====== Metafísica 1-12 ====== //HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e Niilismo. Tr. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.// 1. A superação da metafísica exige tornar experienciável o abandono do ser característico do ente (Seinsverlassenheit des Seienden), o infundado da verdade do seer ([[lx>termos:s:seyn|Seyn]]), a necessidade de fundação ([[lx>termos:g:grundung|Gründung]]) de sua essência e o afastamento da concepção antropomórfica e subjetivista do homem, culminando na compreensão da verdade como clareira do seer e na história do seer. 2. A superação da metafísica configura-se como a essencialização notável da verdade do seer em contraposição ao descaso de sua fundação principial, retirando a metafísica da aparência de mera opinião doutrinária para inseri-la na decisão histórico-ontológica entre ser e ente. * A superação provém do seer mesmo e tem seu ponto de partida no abandono do ser, dando o tom a uma disposição fundamental na qual os que sabem se revelam como os que perguntam pela verdade do seer. * A superação torna evidente a consequência essencial do descaso da [[lx>termos:p:physis|physis]] (φύσις) enquanto essência principial do ser, permanecendo irredutível a qualquer articulação com a razão ou o processo do mundo. 3. A história do seer e a superação da metafísica não são pensáveis metafisicamente, pois o tempo que funda a essência do seer é o ab-ismo, e o seer, ao liberar em sua verdade a essência da história, escapa do predomínio do ente e do perigo que este representa para todo pensamento. 4. A volatização ([[lx>termos:v:verfluchtigung|Verflüchtigung]]) do seer expressa a impressão equivocada de que o seer nada poderia empreender contra ou a favor do ente, impressão que decorre do hábito de conceber o ente como um atuante e de estender essa mesma exigência ao ser. 5. A metafísica e o predomínio do ente resultam da impotência e volatização do seer, na medida em que a [[lx>termos:p:physis|physis]] (φύσις) impele o ente para a retração ([[lx>termos:e:entzug|Entzug]]), tornando questionável se essa retração corresponde ao próprio sentido do seer ou se, ao contrário, é a ausência de começo e fim da configuração metafísica que renega a dignidade do seer enquanto questão. 6. A "superação" distingue-se da suspensão hegeliana ([[lx>termos:a:aufhebung|Aufhebung]]) por não consistir em eliminar, conservar e elevar (tollere, elevare, conservare), mas em libertar uma essência originariamente infundada, recolocando o superado em sua essência perfeita ([[lx>termos:g:gewesene|Gewesene]]) e devolvendo-o ao âmbito do começo do começo. * A superação é pensada histórico-ontologicamente como a história do seer, e não como um artefato ([[lx>termos:g:gemachte|Gemächte]]) planejado pelo homem, exigindo que este seja arrastado ao cerne de uma mudança de essência. * O giro ([[lx>termos:w:windung|Windung]]) inerente à dinâmica da superação constitui-se como uma volta e uma virada ([[lx>termos:w:wendung|Wendung]]), pela qual a metafísica é alçada até a clareira do seer e ali fundada. * A crítica kantiana à metafísica especulativa não realiza superação alguma, mas antes consolida a marca distintiva da metafísica em sua essência moderna, assim como a divisão posterior entre ontologia douta e metafísica indutiva não abala o predomínio metafísico da filosofia. * O acabamento ([[lx>termos:v:vollendung|Vollendung]]) da metafísica não significa plenificação pela exclusão do inessencial, mas inserção desdobradora do in-essencial, uma vez que nela o ser jamais chega a preponderar em sua dignidade de questão. 7. A configuração do texto preserva o estágio e a direção originais da colocação da pergunta em cada ensaio revisado, evitando qualquer unicidade inautêntica posterior em favor de uma cunhagem mais incisiva das perguntas singulares. 8. A concepção correta da totalidade requer um dizer simples, sem narração nem exortação, apenas uma mudança de ligação com o seer empreendida no silêncio da essencialização da verdade. 9. A superação da metafísica através do seer traz à luz o ab-ismo como clareira do seer e revela a recusa (encobrimento do velamento do seer) não como limitação ou erro, mas como o primeiro, a dádiva e o começo a partir do qual a história surge. * Este surgimento impõe uma transformação da essência do ser humano, apropriando o ser-situado em meio ao acontecimento e trazendo à palavra o intervalo ([[lx>termos:i:inzwischen|Inzwischen]]) para todos os entes. * O seer nunca é causa nem fundamento imediato para o ente, não conhecendo poder, impotência ou domínio, ainda que o ente costume expulsar ardilosamente o ser e arrebatar para si o historicismo e a técnica como único destino de sua verdade. 10. A superação enquanto história do seer determina pela primeira vez, a partir do acontecimento apropriativo, a história mesma e revela a essência da metafísica como a ela pertencente, ao mesmo tempo em que expõe o erro de cálculo historicista que reduz a história ao mero passado. 11. O outro começo situa o seer não como adendo ou predicado do ente, mas como a verdade enquanto clareira do acontecimento apropriativo, cuja transposição em penúria torna necessária, sem obrigar, uma mudança da essência do homem fundada no ser-situado enquanto fundar instante ([[lx>termos:i:instandig|inständig]]). 12. A passagem descreve a alteração do pensamento diante da primeira instrução do aceno de superação do pensamento metafísico rumo ao pensamento histórico-ontológico, constituindo não a superação mesma, mas apenas a entrada nesta enquanto história, na qual a palavra da metafísica permanece necessária para lançar sentido no âmbito da verdade do seer. {{tag>GA67 metafísica superação}}