===== GA50 ETERNO RETORNO DO MESMO ===== * O princípio fundamental da metafísica de Nietzsche, segundo o qual o valor total do mundo é inavaliável, não significa que a capacidade humana seja incapaz de encontrar um valor total que, no entanto, existiria ocultamente, pois a própria busca por um valor total do ente é em si impossível, dado que o conceito de um valor total permanece um não-conceito, já que o valor é essencialmente a condição estabelecida pela vontade de poder para sua conservação e aumento, sendo por ela condicionada. * Estabelecer um valor total para o todo significaria colocar o incondicionado sob condições condicionadas, portanto, o devir, ou seja, o ente no todo, não tem nenhum valor, o que não quer dizer que o ente no todo seja algo nulo ou apenas indiferente, mas expressa a falta de valor do mundo, compreendendo Nietzsche todo "sentido" como "propósito" e "meta", e estes como valores, referindo-se à absoluta falta de valor, isto é, à falta de sentido. * A falta de meta em si é o princípio de fé do niilista, mas o niilismo não é mais pensado "niilisticamente" no mau sentido da dissolução em decomposição no nada nulo, de modo que a falta de valor e de meta não pode mais significar uma carência, a mera vacuidade e ausência, mas sim algo afirmativo e presente, até mesmo o modo como o todo do ente se faz presente, cuja palavra metafísica é: o eterno retorno do mesmo. * A estranheza desse pensamento, que Nietzsche mesmo chama de o "mais pesado" em vários sentidos, só é compreendida por quem está atento em preservar-lhe a estranheza, reconhecendo-a como o fundamento para que o pensamento do "eterno retorno do mesmo" pertença à verdade sobre o ente no todo, sendo essencial, antes mesmo da explicação de seu conteúdo, a compreensão do contexto a partir do qual unicamente o eterno retorno do mesmo pode ser pensado como a determinação do ente no todo. * O ente que tem o caráter fundamental da vontade de poder só pode ser, no todo, o eterno retorno do mesmo, e, inversamente, o ente que é, no todo, o eterno retorno do mesmo, deve ter, como ente, o caráter fundamental da vontade de poder, de modo que a entidade do ente e a totalidade do ente exigem, a partir da unidade da verdade do ente, reciprocamente o tipo de sua respectiva essência. * A vontade de poder estabelece condições perspectivas de sua conservação e aumento, os valores, que, como "metas" condicionadas, devem corresponder, em seu caráter de meta, à essência do poder, o qual não conhece "metas" "em si" nas quais pudesse chegar e parar, pois na paralisia ela nega sua essência mais íntima, o sobrepoderamento, e as "metas", embora sejam aquilo em que importa, importa o sobrepoderamento, que se desenvolve ao máximo onde há resistências, de modo que a meta do poder deve ter sempre o caráter de obstáculo. * Porque as metas do poder só podem ser obstáculos, elas já se encontram sempre dentro do círculo de poder da vontade de poder, e o obstáculo, enquanto tal, mesmo que ainda não "superado", já é essencialmente abrangido pelo apoderamento, razão pela qual não há para o ente, como vontade de poder, metas fora de si, para as quais ele "prosseguiria" e se afastaria. * A vontade de poder, como sobrepoderamento de si mesma, retorna essencialmente para si mesma e assim confere ao ente no todo, isto é, ao "devir", um caráter singular de movimento, de modo que o movimento do mundo não possui um "estado de meta" que exista em si mesmo e que receba o devir como uma espécie de área de desembocadura, mas, por outro lado, a vontade de poder não estabelece suas metas condicionadas apenas ocasionalmente. * Ela, como sobrepoderamento, está constantemente a caminho de sua essência, é eternamente ativa e, no entanto, deve ser justamente sem meta, na medida em que "meta" significa ainda um estado existente em si fora dela, mas o empoderar eterno e sem meta da vontade de poder é, ao mesmo tempo, necessariamente finito em suas situações e formas, pois se fosse infinito sob esse aspecto, teria também que "crescer infinitamente" de acordo com sua essência como aumento, e não se sabe de que excesso viria esse aumento, uma vez que todo ente é apenas vontade de poder. * Além disso, a essência da vontade de poder exige, para sua conservação e, portanto, justamente para a possibilidade de seu aumento, que ela seja delimitada e determinada em uma forma fixa e, portanto, seja no todo algo que já se autolimita, pertencendo à essência do poder a liberdade de meta e, portanto, no todo, a falta de meta, mas essa liberdade de