====== 1 Abertura. Fragmento 64. ====== **Abertura do Seminário sobre Heráclito ** 1. A abertura do seminário é marcada por um agradecimento a Martin Heidegger pela disposição em conduzir espiritualmente a tentativa comum de adentrar o domínio do pensador Heráclito, cuja voz, como a da Pítia, estende-se por mais de milênios, e, embora originário do ocidente e há muito passado, ainda não foi alcançado, sendo os gregos um desafio imenso do qual se aprende, com o diálogo de Heidegger, como o mais distante se torna próximo e o mais familiar se torna estranho, impedindo o repouso em uma interpretação segura. * O seminário configura-se como um exercício de pensamento ([[lx>termos:d:denken|Denken]]), isto é, de reflexão sobre os pensamentos pré-pensados por Heráclito, visando não prioritariamente a problemática filológica, mas a penetração na coisa mesma ([[lx>termos:s:sache-selbst|Sache selbst]]) que deve ter estado diante do olhar espiritual do pensador. * Essa coisa do pensamento não é algo simplesmente dado como um achado ou uma tradição linguística, mas pode tanto ser aberta quanto encoberta pela transmissão verbal, sendo uma falha considerá-la como uma coisa dada, visto que não se encontra em algum lugar como uma terra da verdade a ser descoberta, permanecendo ainda obscura em sua objetividade e modo de acesso. **Objetivos e Método do Seminário ** 2. A busca pela coisa do pensamento de Heráclito assemelha-se àquele que esqueceu o caminho, e o seminário não é um espetáculo, mas uma sessão de trabalho sóbria, cujo experimento comum de reflexão não estará isento de decepções e derrotas, visando, no entanto, através da leitura do texto do velho pensador, alcançar o movimento espiritual que liberta para a coisa que merece ser nomeada como coisa do pensamento. * Com o acordo de Heidegger, uma interpretação provisória dos ditos de Heráclito é apresentada para fornecer uma base de discussão e um ponto de partida para uma revisão crítica, buscando colocar os participantes em uma comunhão da linguagem questionadora. * Embora seja talvez prematuro, observa-se que a linguagem de Heráclito possui uma polissemia interna e multidimensionalidade que oscila da expressão gnômica e sentenciosa até uma extrema ousadia do pensamento, não podendo ser univocamente atribuída a relações determinadas. **Edição e Organização dos Fragmentos ** 3. A edição de texto utilizada como base é a dos fragmentos dos pré-socráticos de Hermann Diels, cuja ordenação dos fragmentos não é considerada vinculativa, optando-se por uma disposição diferente que visa fazer resplandecer uma conexão de sentido interna, sem a pretensão de reconstruir a forma original da obra perdida de Heráclito, mas na esperança de que uma certa pista se manifeste. * A disposição escolhida não é julgada como melhor que a de Diels, mas busca traçar um fio condutor através da multiplicidade dos ditos, e, sem mais considerações prévias, o seminário inicia-se imediatamente na questão, _in medias res_. **Análise do Fragmento 64 ** 4. A interpretação começa com o fragmento 64, cuja frase "τὰ δὲ πάντα οἰακλίζει Κεραυνός" é aparentemente compreensível para todos, mas a questão reside em saber se é compreensível no que concerne a essa opinião, e, ao refletir mais, logo se afasta do entendimento fácil e da familiaridade aparente. * A tradução de Diels, "O universo, porém, o raio governa", é questionada, pois "[[f>p:panta|τὰ πάντα]]" significa primariamente "todas as coisas", "todo o ente", estabelecendo uma relação de muitas coisas com o Uno do raio, onde o relâmpago faz com que o múltiplo, no sentido de "tudo" (plural), resplandeça. * Ao perguntar ingenuamente sobre "τὰ πάντα", trata-se de uma relação abrangente; se traduzido por "todas as coisas", deve-se questionar o que são as coisas, podendo-se tomar o conceito de coisa em sentido amplo (tudo o que é) e em sentido estrito (distinguindo coisas por natureza, φύσει, e coisas provenientes da técnica humana, [[lx>termos:t:techne|τέχνῃ]]). * Nas coisas por natureza, tanto as inanimadas quanto as vivas, considera-se algo isolado com um contorno determinado, partindo do pressuposto de que "τὰ πάντα" forma a totalidade das coisas finitamente limitadas, embora um objeto como uma pedra