===== De Brasi & Fuchs ===== //DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.// **I. Contexto Geral** 1. A relação de Martin Heidegger com a filosofia grega antiga é reconhecida como extraordinariamente complexa e objeto de estudos controversos, sendo Platão – visto por Heidegger como fundador da metafísica ocidental – um desafio interpretativo central; contudo, sua leitura platônica, incontestável do ponto de vista filológico, permaneceu pouco estudada em profundidade até a publicação tardia, em 1992, das Lições sobre o Sofista de Platão (ministradas em Marburgo no semestre de inverno de 1924/25), o que motiva o presente volume a uma reavaliação crítica de Heidegger como intérprete de Platão. 2. O ensaio introdutório organiza-se em quatro eixos articulados entre si. * Primeiro, um panorama do estado atual da pesquisa sobre as Lições. * Segundo, uma relativização do suposto mal-entendido heideggeriano de Platão, em diálogo crítico com as objeções de Werner Beierwaltes. * Terceiro, um exame da "Transição" entre a análise da Ética a Nicômaco e a interpretação do Sofista, apresentando Heidegger como precursor involuntário da abordagem dialógica moderna. * Quarto, uma apresentação das contribuições reunidas no volume e de possíveis desdobramentos futuros de pesquisa. **II. Panorama da Pesquisa** 3. Ministradas entre 3 de novembro de 1924 e 27 de fevereiro de 1925, ao longo de 54 sessões, as Lições sobre o Sofista de Platão marcam o início do engajamento heideggeriano com Platão e constituem contribuição relevante tanto para a compreensão da gênese de Ser e Tempo quanto para a avaliação da relação de Heidegger com a filosofia grega antiga. 4. A relevância atribuída às Lições assenta-se em duas razões principais. * Foram proferidas em momento próximo à publicação da obra magna de Heidegger, havendo evidências claras, tanto em Ser e Tempo quanto nas próprias Lições, da importância do Sofista platônico para o pensamento heideggeriano dos anos 1920. * Representam o único exame sistemático de um diálogo platônico oferecido por Heidegger. 5. O curso reúne farto material em mais de 650 páginas – uma introdução à fenomenologia, uma interpretação de passagens da Ética a Nicômaco e da Metafísica de Aristóteles, e um comentário contínuo ao Sofista com uma digressão sobre o Fedro –, deixando claro desde o início que o objetivo não é a exposição de um método hermenêutico, mas uma formação (Bildung) relevante para a vida de cada indivíduo, voltada à compreensão interior do questionamento científico. 6. O tema do "aprender primeiramente" (erstes Lernen) é desenvolvido por Heidegger como recuperação programática de um passado que não está distante de nós, mas que somos nós mesmos, de modo que compreender a história equivale a compreender a nós mesmos. 7. Ao discutir "a questão da filosofia na atualidade", Heidegger reafirma o sentido existencial da interpretação, comparando a seriedade de compreender o diálogo platônico à gravidade de um duelo em que está em jogo mais do que vida e morte. 8. Tais declarações programáticas são geralmente entendidas pelos estudiosos como referência ao tema heideggeriano do "novo começo" (neuer Anfang), sobretudo quando as Lições sobre o Sofista são situadas no contexto de outras obras contemporâneas, como as Interpretações Fenomenológicas sobre Aristóteles e os Conceitos Fundamentais da Filosofia Antiga. 9. Em razão desses traços programáticos, a pesquisa recente tende a abordar as Lições sobre o Sofista sobretudo de uma perspectiva heideggeriana, concentrando-se nos pressupostos metodológicos do próprio Heidegger. 10. A interpretação efetiva do diálogo, à luz dos temas próprios do pensamento heideggeriano, concentrou-se sobretudo na crítica de Heidegger à dialética platônica, na relação entre lógos, noûs e theōreîn, e na interpretação ontológica da koinōnía tôn genôn, dando origem a duas linhas – defender Platão das acusações de Heidegger ou elucidar as diferenças entre os dois pensadores –, ao passo que poucos estudiosos buscaram reduzir a distância entre ambos. * Alain Boutot, já em 1991, reconstruiu o conteúdo das Lições a partir dos escritos já publicados de Heidegger, mostrando que sua visão de Platão nos anos 1920 era menos negativa do que a expressa posteriormente em A Doutrina de Platão sobre a Verdade. * Catherine Zuckert, em Postmodern Platos, confirma essa tese e associa a imagem predominantemente negativa de Platão nos escritos tardios de Heidegger ao seu engajamento com Nietzsche. * Catalin Partenie e Rosalia Peluso interpretam essa relação de modo mais crítico: Partenie sustenta que Heidegger usa deliberadamente os diálogos platônicos para reforçar posições próprias, ainda que o pensamento de Platão tenha deixado uma marca sobre o seu; Peluso baseia-se na crítica de Popper a Platão como inimigo da sociedade aberta, estendendo-a a Heidegger. 