===== GA22: §§15-18 ===== **Primeira Seção: A Filosofia até Platão** * O percurso da filosofia até Platão vai da experiência do ente à compreensão do ser nele, e dessa compreensão ao conceito do ser, o que constitui o entendimento filosófico e conceitual do ente; o logos não é percepção sensível, e a sophia de Heráclito já aponta para isso. **Primeiro Capítulo: A filosofia natural milesiana** **§ 15. Tales** * Tales é considerado o primeiro filósofo e primeiro matemático, tendo aplicado procedimentos geométricos na medição de distâncias, mas o conhecimento das regras de medição não implica ainda a visão da condição teórica de sua possibilidade e necessidade. * Aristóteles, que deve seus conhecimentos históricos ao período da Academia platônica, é a única fonte sobre Tales; as três teses fundamentais atribuídas a ele são: a terra flutua sobre a água, a água é a causa material de todo o ente, e todo o ente está cheio de demônios. * O hilozoísmo de Tales significa que matéria e alma não estão ainda separadas, o que difere da concepção posterior que as distingue; a água, com seus diferentes estados de agregação, é o permanente que nunca muda, e a umidade é o princípio da vida. **§ 16. Anaximandro** * A questão central que Anaximandro coloca é como aquilo que é originário e subjaz a todos os entes pode ele mesmo ser um desses entes; a resposta é que o princípio não pode ser nada determinado, nada que esteja em oposição com outro, nada limitado, sendo antes inesgotável. * O indeterminado, o ápeiron, só pode ser caracterizado pela indeterminidade mesma, e sua postulação se justifica porque apenas o infinito garante que o que vem a ser não esgote a fonte de onde é retirado. * Os contrários como quente e frio, seco e úmido, correspondem a uma injustiça cujo equilíbrio requer algo anterior a ambos; ao redor do nosso mundo há incontáveis mundos simultâneos que o ilimitado envolve, e esses mundos são chamados deuses no sentido de entes próprios, não de objetos de culto. * O ápeiron não é um ente sensível determinado, mas um indeterminado não sensível que é ainda assim um ente; o esforço de conquistar o ser mesmo encontra expressão privilegiada na infinidade de um ente, e Aristóteles via em Anaximandro um precursor de sua ideia de matéria prima indeterminada. **§ 17. Anaximenes** * Anaximenes sintetiza seus predecessores: de Tales toma a ideia de uma matéria determinada, de Anaximandro a ideia de uma matéria infinita, chegando a uma matéria una, determinada e ao mesmo tempo infinita, sempre presente. * O mecanismo de modificação não é separação, mas condensação e rarefação; todas as diferenças são variações quantitativas de uma matéria homogênea, o ar ou sopro, que tem para o mundo a mesma relação que a alma tem para a vida humana, o que expressa a ideia de animação e organismo, sem caráter mítico. * Anaximenes exerceu influência muito maior do que Anaximandro sobre os pensadores posteriores, especialmente os pitagóricos e Anaxágoras, e sua filosofia tornou-se a designação da filosofia natural milesiana como um todo. **§ 18. O problema do ser. A questão da relação entre ser e devir e sobre a oposição em geral. Transição a Heráclito e Parmênides** * A descoberta do ser no ente permanece problemática nos milesianos: há sempre um comprensão implícita do ser, mas nunca um conceito; cada tentativa avança em direção ao ser e recai no ente, e a questão de se o ser do ente pertence ao próprio ente sem com isso tornar-se mais um ente permanece em aberto e se torna cada vez mais urgente. * Ser é o que está sempre presente, que não vem a ser nem perece; mas no presente há também devir e movimento, e a questão de como compreender o devir como um modo do ser exige que a tensão entre ser e devir seja elaborada em toda a sua radicalidade antes que uma nova solução possa ser pensada. * Além da oposição entre o permanente e o mutável, há oposições dentro do próprio acontecimento, como dia e noite, vida e morte, saúde e doença, verão e inverno; a oposição não é uma simples diferença, mas uma tensão dentro de uma unidade, e é a contraposição mesma que constitui o ser do ente. * A oposição universal comporta duas interpretações radicalmente distintas: para Parmênides, os opostos se excluem mutuamente, o contraditório não é de modo algum, e só o ente uno é o ser mesmo; para Heráclito, os opostos se condicionam mutuamente, o que se contrapõe harmoniza, e apenas o contraditório é o mundo verdadeiro.