====== Escritor e seu objeto ====== //PATOCKA, Jan. L’écrivain, son “ objet”. Tr. Erika Abrams. Paris: Presses Pocket, 1992.// ** Advertência de Erika Abrams ** * Jan Patočka publicou em 1960 uma tradução da Fenomenologia do espírito de Hegel, seguida em 1966 de uma tradução da Estética, sendo esses dois volumes o essencial de sua obra de tradutor, que se limita, à parte textos breves de Comenius a Heidegger, a um recorte das Ideias para a filosofia da história da humanidade de Herder em 1941, uma obra de Roger Garaudy, As perspectivas do homem, em 1964, e por fim, em 1975, uma incursão no domínio literário com a versão alemã de O arco de Deus do romancista tcheco Jaroslav Durych, cada tradução acompanhada de uma reflexão original que resultará numa posfácio a Herder e num prefácio a Durych, mas que, no caso de Hegel, se estenderá muito além da anotação da Fenomenologia e da grande introdução à Estética, a ponto de inspirar uma série de ensaios dedicados à arte e à cultura europeia em todas as suas formas e estados, textos que os discípulos de Patočka reunirão já em 1977, no dia seguinte à sua morte, para inaugurar a edição samizdat de suas obras. * Essa reflexão escapa tanto às pequenezas quanto às amarras do compartimentamento das edições tcheca e alemã, sendo menos linear que radiante, partindo de dois focos — a arte do discurso e o discurso sobre a arte, a literatura e a estética — e percorrida por fios condutores já familiares aos leitores de Patočka: o cuidado e o drama da alma, a tragédia da liberdade, a crise do sentido, o tempo como lugar da verdade, fundamento tanto da fenomenalização do mundo quanto do movimento da existência humana em sua transcendência e sua história, reflexão sustentada quase a cada passo por uma relação com o pensamento hegeliano, longe de todo doutrinarismo materialista ou universitário, mas que, ao mesmo tempo em que lança, tal como a leitura de Aristóteles, uma luz indireta sobre a ideia do movimento da alma no mundo, de importância central na obra de Patočka, propõe-se, com o concurso de Hegel, filosofar na situação e com os problemas de nosso tempo. * Um texto breve de 1942 situa o cruzamento dos caminhos do escritor e do filósofo, e os problemas de nosso tempo correspondem à leitura hegeliana da tragédia grega de Sófocles no pano de fundo dos textos sobre a tragédia que abrem o volume O escritor, seu objeto por uma apreensão da temporalidade e da verdade próprias ao mito, primeira cristalização da linguagem enquanto clareira do mundo, e, com a passagem, no texto que dá título ao conjunto, à escrita dos escritores, e depois à leitura de obras particulares, tem início um entrecruzamento de linhas temáticas — o papel da arte no exame da alma em seu caminho rumo à verdade, a verdade da arte, a relação entre arte e fenômeno, a análise existencial, o destino espiritual da Europa e de sua ideia humanista —, em que o fio hegeliano ora se mostra mais, ora menos explícito, permanecendo confinado nas entrelinhas em O escritor, seu objeto, onde a definição da escrita como lembrete da totalidade da vida poderia contudo, ao deslocar o acento do individual para o universal, ser uma citação textual da Estética, mas revelando toda a amplitude de sua significação ao servir de marco da história da alma nos estudos sobre o Labirinto do mundo de Comênio e o Fausto de Goethe, e de ideia diretriz da leitura de Tchékhov, presença que aparece plenamente na análise dos temas do tempo, da eternidade e da temporalidade no poeta romântico tcheco K. H. Mácha, texto que ao mesmo tempo retoma o mito de origem, ilustrando a persistência de sua polaridade até o presente, e abre caminho para o segundo volume; as estruturas evidenciadas por Patočka são as da temporalidade heideggeriana, mas é através de Hegel que ele responderá, em A arte e o tempo, às duas questões que emergem na imersão do poeta até as fontes da fenomenalização do ente. * A arte e a filosofia? A arte e o tempo? As duas questões se equivalem e, de certo modo, coincidem, sendo a segunda a escolhida, ou