11. Fora dessas abordagens, contudo, não se verificou um engajamento aprofundado com as Lições sobre o Sofista na pesquisa platônica mais recente, sendo Heidegger citado apenas esporadicamente nas interpretações contemporâneas do diálogo, o que justifica ir além dessa constatação preliminar e levar em conta seriamente sua contribuição, sem, no entanto, aceitá-la sem crítica. **III. Heidegger como Intérprete Inovador de Platão?** **III.1 A Crítica de Beierwaltes à Abordagem Heideggeriana da Filosofia Antiga** 12. A crítica do filósofo alemão Werner Beierwaltes à abordagem heideggeriana dos textos gregos antigos precisa ser ao menos parcialmente refutada, apontando ele dois traços característicos dessa abordagem "falha". 13. O primeiro traço é a propensão de Heidegger a "ouvir o não dito" (das Ungesagte) nas passagens interpretadas, o que segundo Beierwaltes resultaria, com frequência, em mera construção que projeta no texto o próprio pensamento heideggeriano; tal alegação, embora possivelmente válida em muitas passagens, não pode ser aceita sem ressalvas, já que o próprio Beierwaltes reconhece traduções heideggerianas historicamente e tematicamente adequadas – restrição especialmente pertinente no caso das Lições sobre o Sofista. 14. O segundo ponto de crítica de Beierwaltes refere-se à frequente inadequação ou incorreção histórica e temática das traduções heideggerianas do grego original, decorrente de três aspectos: * a tendência de "ressuscitar" o significado "originário" das palavras por meio de uma abordagem etimologizante das raízes; * o processo associativo sistemático pelo qual o campo semântico do termo alemão equivalente é livremente explorado, de modo que "o grego é antes pensado como alemão"; * a mistura indistinguível entre tradução e interpretação daí resultante. 15. Contra essa acusação, ainda que a busca pelo "espírito e não a letra" do pensamento grego no retorno heideggeriano aos gregos leve a um círculo vicioso, permanece o fato de que as traduções de Heidegger nas Lições sobre o Sofista, embora "criativas", são majoritariamente adequadas. * Em Sofista 228c1, a tradução heideggeriana de metéchō, embora menos literal do que "o que participa de kínēsis", constitui reinterpretação didaticamente motivada de um conceito corretamente concebido, capaz de trazer à tona com mais clareza o sentido pretendido por Platão. * Em Sofista 218c4ss., mesmo com alguma imprecisão pontual, a tradução hermenêutica de Heidegger aponta corretamente para a ausência de um sentido unívoco do termo lógos nessa passagem, que abrange tanto o procedimento discursivo-dialético da investigação quanto a definição que exprime verbalmente as propriedades do objeto pesquisado. 16. A crítica de Beierwaltes deve ser levada a sério e não pode ser rebatida sem ressalvas, mas os exemplos apresentados mostram que ela não deveria ser formulada de modo tão peremptório; a questão mais complexa – a afirmação heideggeriana de que Aristóteles expôs os temas platônicos "de modo mais radical e mais científico" do que o próprio Platão – não pode ser examinada aqui, restando apenas o compromisso de abster-se de conclusões gerais e preconcebidas sobre a metodologia de Heidegger, de modo a possibilitar uma abordagem produtiva, objetiva e sóbria de sua interpretação do Sofista. **III.2 Heidegger como Intérprete do Sofista** 17. Na interpretação heideggeriana do Sofista, atribui-se grande importância à definição do sofista como imagem especular do filósofo, linha argumentativa desenvolvida sobretudo na "Transição" e na "Introdução" à interpretação propriamente dita, o que exige antes uma breve caracterização do diálogo. 