===== GA45:17-18 – IDEALISMO E REALISMO ===== Denomina-se idealismo (Idealismus) essa opinião doutrinária (Lehrmeinung), segundo a qual nosso representar (Vorstellen) só se relacionaria com o representado, o perceptum, a [[termos:i:idea-hlex:start|idea]]. A opinião contrária (Gegenmeinung), segundo a qual o representar alcança a coisa mesma (res) e aquilo que pertence a ela (realia), é chamada, desde o avanço do idealismo, de realismo (Realismus). Todavia, esses irmãos inimigos, entre os quais um adora se arrogar superior ao outro, concordam completamente, sem que o saibam de maneira clara, no essencial, isto é, naquilo que fornece o pressuposto e a possibilidade de sua contenda: o fato de a relação com o ente se mostrar como o representar do ente e de a [[termos:v:verdade:start|verdade]] do representar consistir nessa correção (Richtigkeit). Um pensador como Kant, que pensou às últimas consequências, fundamentou e reteve de uma forma maximamente profunda o idealismo, admite de antemão que a concepção da verdade como correção do representar – como concordância com o objeto (als [[termos:u:ubereinstimmung:start|Übereinstimmung]] [[termos:m:mit:start|mit]] dem Gegenstand) – precisaria permanecer intocada. O realismo, porém, por outro lado, ao achar que, por conseguinte, mesmo Kant, o mais profundo de todos os “idealistas”, seria uma testemunha-chave em favor do realismo, permanece preso a um erro maior. Não – não se segue dessa retenção de Kant da definição tradicional, senão inversamente, que o realismo se encontra sobre o mesmo solo que o idealismo na definição de verdade como correção do representar, e sim, de acordo com um conceito mais rigoroso e mais originário de “idealismo”, que ele mesmo continua sendo idealismo. Pois mesmo segundo a doutrina do realismo – do realismo crítico e do ingênuo –, a [[termos:r:res:start|res]], o ente, é alcançado pela via do representar, da idea. O idealismo e o realismo, portanto, descrevem as duas posições fundamentais extremas na doutrina da relação do homem com o ente. Todas as doutrinas até aqui sobre essa relação e seu caráter – a verdade como correção – ou são reconfigurações unilaterais das posições extremas, ou variantes quaisquer das inúmeras misturas e formas híbridas das duas opiniões doutrinárias. A contenda entre todas essas opiniões pode prosseguir ao infinito, sem jamais levar a uma meditação (Besinnung) e a uma intelecção (Einsicht), porque a característica distintiva dessa disputa infrutífera é abdicar de antemão do questionamento acerca do solo sobre o qual se movimentam os contendores. Em outras palavras: considera-se como óbvia, por toda parte, a concepção da verdade (Wahrheit) como correção do representar, tanto na filosofia quanto na opinião (Meinen) extrafilosófica. (HEIDEGGER, Martin. As Questões Fundamentais da Filosofia (“Problemas” seletos da “lógica”). Tr. Marco Antonio [[termos:c:casanova:start|Casanova]]. São Paulo: Martins Fontes, 2017, §7) {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}