meta, justamente por exigir unicamente o estabelecimento de metas condicionadas a cada vez, não pode tolerar um fluxo sem margens do poder, de modo que o todo do ente, cujo caráter fundamental é a vontade de poder, deve ser uma grandeza fixa. * Em vez de "vontade de poder", Nietzsche diz às vezes também "força", e compreende a força sempre como vontade de poder, sendo que algo não fixo de força, algo ondulatório, é completamente inimaginável, e com "nós" são designados aqueles que pensam o ente como vontade de poder, cujo pensamento é fixar e delimitar, de modo que a força não pode ser pensada como ilimitada, pois não pode ser assim pensada, proibindo-se o conceito de uma força infinita como incompatível com o conceito de "força", faltando assim ao mundo também a capacidade para a eterna novidade. * Quem se proíbe aqui de pensar a vontade de poder como infinita e profere a sentença de que a vontade de poder e o ente por ela determinado no todo são finitos são aqueles que experienciam seu próprio ser como vontade de poder, para os quais toda outra representação da força permanece indeterminada e, portanto, inutilizável. * Se o ente enquanto tal é vontade de poder e, portanto, eterno devir, mas a vontade de poder exige a falta de meta e exclui o progresso sem fim para uma meta em si, e se, ao mesmo tempo, o eterno devir da vontade de poder é limitado em suas formas possíveis e estruturas de domínio, porque não pode ser novo no infinito, então o ente, como vontade de poder, deve fazer retornar o Mesmo no todo, e o retorno do Mesmo deve ser um eterno retorno, contendo esse "ciclo" a "lei fundamental" do ente no todo, se o ente enquanto tal é vontade de poder. * O eterno retorno do mesmo é o presentificar-se do inconstante enquanto tal, mas no mais alto firmamento, com a única determinação de assegurar a possibilidade constante do empoderar, e o retornar, o chegar e o partir do ente, que é determinado como eterno retorno, tem em toda parte o caráter da vontade de poder, razão pela qual a igualdade do Mesmo que retorna consiste primeiro em que em cada ente o empoderar do poder comanda e, de acordo com esse comando, condiciona uma igualdade da qualidade do ente. * "Vontade de poder" diz o que o ente, enquanto tal, é em sua constituição, enquanto "eterno retorno do mesmo" diz como o ente de tal constituição é no todo, e com o que é determinado o como do ser de todo ente, e esse como no todo estabelece antecipadamente que todo ente, em cada instante, recebe o caráter de seu "que" de seu "como". * Porque o eterno retorno do mesmo distingue o ente no todo, ele é um caráter fundamental do ser, conjuntamente pertencente à vontade de poder, embora o título "eterno retorno" nomeie um "movimento" e um "devir"; o Mesmo que retorna tem sempre apenas uma duração relativa e é, portanto, o essencialmente sem duração, mas seu retorno significa o trazer sempre de volta à duração, isto é, o firmamento, sendo o eterno retorno o firmamento mais firme do sem duração. * Desde o início da metafísica ocidental, o ser é compreendido no sentido da constância da permanência, onde "constância" significa tanto firmeza quanto persistência, e o conceito nietzschiano do eterno retorno do mesmo diz essa mesma essência do ser, embora Nietzsche distinga o "ser" como o duradouro, fixo, consolidado e rígido contra o "devir", mas o "ser" pertence à vontade de poder, que precisa assegurar a duração a partir de um duradouro, unicamente para poder se superar e, portanto, "devir". * "Ser" e "devir" apenas aparentemente se opõem, porque o caráter de devir da vontade de poder é, na essência mais íntima, o eterno retorno do mesmo e, portanto, o firmamento mais firme do sem duração, razão pela qual Nietzsche pode dizer que imprimir ao devir o caráter do ser é a mais alta vontade de poder, e que uma dupla falsificação, vinda dos sentidos e do espírito, é necessária para obter um mundo do ente, do permanente, do igual, e que tudo retorna é a aproximação mais extrema de um mundo do devir ao do ser, o cume da consideração. * No auge de seu pensamento, Nietzsche deve seguir o traço fundamental desse pensamento ao extremo e determinar o "mundo" com respeito ao seu ser, projetando e compondo assim a verdade do ente no sentido da essência da metafísica, mas, ao mesmo tempo, no "cume da consideração", diz-se que para obter um mundo do ente, isto é, do presente persistente, é necessária uma "dupla falsificação", pois os sentidos dão nas impressões algo fixado e o espírito, ao representar, fixa algo objetual, ocorrendo a