18. O Sofista forma, com o Teeteto e o Político, uma trilogia dedicada respectivamente à epistemologia, à ontologia e à política, cuja articulação interna sugere uma preparação gradual, nunca concluída por escrito, para a investigação da natureza do filósofo, cabendo ao Sofista um papel especial dentro dela. * Como transição temática entre o Teeteto e o Político, o diálogo aprofunda a posição platônica sobre a relação entre epistemologia, ontologia e política já introduzida na República. * Além disso, é o primeiro diálogo em que Platão vincula explicitamente a determinação da natureza do filósofo, por meio da definição do sofista, à questão do Ser. 19. O fato de a conversação representada no Sofista consistir primariamente numa investigação detalhada sobre a natureza do sofista não constitui contradição, mas antes uma dimensão sistemática inovadora e pouco refletida do diálogo. 20. A interpretação heideggeriana distingue-se fundamentalmente das leituras tradicionais ao sustentar, contra os intérpretes que veem de modo irônico ou literal o anúncio de uma obra sobre o filósofo, que o próprio Sofista cumpre a tarefa de esclarecer o que é o filósofo, revelando conhecimento da literatura filológica secundária e antecipando intuições exegéticas somente "redescobertas" nos últimos trinta anos, como se observa em sua reflexão sobre o sentido filosófico da forma dialógica de exposição de Platão. 21. A análise heideggeriana aproxima-se da abordagem dialógica contemporânea ao sustentar, primeiro, que a forma do diálogo reflete, para Platão, o próprio processo do pensar filosófico; segundo, que todos os diálogos platônicos, mesmo os tardios, são socráticos por natureza; e terceiro, que o próprio diálogo fornece ao leitor indicações sobre como resolver os problemas nele tratados – ainda que Heidegger tenda a desconsiderar reiteradamente o momento discursivo (dialégesthai) em favor de um puro "olhar" (noeîn), e que sua abordagem dialógica difira da contemporânea por não reconhecer as diferenças fundamentais entre o método socrático e o método do Estrangeiro de Eleia, nem abandonar a teoria do porta-voz (Sprachrohr-Theorie). 22. Tais restrições não invalidam o fato de Heidegger ser o primeiro intérprete do Sofista a abandonar a divisão corrente em introdução, envoltório e núcleo, defendendo a unidade temática do diálogo. * O propósito final do diálogo – a definição do sofista – determina, para Heidegger, o restante de toda a investigação, sendo a digressão sobre o ser do Não-Ser apenas um desdobramento do problema principal. * A análise heideggeriana da "preparação preliminar" do diálogo sustenta que o cenário e a caracterização dos interlocutores antecipam as preocupações centrais do texto: a natureza do sofista como imagem do Não-Ser e o lógos como "instrumento" da filosofia. * A procedência eleata do Estrangeiro é interpretada como indicação explícita de um confronto com a doutrina de Parmênides, e a citação homérica inicial, como tentativa bem-sucedida de Sócrates de chamar a atenção para a relação entre filosofia e divindade. * O fato de os verdadeiros filósofos aparecerem sempre disfarçados aos olhos dos ignorantes é apontado como a causa que levou Platão a certas restrições em sua investigação sobre a natureza do filósofo. 23. A passagem em que Sócrates pede aos interlocutores que determinem a natureza do sofista, do político e do filósofo levou muitos intérpretes a supor uma trilogia planejada e nunca concluída por Platão, gerando indagações recorrentes sobre por que o Filósofo não foi escrito. 24. Heidegger, por sua vez, sustenta que Platão jamais pretendeu escrever uma trilogia e que o próprio Sofista cumpre, por seu procedimento dialógico, a tarefa de descrever o filósofo, apoiando-se na passagem 253c8s. e em sua análise da dialética platônica; diferentemente das abordagens que recorrem à filosofia da linguagem para explicar o problema da falsidade e do Não-Ser, Heidegger prefere uma divisão mais complexa das funções do lógos (onomática, delótica, intencional, lógica), que lhe permite interpretar o enunciado falso como engano, já que todo lógos, enquanto desvelamento do Ser, possui caráter revelador por natureza, mas pode ser modificado em não-desvelamento no sentido de ocultar, distorcer, obstruir ou impedir de ver – dualidade que possibilita compreender o sofista como enganador e o filósofo como "revelador". 