====== §1 O Tratado de Schelling como o auge da metafísica do idealismo alemão ====== * A proposta inicial consiste em tratar da metafísica do idealismo alemão, tomando como via interpretativa o tratado sobre a liberdade de Schelling. * A escolha de um texto isolado de um único pensador é metodologicamente legítima, caso se limite o estudo a esse texto e se reconheça a restrição de sua esfera de pensamento dentro do idealismo alemão. * Todavia, o procedimento torna-se problemático quando se pretende, por meio dessa via singular, pensar a metafísica do idealismo alemão como um todo. * Apesar do caráter restrito do método, o propósito de compreender a metafísica do idealismo alemão em sua totalidade orientará a investigação. * O enfoque unilateral exige, por conseguinte, uma justificação específica, a qual só pode ser obtida mediante o conhecimento do que é pensado no tratado isolado de Schelling. * Tal justificação pressupõe que o tratado de Schelling represente o ponto culminante da metafísica do idealismo alemão, algo que apenas pode ser verificado ao final de uma interpretação completa ou após múltiplas interpretações. * A legitimidade do caminho adotado depende de três condições fundamentais: * Que o tratado de Schelling constitua o ápice da metafísica do idealismo alemão. * Que nele se manifestem todas as determinações essenciais dessa metafísica. * Que, a partir dele, seja possível expor com plena determinação o núcleo essencial de toda a metafísica ocidental. * Mesmo assim, o procedimento conserva um caráter violento, sobretudo no início, pois contraria a opinião comum de que somente a “completude historiográfica” garante o conhecimento autêntico da história. * Tal opinião, contudo, pode ser apenas uma suposição infundada, mal fundamentada ou mesmo impossível de fundamentar quanto à essência própria da história. * Para converter essa suposição em certeza e justificar o método, seria necessário demonstrar de que modo a historicidade da história do pensamento possui uma essência singular. * Essa historicidade, embora possa assemelhar-se a uma reflexão historiográfica, tem em verdade um caráter próprio, distinto tanto da mera descrição histórica quanto da reflexão sistemática a ela usualmente contraposta. * Desde o início, o empreendimento permanece envolto em diversas incertezas e tende a dispersar-se em tentativas de resolver preliminarmente todas as dúvidas, o que retardaria indefinidamente o trabalho interpretativo propriamente dito. * Para evitar esse risco, a via mais adequada é começar diretamente pela elucidação do tratado de Schelling, ainda que de modo cego, confiando que dessa interpretação inicial emergirá algum esclarecimento essencial.