===== GA22: §§7-12 ===== - A periodização da filosofia antiga, para fins de orientação, estabelece quatro épocas principais, definidas pela direção e pelo tipo de questionamento: a pergunta pelo ser do mundo (filosofia natural milesiana até a sofística, de 600 a 450 a.C.), a pergunta pelo ser da existência humana e a retomada radical da pergunta pelo ser do mundo (Sócrates, Platão e Aristóteles, de 450 a 300 a.C., com Atenas como centro), o declínio com a filosofia prático-mundana do Helenismo (estoicos, epicuristas e céticos) e, por fim, a especulação religiosa do Neoplatonismo, que também representou uma retomada da época científica, encerrando-se em 529 d.C. com o édito de Justiniano que fechou a Academia e proibiu o estudo da filosofia grega. - Aristóteles é considerado o ponto alto científico da filosofia antiga, pois, embora não tenha resolvido todos os problemas, avançou até os limites impostos pela abordagem grega, reunindo positivamente os motivos fundamentais da filosofia anterior, sendo seu pensamento o guia metodológico para a compreensão dos conceitos centrais. - A obra "Metafísica" de Aristóteles é o texto-base, e o primeiro livro (Alpha) é analisado a partir de um caminho metodológico que orienta a investigação sobre os conceitos fundamentais, contando com diversas traduções e comentários que auxiliam na interpretação. - O conhecimento e a compreensão são abordados como formas de comportamento do ser humano, que é um ente entre outros, e a investigação se dá sobre as múltiplas possibilidades e maneiras de descobrir (aletheuein), partindo da percepção sensorial (aisthesis) até a sabedoria (sophia). - A percepção sensorial (aisthesis) é a forma mais imediata de contato com o ente presente, enquanto a memória (mneme) permite um conhecimento do que não está presente, sendo uma orientação mais livre, e a experiência (empeiria) surge da repetição das recordações. - A técnica (techne) é um saber que vai além da experiência, pois conhece a causa e pode ensinar, compreendendo o "porquê" (to dioti) e não apenas o "que" (to hoti), estabelecendo assim um conhecimento mais independente e universal. - A sabedoria (sophia) é caracterizada como o conhecimento das primeiras causas e princípios, sendo a mais excelsa, difícil, precisa, e que não tem finalidade prática, existindo por si mesma e para si mesma. - A filosofia, como busca da sabedoria, tem sua origem no espanto (thaumazein), que não é uma aceitação passiva, mas um impulso para superar a ignorância e compreender o que não está em seu lugar habitual, caracterizando-se como uma atividade livre que se guia apenas pela objetividade. - A sabedoria (sophia) é considerada a ciência mais divina, tanto por ser a que Deus possui de modo mais próprio, quanto por se referir ao divino, sendo um conhecimento que o homem não pode possuir plenamente, pois está em muitos aspectos sujeito à escravidão de suas limitações e preconceitos. - O conceito aristotélico de "princípio" (arche) é formalmente definido como o primeiro "de onde" algo provém, sendo o último "para onde" algo retorna, e se manifesta em múltiplos sentidos, tais como o começo de um caminho, o fundamento de uma construção, a origem do movimento, a direção de um governo ou o fundamento de uma demonstração. - A investigação sobre as causas na filosofia pré-aristotélica é apresentada como uma busca não explícita pelos princípios (archai), mas pela natureza (physis), ou seja, pelo ente em seu ser, e esse percurso histórico é interpretado por Aristóteles à luz de sua própria doutrina das quatro causas. - A primeira causa descoberta foi a causa material (hyle), compreendida como aquilo de que algo é feito e que sempre é, sendo os primeiros filósofos (Tales, Anaxímenes, Heráclito, Empédocles, Anaxágoras) aqueles que buscaram esse substrato permanente em um ou vários elementos. - A necessidade de uma segunda causa, a causa motriz ou eficiente, surgiu para explicar a mudança e o movimento do substrato material, pois a matéria, por si só, não é suficiente para dar conta das transformações e da ordem do mundo. A busca por uma terceira causa, a causa da ordem e da disposição, foi imposta pela observação de que o mundo não é apenas um devir caótico, mas um kosmos ordenado, o que levou filósofos como Empédocles a introduzir princípios como o Amor e o Ódio. - Os atomistas, Leucipo e Demócrito, introduziram o "não-ser" (o vazio) como causa, diferenciando os entes por sua forma, ordem e posição, mas sua visão permaneceu restrita ao ser material, sem problematizar o movimento. - Os pitagóricos, por sua vez, viram nos números os princípios e causas de todo o ser, compreendendo os números como a própria substância (ousia) do ente, inaugurando a pergunta pelo "o que é" (to ti estin), ou seja, pela essência, ainda que de modo primitivo e superficial. - Platão, influenciado por Heráclito (mudança sensível) e Sócrates (definição do universal), estabeleceu que o verdadeiro conhecimento não pode ter por objeto o sensível, mas sim as Ideias (eide), que são a causa (aitia) da essência das coisas sensíveis, as quais participam (methexis) dessas Ideias. - A abordagem de Platão, embora inovadora ao situar a substância (ousia) na unidade (to hen) e tratar os números como causas constitutivas, permaneceu insatisfatória e pouco clara, especialmente quanto ao significado da participação (methexis) e à introdução de uma matéria (hyle) para as Ideias, motivada por exigências lógicas internas aos discursos (logoi). - A crítica de Aristóteles a Platão, embora não detalhada no texto, reconhece o mérito de Parmênides, que, ao contrário dos outros pré-socráticos, já apontava para uma problemática distinta, a do ser uno segundo o lógos, e que influenciou a filosofia platônica posterior.