cada vez um fixar diferente do que, de outro modo, é movido e devir, de modo que a "mais alta vontade de poder", como tal firmamento do devir, seria uma falsificação, e no "cume da consideração", onde a verdade sobre o ente enquanto tal no todo se decide, algo falso e uma aparência teriam que ser erigidos, e assim a verdade seria um erro. * De fato, a verdade é, para Nietzsche, essencialmente erro, e especificamente um determinado "tipo de erro", cujo caráter de tipo, no entanto, só se delimita suficientemente quando a origem da essência da verdade a partir da essência do ser, que aqui significa a partir da vontade de poder, é propriamente reconhecida. * O eterno retorno do mesmo diz como o ente, que como todo não tem nenhum valor e nenhuma meta em si, é no todo, e a falta de valor do ente no todo, uma determinação aparentemente apenas negativa, funda-se na determinação afirmativa pela qual é atribuída ao ente, de antemão, a totalidade do eterno retorno do mesmo, mas esse traço fundamental do ente no todo proíbe também pensar o mundo como um "organismo", pois ele não é ajustado por nenhuma conexão de propósito existente em si nem remetido a nenhum estado de meta em si, devendo-se pensar o todo como o mais distante possível do orgânico. * Somente se o ente no todo é caos permanece-lhe, como vontade de poder, a constante possibilidade de se configurar em estruturas de domínio sempre limitadas de duração relativa, isto é, "organicamente", mas "caos" não significa um emaranhado cego e furioso, e sim a multiplicidade do ente no todo que pressiona por uma ordem de poder, que delimita fronteiras de poder e que, na luta pelas fronteiras de poder, é sempre carregada de decisão. * Que esse caos seja, no todo, o eterno retorno do mesmo torna-se o pensamento mais estranho e terrível apenas quando se alcança e se leva a sério a compreensão de que o pensar desse pensamento deve ter o modo de ser do projeto metafísico, pois a verdade sobre o ente enquanto tal no todo é doada unicamente pelo ser do ente mesmo, não sendo uma "vivência" meramente pessoal do pensador, nem podendo ser provada "cientificamente" pela investigação de áreas particulares do ente. * O fato de Nietzsche, movido pela paixão de conduzir seus contemporâneos a esse "cume" da "consideração" metafísica, recorrer a tais provas apenas indica o quão difícil e raro é para um homem, como pensador, manter-se na via de um projeto exigido pela metafísica e de sua fundamentação, mas ele tem um claro conhecimento do fundamento da verdade do projeto que pensa o ente no todo como eterno retorno do mesmo, afirmando que a própria vida criou esse pensamento, o mais pesado para a vida, pois ela quer superar seu mais alto obstáculo. * "A própria vida" é a vontade de poder, que se eleva a si mesma ao seu mais alto grau através do sobrepoderamento do respectivo estágio de poder, e ela deve trazer-se a si mesma, como vontade de poder, diante de si, de tal modo que a mais alta condição do puro apoderamento para o sobrepoderamento extremo esteja diante dela: o maior obstáculo, o que lhe acontece onde o mais puro firmamento não está diante dela apenas uma vez, mas constantemente e como o sempre igual. * Para assegurar essa mais alta condição (valor), a vontade de poder deve ser o "princípio da valoração" que aparece propriamente, dando a esta vida, e não a uma vida além, o único peso, sendo essa a principal coisa a ser transformada, talvez quando a metafísica atinge justamente essa vida com o acento mais pesado, segundo a doutrina nietzschiana. * Essa é a doutrina do mestre do eterno retorno do mesmo, e é a própria vontade de poder, o caráter fundamental do ente enquanto tal, e não um "Sr. Nietzsche", que estabelece esse pensamento do eterno retorno do mesmo, pois o mais alto firmamento do sem duração é o maior obstáculo para o devir, e através desse obstáculo a vontade de poder afirma a necessidade mais íntima de sua essência, porque, inversamente, o eterno retorno traz seu poder condicionante para o jogo do mundo. * Sob a pressão desse peso máximo, ali onde a referência ao ente enquanto tal no todo determina essencialmente um ente, faz-se a experiência de que o ser do ente deve ser a vontade de poder, e o ente determinado por essa referência é o homem, cuja experiência transporta a humanidade para uma nova verdade sobre o ente enquanto tal no todo, e porque a relação com o ente enquanto tal no todo distingue o homem, ele somente conquista, estando dentro de tal relação, sua essência e se coloca à história para sua consumação.