====== 4ª e 5ª transformações do pensamento mítico ====== //Marc Richir, "O que é um deus?", em SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Philosophie de la mythologie. Tradução: Alain Pernet. Grenoble: J. Millon, 1994.// === Quarta transformação: origem e natureza dos relatos mitológicos === * Diferença de origem entre mitos e mitologias * Mitos: elaboração coletiva e anônima; sem autores identificáveis * Relatos mitológicos: elaboração por classes eruditas (sábios), frequentemente próximas ao poder real; transmitidos por escrito * Caráter dos relatos mitológicos * Fruto de elaboração erudita, reflexiva e complexa * Não são criação puramente erudita; articulam-se com o pensamento mítico no momento da instituição da realeza * Contexto histórico de surgimento * Surge com pequenas realezas locais e divindades locais (ex.: Grécia) * Grandes narrativas mitológicas são tentativas de unificação: * Correlata a uma realeza "imperial" (ex.: Mesopotâmia) * Correlata a um sonho de unificação cultural (ex.: Grécia, com Homero e Hesíodo) * Natureza das grandes narrativas * Não são sua origem absoluta; são reelaborações eruditas, unitárias e teleológicas de materiais mitológicos pré-existentes * Podem ter variantes (não são únicas ou canônicas por natureza) * A história (e a mitologia) é contingente === Quinta transformação: estrutura temporal e busca da origem === * Diferença na temporalidade * Mito: narra "coisas" e "eventos" em um passado transcendental (nunca presente para os humanos) * Mitologia: institui uma cronologia/historicidade transcendental dentro desse passado * Característica da narrativa mitológica * Sucessão de genealogias e dinastias divinas * Embutir passados transcendentais, do mais originário/caótico ao mais civilizado/organizado * Os humanos são "tardios"; a História (com vicissitudes) começa com eles * O problema da gênese * As genealogias tentam representar a gênese por ensaios, deslizamentos sucessivos e harmonizações * Processo comparado a um desenvolvimento "quase-musical" do pensamento * Esta dificuldade de pensar a gênese ecoa na filosofia * Busca da origem radical * Regressão do pensamento a figuras simbólicas da origem (ex.: Caos, Gaía, Éros em Hesíodo; Apsu-Tiamat na Mesopotâmia) * Questão: se estes primeiros seres são "divindades" no mesmo sentido * Indica uma elaboração simbólica "especulativa" por sábios ("metafísica" em sentido amplo) * Pode distinguir fases cosmogônica e teogônica/sociopolítica na narrativa === Função social e temporalidade instituída === * Congruência com a instituição simbólica da temporalidade * O relato mitológico narra conflitos entre deuses em um "outro" tempo, poupando os humanos do "trabalho" da fundação do mundo * Dívida simbólica e culto * Os humanos têm uma dívida simbólica original e irredutível para com os deuses * Retribuída através de culto e serviços, mantendo a "subsistência" divina * O rei também está sujeito a esta dívida, a menos que tente se identificar aos deuses (com riscos) * Estrutura temporal tripartite * Passado transcendental "historicizado" (mitologia) * Futuro transcendental indefinido * Presente como presença do invisível divino (templo, efígies, rituais) * Finalidade do culto * Honrar o passado e preservar o futuro de uma implosão catastrófica da instituição simbólica global * A imortalidade/ordem dos deuses e do mundo depende paradoxalmente desta presença instituída no culto === Conclusão: complexidade e posição frente ao monoteísmo === * A mitologia como pensamento complexo * É apresentada metodologicamente como um pensamento por direito próprio * Coloca questões complexas à razão * Dois monoteísmos de origens heterogêneas * **Monoteísmo religioso (origem judaica)** * Institui-se contornando o desenvolvimento mitológico * Genealogias são humanas, não divinas * Combate constante à "idolatria" (ressurgência mitológica) * Centralidade da Aliança original com Deus e sua configuração teológico-política * Elementos "arcaicos" recodificados na história genealógica da Aliança (traços estruturais da mitologia, mas "invertidos") * **Monoteísmo filosófico (origem grega)** * Busca unificação simbólica através de um //logos// de outra ordem (chamado "racional") * Sem genealogias ou dinastias, exceto de tipo "lógico" ou "logológico" * Seus encadeamentos tornaram-se familiares e pouco conscientes * Questão central do livro * A possibilidade (ou impossibilidade) de encontro entre: * O pensamento filosófico e seu monoteísmo próprio * O pensamento mitológico * Encontro de duas instituições simbólicas diferentes do pensamento (questão difícil e fascinante) {{tag>Richir Schelling mitologia}}