===== A.8 Suporte de propriedades ===== **A. DIVERSAS MANEIRAS DE INTERROGAR EM DIREÇÃO À COISA** **VIII. A COISA COMO SUPORTE DE PROPRIEDADES** A consideração da coisa a partir de sua própria constituição conduz à determinação tradicional segundo a qual toda coisa é algo que possui propriedades, isto é, um suporte relativamente permanente sobre o qual repousam determinações múltiplas e mutáveis, estrutura que parece corresponder tanto à experiência cotidiana quanto à concepção natural do mundo, à ciência e à tradição metafísica desde Platão e Aristóteles até Kant. * Embora talvez só seja possível experimentar e decidir algo acerca das coisas permanecendo no domínio em que elas vêm ao encontro, torna-se necessário penetrar nesse próprio domínio em direção às coisas mesmas, a fim de alcançar alguma representação de como elas são constituídas. * Em vez de considerar prioritariamente o quadro constituído por espaço e tempo que circunda as coisas, a investigação pode orientar-se agora para a maneira como as próprias coisas são estruturadas e para sua textura. * Essa via possui, inicialmente, tanta legitimidade quanto aquela que partia do espaço, do tempo e do caráter demonstrativo do «isto». * A pergunta «O que é uma coisa?» deve agora permanecer tão próxima quanto possível das coisas singulares e limitar-se inicialmente àquilo que elas próprias mostram. * Uma pedra apresenta-se como dura, cinzenta, rugosa, irregular, pesada e constituída de determinada matéria; uma planta possui raiz, caule e folhas, que podem ser verdes, serrilhadas e ligadas a pecíolos curtos. * Um animal possui olhos, orelhas e capacidade de deslocamento, além de órgãos sensoriais, aparelho digestivo e órgãos reprodutores, utilizando, exercitando e de algum modo renovando esses órgãos. * O animal, assim como a planta, é denominado organismo precisamente em razão dessa constituição orgânica. * Um relógio, por sua vez, possui engrenagens, mola, mostrador e outras partes constitutivas. * A enumeração de propriedades poderia prosseguir indefinidamente, e todas essas determinações permanecem corretas porque são retiradas daquilo que as próprias coisas mostram. * Quando se abstrai da diferença entre pedra, rosa, cão, relógio e outras coisas particulares, torna-se visível uma estrutura comum: cada coisa é sempre algo que possui determinadas propriedades e é constituído de determinada maneira. * Esse «algo» aparece como suporte das propriedades, aquilo que, por assim dizer, jaz sob os diversos modos de ser e permanece como o mesmo enquanto as propriedades são fixadas ou modificadas. * A coisa manifesta-se, assim, como um núcleo em torno do qual se dispõem propriedades múltiplas e variáveis, ou como um suporte sobre o qual essas propriedades repousam. * Esse suporte é aquilo que possui as propriedades, que as tem sobre si, enquanto espaço e tempo permanecem inicialmente como o quadro dentro do qual a coisa assim constituída se encontra. * Tal estrutura parece tão evidente e familiar que todas as dificuldades anteriormente levantadas acerca do «isto», dos princípios metafísicos, dos diversos graus de verdade e da relação com espaço e tempo podem parecer complicações desnecessárias diante da simplicidade da experiência cotidiana. * Permanecer no âmbito da experiência cotidiana pareceria exigir apenas que as coisas fossem tomadas como elas são e descritas mediante aquilo que nelas se apresenta. * À estrutura constituída por suporte e propriedades acrescentam-se ainda as relações entre as próprias coisas, pois a alteração das propriedades de uma coisa pode exercer efeitos sobre outra. * As coisas agem umas sobre as outras, impedem-se reciprocamente e, dessas relações, resultam novas propriedades que passam igualmente a ser consideradas como algo que as coisas «têm». * Essa caracterização das coisas e de suas relações corresponde ao que se costuma chamar «concepção natural do mundo», na medida em que nela se permanece aparentemente junto ao modo natural de lidar com as coisas, sem recorrer a construções metafísicas profundas nem a teorias elevadas e supostamente inúteis acerca do conhecimento. * A pretensa naturalidade dessa concepção consiste em deixar as coisas entregues àquilo que parece ser sua própria «natureza», sem submetê-las inicialmente a determinações filosóficas especiais. * A tradição filosófica parece confirmar essa mesma caracterização, pois desde a Antiguidade a coisa foi compreendida fundamentalmente como suporte de propriedades, determinação já formulada por Platão e, sobretudo, por Aristóteles. * Embora posteriormente tenham mudado as palavras e os conceitos, a estrutura fundamental permaneceu a mesma mesmo entre posições filosóficas tão diferentes quanto as de Aristóteles e Kant. * Kant formula na Crítica da razão pura o princípio segundo o qual todos os fenômenos, isto é, todas as coisas para nós, contêm algo permanente, a substância enquanto objeto mesmo, e algo mutável enquanto simples determinação desse objeto ou modo de sua existência. * A diversidade histórica das doutrinas filosóficas parece, assim, conservar uma mesma estrutura fundamental da coisa: algo permanente sustenta determinações variáveis. * A resposta tradicional à pergunta «O que é uma coisa?» pode, portanto, ser formulada da seguinte maneira: a coisa é o suporte subsistente de uma multiplicidade de propriedades que subsistem nela e nela se transformam. * Essa resposta possui aparência tão «natural» que domina não somente o pensamento científico teórico, mas também todo o trato prático com as coisas, sua mensuração, seu cálculo e sua avaliação. * A determinação essencial tradicional da [[lx>termos:c:coisidade|coisidade]] pode ser fixada mediante uma sequência de pares conceituais historicamente correspondentes: * 1. [[lx>termos:h:hypokeimenon|hypokeimenon]] — [[lx>termos:s:symbebekos|symbebekos]]: aquilo que jaz por baixo e aquilo que sempre já se acrescentou e ocorreu juntamente com ele. * 2. [[lx>termos:s:substantia|substantia]] — [[lx>termos:a:accidens|accidens]]. * 3. suporte — propriedades. * 4. sujeito — predicado. {{tag>GA41 coisalidade propriedades}}