25. A abordagem heideggeriana – não sua interpretação como um todo – revela-se frequentemente adequada, permanecendo em aberto sua utilidade para a compreensão do diálogo platônico: o Sofista exemplifica o método filosófico da interação entre synagōgḗ e diaíresis, e as três últimas definições da natureza do sofista evidenciam a proximidade entre sofística e filosofia, ao passo que a diferença se explicita na sétima e última definição, na chamada "Discussão Ontológica", em que o sofista, como artista da ilusão que "predica" o Não-Ser, é o inverso especular do filósofo, único capaz de "predicar" o Ser e desvelar os engodos do sofista. **IV. Objetivos desta Publicação, Panorama das Contribuições do Volume e Perspectivas** **IV.1 Objetivos desta Publicação** 26. A presente publicação busca facilitar, por meio da colaboração interdisciplinar entre filologia clássica e filosofia, uma metainterpretação filológica, histórica e filosoficamente sólida da abordagem heideggeriana do Sofista, com implicações tanto metodológicas quanto de conteúdo. 27. Os objetivos articulam-se em três planos. * No plano metodológico, indaga-se se abordagens interpretativas de Heidegger que, à primeira vista, parecem violar o texto platônico revelam-se, após análise mais detida, ao menos parcialmente sólidas do ponto de vista filológico. * No plano do conteúdo, os ensaios de perfil mais filológico concentram-se em seções das Lições ainda pouco investigadas, como a interpretação heideggeriana de tékhnē e symplokḗ e de passagens específicas do diálogo. * No plano filosófico, investiga-se em que medida a abordagem metodológica de Heidegger ao Sofista permite extrair conclusões substantivas e metodológicas sobre sua própria filosofia. 28. Esses diferentes objetivos são perseguidos pelas distintas contribuições reunidas no volume, apresentadas a seguir em síntese. **IV.2 Panorama das Contribuições** 29. Jens Kristian Larsen examina se a preocupação ontológica de Heidegger o torna cego à dimensão ética do pensamento platônico, concluindo que a leitura "destrutiva" heideggeriana não distorce a teoria platônica no Sofista, mas articula estruturas relevantes para Platão, sem que o interesse ontológico oculte a dimensão ética ou política. 30. Catalin Partenie investiga a abordagem heideggeriana do Sofista por meio de uma reconstrução da filosofia aristotélica, argumentando que o fio condutor real das Lições não foi Aristóteles, mas o próprio pensamento de Heidegger à época, posteriormente desenvolvido em Ser e Tempo, o que revela menos o que Platão disse do que o próprio filosofar heideggeriano – ainda que isso demonstre, ao mesmo tempo, a legitimidade de um filósofo ultrapassar os autores que interpreta. 31. Laura Candiotto concentra-se no héteron platônico e em sua interpretação heideggeriana, mostrando que a negação nele implicada é entendida por Heidegger como forma primordial de relacionalidade, e não como instrumento dialético, mas como poder revelador capaz de mostrar "as coisas mesmas", possibilitando compreender a filosofia platônica como uma "filosofia das relações". 32. Nicolas Zaks argumenta que a leitura heideggeriana do Sofista, sobretudo sua percepção do caráter relacional do "em si mesmo" (autó kath’hautó), pode servir de ponto de partida para sintetizar diferentes interpretações contemporâneas do diálogo, sendo também aplicável à questão da temporalidade no Sofista, mesmo contra a própria sugestão de Heidegger. 33. Argyri Karanasiou demonstra que Heidegger identificou corretamente o conceito de interrelação (symplokḗ) já no Banquete, destacando que a mescla entre lógos e héteron constitui o lógos falso e possibilita compreender os fenômenos da produção de imagens, conduzindo o verdadeiro filósofo a aceitar que "o que é" reúne, a um só tempo, o imutável e o que está em mudança. 34. Maia Shukhoshvili discute o conceito de tékhnē no Sofista, mostrando que a interpretação heideggeriana desse termo como uma espécie de "saber-fazer" oferece a melhor definição para as numerosas atividades humanas mencionadas no diálogo. 35. Olga Alieva concentra-se na discussão platônica da falsidade no Sofista e na leitura heideggeriana correspondente, mostrando que, enquanto a solução de Platão se apoia na dimensão proposicional do lógos, Heidegger busca substituir a teoria da correspondência pela concepção da verdade como "desvelamento" (Unverborgenheit), o que, segundo Alieva, o leva a ignorar excessivamente categorias da lógica moderna indispensáveis para a interpretação adequada da "ortholôgia perì tò mè ón" platônica. 