seja parte de uma montanha, levantando a questão de se a montanha ou a terra podem ser chamadas de coisas. **Intervenção de Heidegger sobre τὰ πάντα e o Raio ** 5. Heidegger propõe que se pergunte primeiro se Heráclito fala de "τὰ πάντα" em outros fragmentos para obter um apoio do próprio pensador sobre o que ele entende por isso, ganhando maior proximidade, e, em segundo lugar, questiona o que o raio tem a ver com "τὰ πάντα", ou seja, o que significa dizer que o raio governa o universo, especialmente quando o raio, como fenômeno sensível, pertence ao universo. * A compreensão grega do raio exige sua conexão com o fenômeno natural, que, segundo Fink, é o rompimento do raio luminoso na escuridão da noite, fazendo com que as coisas apareçam em seus contornos, e, em sentido mais profundo, o raio traz as muitas coisas à manifestação em sua reunião articulada. * Heidegger lembra de um relâmpago em Egina e do pensamento "Zeus", e afirma que a tarefa é investigar o que significa "τὰ πάντα" e a conexão entre "τὰ πάντα" e o raio, que deve ser relacionado também ao fogo ([[f>p:pyr|πῦρ]]), lembrando que o fragmento foi transmitido por Hipólito, cerca de 800 anos depois de Heráclito. * No contexto de Hipólito, fala-se também de πῦρ e [[f>k:kosmos|κόσμος]], e Heidegger menciona um diálogo com Karl Reinhardt sobre o campo intermediário entre a filologia pura e o filosofar precipitado, onde se situa o papel da tradição, da compreensão e da interpretação, e onde, em Hipólito, encontra-se também a ἐκπύρωσις como fim do mundo. **Inclusão dos Fragmentos 41 e 1 ** 6. Para compreender o fragmento 64 adequadamente, propõe-se incluir o fragmento 41, "εἶναι γὰρ ἐν τῷ σοφόν, ἐπίστασθαι γνώμην, ὄτῃ ἐκυβέρνησε πάντα διὰ πάντων", traduzido por Diels como "Uma só coisa é a sábia, compreender o pensamento, que soube governar tudo em todos os sentidos", cujo peso está em "ἐν τῷ σοφόν" e em "πάντα διὰ πάντων" ("tudo através de tudo"), sendo crucial atentar para a conexão do início e do fim da frase. * Fink estabelece uma analogia entre a unidade do raio e "τὰ πάντα", cuja claridade mostra o múltiplo em seu contorno, e a unidade do "[[f>s:sophon|σοφόν]]" com "πάντα διὰ πάντων". * Heidegger admite a relação entre o raio e o "ἐν τῷ σοφόν", mas destaca que em 41 fala-se de "πάντα διὰ πάντων", expressão similar à de Parmênides, onde se deve questionar o significado de "διά" (através), se é local, espacial, causal ou outro, e que "τὰ πάντα" não é uma totalidade estática, mas uma multiplicidade movente de ente, cujo movimento está co-pensado no resplandecer na clareira ([[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]]) do raio. * A sugestão de Heidegger de incluir o fragmento 1, "γινομένων γὰρ πάντων κατὰ τὸν λόγον τόνδε" ("Pois embora tudo aconteça segundo este [[f>l:logos|λόγος]]"), mostra que Heráclito fala de movimento (γινομένων), mas, para Fink, trata-se da movimentação intracósmica das coisas, não daquela que parte do λόγος. **A Questão de γένεσις e Movimento ** 7. O termo "γινομένων" remete a "[[f>g:genesis|γένεσις]]"; enquanto na Bíblia significa criação, pergunta-se o que significa no grego, e, embora "γένεσις" não seja um conceito em Heráclito, a palavra aparece em lugar fundamental, podendo-se, fenomenalmente, encontrar γένεσις no âmbito dos seres vivos, onde o surgir (γίγνεσθαι) está ligado ao perecer (φθείρεσθαι). * Ao relacionar γένεσις com "τὰ πάντα", amplia-se seu sentido para além do âmbito fenomênico, o que Heidegger chama de ôntico, e essa extensão também ocorre na linguagem vulgar, como na "formação do mundo". * No fragmento 1, trata-se do sentido mais geral de γένεσις, pois "τὰ πάντα" não surge como os seres vivos, e a [[f>p:poiesis|ποίησις]] dos fenômenos é diferente da γένεσις, já que o vaso não surge pela mão do oleiro como o homem é gerado pelo homem. **Determinação de γένεσις e os Fragmentos 64, 41 e 1 ** 8. A tarefa é perguntar o que significam "τὰ πάντα" (fr. 64), "πάντα διὰ πάντων" (fr. 41) e "γινομένων γὰρ πάντων" (fr. 1), sendo que "κατὰ τὸν λόγον" corresponde a "ἐν τῷ σοφόν" e ao "Κεραυνός"; o sentido de γένεσις em γινομένων é alargado, mas Heidegger sugere compreender no sentido genuinamente grego, onde não significa devir no sentido moderno, mas vir