consciência exerce sobre si mesma. 12. A experiência ([[lx>termos:e:er-fahren|Er-fahren]]) de que fala Hegel na Fenomenologia do Espírito não se refere a entes acessíveis na cotidianidade, à maneira da [[lx>termos:e:empeiria|ἐμπειϱία]] aristotélica ou da experiência kantiana, nem constitui, propriamente, um modo de cognição, mas designa "a experiência da consciência" enquanto movimento dialético, curso duplamente entendido como atividade de ir e como passagem explorada ([[lx>termos:e:er-gangen|er-gangen]]) por aquilo que nele viaja: a consciência como representação. * Enquanto [[lx>termos:p:peira|πεῖϱα]] originária, a experiência é o envolvimento com algo a partir da intenção de ver o que dele resulta, envolvimento situado no domínio do confronto, com o caráter de probare, exame voltado ao que se espera encontrar no próprio curso — exame que não se dirige aos entes, mas ao ser, ao ser-consciente, sendo por isso não ôntico, mas ontológico, ou seja, experiência transcendental. * Como probare e pervagari, esse pesar e medir transcendental (librare) constitui um "atravessar" que perdura e sofre a violência da própria essência absoluta, sendo, ao mesmo tempo, uma "passagem" no sentido da absolvição da totalidade dos estágios e figuras do ser da consciência predeterminados pela elevação. * Esse atravessar ambíguo perfaz a passagem pelos três sentidos da sublação, tendo o traço fundamental da dupla negação originária que exige constante abandono do supostamente alcançado, constituindo um "caminho do desespero" e, por isso, uma "experiência dolorosa", sendo a dor sempre concebida metafisicamente por Hegel como consciência do ser-outro, da cisão, da negatividade. * Enquanto dor, a experiência é também elaboração ([[lx>termos:h:herausarbeiten|Herausarbeiten]]) das figuras essenciais da autoconsciência que aparece, sendo o "trabalho do conceito" a autoelaboração da consciência na totalidade incondicionada da verdade de sua autocompreensão, trabalho transcendental que se desgasta ([[lx>termos:a:abarbeiten|abarbeiten]]) a serviço da violência incondicionada do absoluto. * A experiência da consciência não é primariamente um modo de conhecimento, mas um ser, o ser do absoluto que aparece cuja essência própria reside no aparecer incondicionado a si mesmo, sendo o espírito "a ideia absoluta", o saber absoluto, e "a experiência da consciência" a essência da "fenomenologia", esta, por sua vez, "a fenomenologia do espírito". * O genitivo presente nos títulos "a experiência da consciência" e "a fenomenologia do espírito" não é genitivo objetivo nem meramente subjetivo, mas o genitivo especulativo-metafísico que nomeia a unidade do sujeito e do objeto e o fundamento dessa unidade, a saber, a elevação e a síntese na essência metafísica da consciência, sentido que se estende a todos os genitivos e flexões da linguagem da obra e que é indispensável observar para compreender o texto. {{tag>GA68 Hegel "Fenomenologia do Espírito"}}