36. As leituras heideggerianas do Sofista revelam-se fecundas e parcialmente convincentes do ponto de vista filológico, ainda que certos pressupostos interpretativos básicos – suas premissas ontológico-fundamentais, sua interpretação do lógos, sua caracterização da dialética platônica e, sobretudo, suas teses sobre a história da metafísica, como a necessidade de iniciar a leitura do Sofista por uma extensa análise de Aristóteles – permaneçam controversos, o que remete à questão de como essa abordagem metodológica pode ser interpretada em nível propriamente filosófico. **IV.3 Perspectivas** 37. A fórmula das Lições sobre o Sofista segundo a qual cabe "deixar os textos falarem por si mesmos" evidencia a profunda conexão entre a compreensão heideggeriana da fenomenologia e a hermenêutica textual, exigindo uma preparação que, para Heidegger, não coincide com a formação filosófica escolar "sistemática" (Bildung), a qual antes oculta o conteúdo dos textos e impede o acesso frutífero às obras clássicas. 38. O acesso irrestrito à coisa mesma em questão – que no caso do Sofista é o Ser (Sein) – não designa, para Heidegger, um conceito abstrato, mas as formas de vida do sofista e do filósofo enquanto modos de existência do Dasein, concretização vinculada à definição do lógos e do légein como método e fundamento da investigação ontológica; essa seria a contribuição específica de Platão à história da metafísica ocidental, embora ele mesmo ainda confundisse o dizer do Ser (légein) com a visão do Ser (noeîn), distinção explicitada apenas por Aristóteles – razão pela qual Heidegger antepõe a extensa discussão de Aristóteles à interpretação do Sofista, exigindo mesmo assim um afastamento parcial da Bildung e uma visão "não instruída" das coisas. 39. Essa concepção de método reproduz a estrutura básica de Ser e Tempo, em que também se exige uma investigação ontológica completa do Dasein antes da destruição da história da ontologia, reconhecendo-se aqui uma herança husserliana no acesso puramente intuitivo e descritivo aos fenômenos, próximo do método da epoché de Husserl. 40. Essa não é, porém, a última palavra de Heidegger sobre o assunto: também nas Lições sobre o Sofista ele rejeita a ideia de um noeîn puro – e, com ela, a epoché husserliana e a filosofia da evidência – ao ridicularizar o "romantismo que acredita poder saltar diretamente ao espaço aberto", como se fosse possível libertar-se da história por um salto. 41. Ao contrário, Heidegger sustenta desde o início das Lições que o acesso aos fenômenos exige não a negligência, mas o trabalho através da tradição, isto é, dos textos clássicos, em razão da "decadência" (Verfallenheit) do Dasein perante o "impessoal" (das Man) e a tradição – estado primário de todo Dasein que se manifesta como "falatório" (Gerede), o qual bloqueia ou dissimula (verstellen) o verdadeiro Ser em vez de revelá-lo, qualificando também a Bildung do filósofo instruído como forma de "falatório"; nesse sentido, a fenomenologia husserliana, embora tenha visto a necessidade de superar os conceitos filosóficos tradicionais, permaneceu presa ao cartesianismo e ao paradigma do transcendentalismo subjetivo, de modo que não pode haver noeîn puro, sendo necessário o desvio pelo légein e pelo dialégesthai – e, portanto, pelos textos clássicos – para "irromper em direção ao ser". 42. A estrutura ambivalente entre noeîn-légein e entre dissimulação-revelação aplica-se igualmente ao lógos, que tem a capacidade de revelar o ser, mas que, normal e primariamente (zunächst und zumeist), tende a dissimulá-lo, o que suscita a questão de como sustentar a exigência de "deixar os textos falarem por si mesmos" se não há acesso a um noeîn puro capaz de revelar o verdadeiro Ser e se resta apenas um légein/dialégesthai propenso à dissimulação – problema que atinge também as próprias leituras heideggerianas do Sofista. 43. Ao final da introdução chega-se, assim, a um paradoxo que não constitui falha exclusiva da filosofia heideggeriana, mas antes revela uma ambivalência inerente à própria compreensão e interpretação enquanto tais; a inconclusividade do próprio Heidegger quanto à relação entre légein e noeîn no Sofista espelha essa ambivalência e expõe o problema fundamental de seu método hermenêutico, sugerindo que uma clarificação filológica da dialética platônica poderia, reciprocamente, esclarecer a própria abordagem heideggeriana, oferecendo assim acesso a um problema filosófico da compreensão inalcançável por qualquer tentativa fundada num noeîn puro. {{tag>GA19 Platão Sofista}}