ao ser, vir à presença ([[lx>termos:a:anwesenheit|Anwesenheit]]). * Três perspectivas diferentes são extraídas dos fragmentos 64, 41 e 1, e a elas se pode acrescentar o fragmento 50, "οὐκ ἐμοῦ, ἀλλὰ τοῦ λόγου ἀκούσαντας ὁμολογεῖν σοφόν ἐστιν ἓν πάντα εἶναι" ("Tendo ouvido, não a mim, mas ao sentido, é sábio concordar que tudo é um"), onde importam "[[f>h:hen|ἕν]]", "πάντα" e "ὁμολογεῖν". **Relação entre os Fragmentos e a Movimentação ** 9. O vir à manifestação (Zum-Vorschein-Kommen), entendido como o sentido grego de γένεσις em γινομένων, relaciona-se com a claridade e o esplendor do raio, estabelecendo uma relação análoga ao momento em que o relâmpago mostra tudo em seu contorno, sendo isso o que sempre acontece no πῦρ ἀείζωον (fogo sempre vivo) do fragmento 30. * Distingue-se, então, a movimentação do lampejo do raio, que é a de trazer à manifestação, e essa movimentação interventora na movimentação das coisas corresponde à movimentação do "ἐν τῷ σοφόν"; a ação de governar não se restringe ao raio ou ao σοφόν, mas à sua eficácia no trazer à manifestação. * A movimentação do governo que intervém na movimentação das coisas acontece segundo o λόγος, e a movimentação das coisas que estão na claridade do raio possui uma natureza semelhante ao σοφόν, mas deve ser distinguida da movimentação que parte do próprio σοφόν, podendo λόγος, σοφόν, Κεραυνός, πῦρ e πόλεμος serem diferentes palavras para a mesma coisa, onde a guerra ([[f>p:polemos|πόλεμος]]) determina a movimentação das coisas em oposições. **Diferenciação dos Movimentos e a Relação com διά ** 10. O que é pensado com γένεσις em γινομένων γὰρ πάντων serve para determinar mais precisamente o "διά" do fragmento 41, não no sentido causal, mas como a movimentação que, ao romper a escuridão e fazer tudo resplandecer, é a movimentação da γένεσις no modo do "διά" e que prossegue nas movimentações das coisas, de modo que a movimentação produtora do raio corresponde à do λόγος que tudo institui, governa e determina. * A relação entre a movimentação do lampejo e a movimentação do ente não é uma relação de efeito, mas trata-se da diferença entre a movimentação no Ser ([[lx>termos:s:sein|Sein]]) e a movimentação no ente ([[lx>termos:s:seienden|Seienden]]), ou entre a movimentação no desencobrir ([[lx>termos:e:entbergen|Entbergen]]) e a movimentação do desencobrido. * O lampejo momentâneo do raio é um indício de uma não-permanência, devendo ser compreendido como a brevidade do instante, um símbolo para a movimentação produtora que não é intramporal, mas que concede tempo (zeitlassende [[lx>termos:b:bewegung|Bewegung]]), e, para Heidegger, o raio é eterno, não apenas momentâneo. **As πυρὸς τροπαί e o Governar ** 11. O problema da movimentação produtora em sua relação com a movimentação do produzido deve ser pensado na conexão do raio, sol, fogo e também das Horas, onde o tempo é pensado; o ígneo em Heráclito deve ser pensado sob vários aspectos, como o fogo no sol e as mudanças do fogo (πυρὸς τροπαί), que é o produtivo que se retrai em suas transformações no produzido. * O "πάντα διὰ πάντων" do fragmento 41 é relacionado com as πυρὸς τροπαί, onde o raio é o rompimento súbito da luz na noite, e, se perpetuado, é o símbolo da movimentação produtora, enquanto a identificação de raio, fogo e guerra não é rejeitada, mas entendida como uma identidade da identidade e não-identidade. * Raio, fogo, sol, guerra, λόγος e σοφόν são diferentes perspectivas de pensamento sobre o mesmo fundamento, que nas πυρὸς τροπαί é pensado como o fundamento de tudo, que se retrai nas transformações em água e terra, fundamento que não é substância ou absoluto, mas luz e tempo. **O Significado de διά e o Fenômeno do Governar ** 12. A questão do "διά" a partir do fragmento 41 pode ser determinada a partir do governar (οἰακλίζειν), que Fink subsume sob a movimentação, mas que, para Heráclito, é o que se opõe a toda movimentação no ente como o raio se opõe ao que se mostra em seu esplendor, tendo o caráter de produção de movimentação no ente e não de ser movido; o governar refere-se à totalidade abrangente do ente. * O fenômeno do governo de um navio é a base de partida para o pensamento da produção da totalidade do ente na estrutura articulada, onde