antes tomada de empréstimo ao autor, como título da segunda parte do conjunto, que enriquece, com uma reflexão de segundo grau, a reflexão do filósofo sobre a mais universal das artes particulares. * A título de prólogo figura um texto do início dos anos cinquenta, contemporâneo do sistema do platonismo negativo, no qual Patočka, apoiando-se na experiência fundamental da liberdade humana enquanto decorrente da atitude definida pela epoché, como experiência da transcendência e de um sentido total que nunca se realiza, mas sempre se arrisca, tenta uma Aufhebung da metafísica desde Platão até Hegel que traria, em sua negatividade, uma solução positiva para a luta do homem pela totalidade, pela metafísica como uma das possibilidades da filosofia e, portanto, para a filosofia em geral, questão que, no mesmo título da arte ou da religião, pertence à essência própria do homem. * Aparentemente afastado da temática estética, mas em continuidade com as questões levantadas pelos últimos textos do primeiro volume — o tempo, o mito, a fé —, o texto capta a tensão interna do tempo humano, histórico, em comportamentos que, paralelamente ou em conjunto com a arte e a filosofia, dão corpo àquilo que Patočka chamará mais tarde de movimento de verdade, o terceiro movimento da existência humana, o movimento da existência propriamente dita; a liberdade e a verdade serão então as linhas de força do olhar, também ele histórico, voltado para a reflexão filosófica sobre a arte e a beleza, segundo um percurso cujas leituras do primeiro volume anunciaram as grandes linhas, desde os pré-socráticos, passando por Platão e a Renascença, com uma longa detença junto ao romantismo e ao idealismo alemão, até os dias de hoje e até uma perspectiva aberta sobre o porvir; isso permite a Patočka definir a tarefa da obra de arte, em eco tanto à sua exposição da abordagem da arte entre os gregos quanto ao que ele disse sobre a linguagem no fragmento de 1942, como a de concorrer, na condição de cocriadora, para a clareza e a abertura do mundo, sendo uma análise fenomenológica da atitude estética tal como Hegel a apresenta em seu curso de Berlim, associada a uma interpretação da passagem da Realphilosophie de Jena relativa ao tempo, que abre para o porvir a teoria hegeliana da arte como coisa do passado. * A arte enquanto porvir que se abre através das considerações de A arte e o tempo, último texto do conjunto, dedica-se à crise atual da civilização racional, sendo integralmente e por definição uma prova da liberdade espiritual do homem; o porvir da arte é o de uma atividade autônoma que quer manter-se junto ao berço do sentido que nasce nos sentidos, sendo a arte de ontem, de hoje e de amanhã, relação com a totalidade e tensão voltada para o porvir, o sentido concretamente vivido cuja crise determina a reviravolta que constitui esse outro movimento que torna possível também o espanto filosófico, o mito, a religião, e no qual o mundo, jogo de conjunto do sentido, vive sob um olhar que recolhe o que, irradiação em Hegel, já se dizia luz em Platão, de modo aprofundado, de uma vida cosmocêntrica e luminocêntrica. * Os textos de Patočka sobre a literatura e a estética, reunidos em O escritor, seu objeto e A arte e o tempo, não têm nada de marginal no conjunto de sua obra, podendo ser lidos como uma grande encenação, ou antes uma colocação em vida do último dos três movimentos da existência, inspirados pelos três êxtases da temporalidade heideggeriana, que constituem sua contribuição mais original à filosofia, mas cuja exposição permanece, em outros lugares, frequentemente esquemática, e, atento como sempre foi a esse outro lado do sentido vivido que é a história, não é por acaso que sua reflexão se prende aqui mais particularmente ao último grande surto trágico da interioridade europeia representado pela época de Hegel, o pensamento de Hegel e de seus contemporâneos — retorno do pensamento sobre si mesmo, momento de detença, tal como a fenomenologia de Husserl será um outro, no curso da Europa rumo à catástrofe.