====== § 5. A essência da finitude do conhecimento ====== * O conhecimento finito define-se negativamente como uma intuição não criadora, na medida em que depende da existência prévia do intuído e não produz seu objeto, mas o recebe passivamente. * A essência da intuição finita consiste na receptividade, o que implica afecção: o objeto deve afetar o espírito para que haja intuição. * A intuição como tal não é receptiva; apenas a finita o é. Seu caráter finito reside no fato de necessitar ser afetada pelo ente. * A sensibilidade manifesta-se como o modo ontológico dessa receptividade, não como mera faculdade empírica, mas como estrutura fundamental da finitude do conhecer. * Os sentidos funcionam como instrumentos da afecção, permitindo que o ente, já existente, se anuncie e se dê à intuição. * A sensibilidade não se define pelos órgãos corporais, mas pela própria finitude do ser humano, que precisa receber aquilo que já é ente. * A partir dessa compreensão, Kant estabelece um conceito ontológico de sensibilidade não sensualista, abrindo a possibilidade de uma sensibilidade não empírica. * O conhecimento, em sua essência, é intuição, ou seja, um representar no qual o ente se mostra diretamente. * A intuição finita, contudo, necessita do pensamento para determinar o intuído e torná-lo inteligível. * A determinação conceitual permite que o intuído se torne comunicável e comum a todos os seres finitos. * A representação que determina o intuído orienta-se para o geral, para aquilo que “vale para muitos”. * Esse representar geral, denominado conceito, é uma “representação de uma representação”, uma forma de mediação que torna o ente compreensível. * O juízo constitui o conhecimento mediato de um objeto, isto é, a representação de uma representação. * O juízo é uma síntese na qual várias representações se unificam sob a unidade da consciência. * Na união entre pensar e intuir realiza-se uma síntese veritativa, que torna patente o ente como objeto. * No juízo distinguem-se dois modos de síntese: a predicativa, que une os conceitos, e a apofântica, que liga sujeito e predicado. * A síntese veritativa reúne ambas em uma unidade estrutural que constitui a essência do conhecimento finito. * Dizer que o conhecimento é “síntese” sem distinguir esses modos equivale a formular uma tese vazia. * O entendimento, sendo a faculdade de julgar, também é finito. * Sua finitude consiste em seu caráter discursivo: não pode conhecer diretamente, mas apenas por mediações conceituais. * O entendimento não cria o ente, mas produz a forma do conceito que permite organizar e comunicar o intuído. * Essa produção formal não é criação, mas um modo de pôr, uma espontaneidade limitada que faz parte da estrutura do conhecer. * Por essa via, o entendimento colabora em tornar disponível o conteúdo do objeto, sem gerar seu ser. * A finitude do conhecimento determina seu âmbito: só pode conhecer aquilo que se mostra, o fenômeno. * O fenômeno não é mera aparência, mas o próprio ente enquanto aparece ao conhecimento finito. * O conhecimento infinito, ao contrário, é uma intuição criadora que produz o ente no mesmo ato de conhecê-lo. * Somente para o conhecimento finito existem “objetos”; o conhecimento absoluto não tem objetos, mas criação. * O fenômeno, em sentido amplo, designa o ente enquanto se torna patente ao conhecimento finito; em sentido estrito, o conteúdo da intuição empírica. * A coisa em si não é um ente diferente do fenômeno, mas o mesmo ente considerado segundo sua relação com o conhecimento infinito. * A diferença entre fenômeno e coisa em si não é objetiva, mas subjetiva, determinada pelo modo de relação do conhecer. * O “além do fenômeno” não designa um objeto oculto, mas a impossibilidade essencial do conhecimento finito de acessar o ente como criação. * No fenômeno puro, o termo “puro” nega a possibilidade de uma intuição infinita, e não a realidade do ente. * O conhecimento humano alcança apenas os fenômenos, porque seu modo de intuição é receptivo e não criador. * A expressão “fora de nós” possui um duplo sentido. * Enquanto coisa em si, o ente está fora de nós porque não participamos da intuição infinita que lhe corresponde. * Enquanto fenômeno, o ente está fora de nós porque, sem ser idêntico a nós, nos é dado na experiência e é acessível à nossa intuição. * Em ambos os casos, o mesmo ente se mostra sob diferentes relações com o conhecimento finito ou infinito. * A diferença entre conhecimento finito e infinito determina a própria possibilidade da metafísica. * A finitude humana indica a dimensão dentro da qual a metafísica pode fundar-se. * Compreender a finitude do conhecimento é condição prévia para esclarecer os conceitos de fenômeno e coisa em si. * Kant não postula duas ordens de objetos, mas dois modos de relação do conhecimento com o ente. * A fundamentação da ontologia exige o retorno à estrutura da finitude do conhecer, onde se origina o próprio horizonte do ser.