o trazer-à-manifestação governante do raio não só dá o contorno, mas também o impulso a todo ente, sendo a movimentação mais inaugural que traz a totalidade do ente à manifestação em sua múltipla movimentação e, ao mesmo tempo, nela se retrai. * Heidegger pergunta se o governar de 64 (οἰακλίζει) e o de 41 (ἐκυβέρνησε) podem ser relacionados com o "διά", e Fink afirma que em "διά" pensa-se uma movimentação transitiva, conectando "πάντα διὰ πάντων" com as πυρὸς τροπαί, que dizem que tudo se transforma em tudo através de oposições, movimentando-se por uma sabedoria incognoscível, e que, embora Heráclito não tematize oposições ou dialética, ele mostra as oposições a partir do fenômeno. **O Fenômeno do Governar e a Cibernética ** 13. Heidegger sugere que o governar como fenômeno envolve "trazer algo a uma direção desejada", e Fink descreve o governo como o trazer-à-força de uma movimentação, onde o navio sem leme é jogado pelas ondas, e o governo o conduz forçosamente, tendo o momento da violência ([[lx>termos:g:gewalt|Gewalt]]), sendo que Aristóteles distingue a movimentação inerente das coisas da movimentação que lhes é infligida violentamente; Heidegger questiona se há um governar sem violência, ligando o fenômeno à Cibernética ([[lx>termos:k:kybernetik|Kybernetik]]), que domina as ciências naturais e o comportamento humano. * O fenômeno humano do governar é determinado pelo momento do ajuste violento e calculado, ligado ao saber calculador e à intervenção violenta, diferente do governar de Zeus, que não calcula, mas reina sem esforço, podendo haver um governar sem violência no âmbito dos deuses, mas não no humano. * Heidegger indaga se o governar da Cibernética contemporânea é violento e, ao distinguir entre o governar violento de manter na direção e o governar sem violência dos deuses, afirma que os deuses gregos não têm a ver com religião, pois os gregos não acreditavam em seus deuses, mas tinham o mito, que é algo diferente da crença. * Ao perguntar sobre o governar na genética, Fink distingue entre o comportamento natural dos genes, interpretável ciberneticamente, e a manipulação dos fatores hereditários, que constitui violência mesmo quando não sentida, e Heidegger introduz a ideia da informação nos genes, perguntando se nela está pensada a violência. **Informação e Governar na Biologia Cibernética ** 14. Fink observa que os genes, como um achado biológico, quando submetidos a uma tentativa de melhorar a raça humana, configuram violência, e Heidegger distingue a interpretação biológica pela teoria da informação da tentativa ativa de governar, questionando se o conceito de governar violento é adequado na biologia cibernética, onde Fink considera que não se pode propriamente falar de governar; Heidegger sugere uma ambiguidade no conceito de informação. * Os genes mostram uma certa impressão (Geprägtheit) e têm o caráter de arquivos de longo prazo; o homem vive sua vida condicionado geneticamente, e fala-se da capacidade de aprendizado dos genes, e a informação significa tanto a impressão (informare) quanto a técnica de transmissão de notícias (Nachrichtentechnik). * Ao perguntar se os genes desdobram mensagens contidas neles, Fink afirma que o ser humano se comporta como se recebesse uma ordem do arquivo genético, e a partir daí a liberdade se torna uma liberdade planejada; a informação significa tanto a impressão quanto o dar notícia, ao qual o notificado reage, e a biologia cibernética formaliza os comportamentos humanos e transforma toda a causalidade. **Conclusão: Unidade e Diversidade dos Princípios ** 15. Heidegger conclui que uma multiplicidade de aspectos no fenômeno do governar foi vista, e que Κεραυνός, ἕν, σοφόν, λόγος, πῦρ, Ἥλιος e πόλεμος não são idênticos e não podem ser simplesmente igualados, mas entre eles vigem relações determinadas que se quer ver quando se esclarece os fenômenos, pois Heráclito não descreveu fenômenos, mas simplesmente os viu. * Finalmente, o fragmento 47, "μὴ εἰκῇ περὶ τῶν μεγίστων συμβαλλόμεθα" ("Não lancemos ao acaso, isto é, sem refletir, nossas palavras sobre as coisas mais elevadas"), é lembrado por Heidegger como possível lema para o seminário. {{tag>GA15 Heráclito cibernética governar informação genesis}}