====== Fenomenologia do Espírito – 1-4 ====== I. A fundamentação da realização da apresentação do saber que aparece articula-se a partir dos quatro primeiros parágrafos da Introdução, nos quais Hegel parte de uma "suposição natural" da época — a de que uma exame do conhecer deve preceder o conhecimento do absoluto — para mostrar que tal suposição, embora pareça correta, na verdade significa algo distinto daquilo que as concepções estabelecidas nela reconhecem. * Hegel não nega que o conhecimento consumado do absoluto precise ser precedido por um exame do conhecer, mas sustenta que o tipo desse exame e a essência do conhecimento do absoluto submetido a ele só podem ser determinados, se é que podem, a partir do próprio absoluto. * Tomar o conhecer como "instrumento" ou como "médium" pressupõe já uma relação cognoscente com o absoluto, pois decidir sobre a adequação de um instrumento exige ter previamente conhecido aquilo que se deve conhecer, e tomar o conhecimento do absoluto como meio desconhece a essência do absoluto, que inclui em si todo relativo e toda relação deste com o absoluto. * O absoluto, "em e para si já está conosco" e "quer estar conosco", não sendo algo que se possa antes aproximar mediante um instrumento qualquer, e o conhecer não é um médium que refrata o raio do conhecimento, mas antes "o próprio raio pelo qual a verdade nos toca". * A metafísica ocidental, desde Platão e Aristóteles, pensa os entes enquanto entes apenas pensando simultaneamente o ente supremo (τιμιώτατον ὄν) como fundamento e causa originária ([[lx>termos:a:arche|ἀϱχή]], [[lx>termos:a:aition|αἴτιον]]) de todos os entes e, portanto, do ser, sendo por isso, em sua essência, [[lx>termos:o:onto-theologie|onto-teológica]]; a metafísica moderna, de Descartes a Nietzsche, permanece igualmente onto-teológica, seja na fundamentação do ego cogito na idea innata substantiae infinitae, seja na [[lx>termos:m:monade|mônada]] que vê o universo a partir da mônada central divina, seja nos postulados da razão prática kantiana que põem o sumo bem incondicionado, seja no eterno retorno do mesmo nietzschiano como expressão do incondicionado da vontade de poder. * Ao afirmar que o absoluto já está conosco e que o conhecer é o raio do absoluto que nos toca, Hegel diz o mesmo que a tradição onto-teológica, porém de modo distinto, a partir de uma incondicionalidade última posta como primeiro princípio, na mais alta resolução da mindfulness crítica (transcendental) acerca de si mesma iniciada com Descartes e introduzida por Kant no domínio da metafísica. * Essa metafísica absoluta não constitui um declínio em relação à crítica, mas compreende a própria crítica em sua incondicionalidade, configurando-se como "a" ciência pura e simplesmente, a doutrina da ciência ([[lx>termos:w:wissenschaftslehre|Wissenschaftslehre]]) que, segundo Fichte, é o nome alemão e moderno da metafísica absoluta, capaz e obrigada a conhecer sua própria essência. * Um mero vir-à-cena contraria a essência do saber absoluto: se a ciência apenas se apresenta em meio à opinião cotidiana e aos fatos que aparecem, como uma entre outras, seu simples aparecer e impor-se à frente não constitui demonstração alguma, razão pela qual Hegel afirma, ao final da primeira parte da Introdução, que a ciência, justamente por vir à cena, é ela mesma uma aparição, não sendo ainda, nesse vir à cena, ciência em sua verdade desenvolvida e desdobrada. * A apresentação do saber que aparece faz-se necessária para conduzir o vir-à-cena da ciência, isto é, do conhecimento sistemático do absoluto, para além do mero surgir num elemento indeterminado, permitindo que a aparição do absoluto seja segundo sua essência, ou seja, absoluta, aparecer absolutamente significando mostrar a essência plena por inteiro nessa aparição, trazendo à aparição, ao mesmo tempo, o próprio espaço e éter, o "elemento" do aparecer, que é a consciência. * O conhecimento do absoluto não é instrumento nem médium exterior e separado do absoluto, mas, enquanto consciência, o elemento de sua aparição fundado no próprio absoluto e por ele desdobrado em suas diversas figuras, constituindo não uma crítica da faculdade de conhecer nem uma descrição contingente de modos de conhecimento, mas a autoapresentação do próprio absoluto no elemento de sua aparição que assim primeiramente se abre. * O absoluto jamais é nem aparece por mero vir-à-cena entre outras coisas relativamente a algo que ele mesmo não é, mas aparece essencialmente apenas de modo absoluto, isto é, absolvendo a totalidade de seus estágios de aparição, e por essa absolvição realiza a absolvência, a liberação ([[lx>termos:l:lossprechung|Lossprechung]]) do mero semblante de um simples vir-à-cena, de sorte que o absoluto "é" apenas no modo da absolvência, sendo o conhecimento do absoluto sempre ele mesmo absoluto, absolvente, curso e caminho do absoluto para si mesmo — razão pela qual as partes seguintes falarão reiteradamente de um "caminho", caracterizando a autoapresentação do espírito que aparece como um curso. {{tag>GA68 Hegel "Fenomenologia do Espírito"}}