===== EQUIPAMENTO, TRABALHO, MUNDO E SER (1990:137-141) ===== //ZIMMERMAN, Michael E. Heidegger’s Confrontation with Modernity. Technology, Politics, Art. Bloomington: Indiana University Press, 1990.// * Heidegger manteve ao longo da vida uma preocupação constante com a natureza do trabalho e da produção, expressa exemplarmente na análise da oficina em Ser e tempo, que visa fundamentar a compreensão do ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), afirmar a primazia da Zuhandenheit sobre a Vorhandenheit e preparar a elucidação do sentido (Sinn) do ser como enraizado na temporalidade (Zeitlichkeit). * A análise privilegia o artesanato em contraste implícito com o industrialismo. * A oficina funciona como ponto de partida fenomenológico. * A compreensão instrumental precede a científica-objetiva. * O sentido unificador do ser funda-se na temporalidade. * Toda interpretação opera mediante uma estrutura prévia composta por concepção, ter e visão prévios, que atua tanto na teoria quanto no uso cotidiano do instrumento (Zeug), possibilitando o emprego adequado das ferramentas a partir de uma compreensão antecipada de seu ser. * A interpretação pressupõe compreensão do que é interpretado. * Mesmo oficina desconhecida é reconhecida como oficina. * A estrutura-como orienta o uso da maçaneta como maçaneta. * A compreensão cotidiana é pré-ontológica e não teórica. * A tarefa consiste em explicitar sua estrutura ontológica. * O exemplo do sapateiro mostra que o uso do martelo é possível porque ele já compreende antecipadamente os equipamentos em termos da rede de relações e possibilidades que constitui seu mundo. * O martelo é entendido como ferramenta e não como objeto simplesmente presente. * A interpretação antecede o ato de pegar a ferramenta. * É possível abstrair o caráter instrumental e considerar o martelo como coisa. * A tradição filosófica inverte a situação ao supor que as entidades são primariamente presentes e apenas secundariamente ferramentas, enquanto a análise fenomenológica afirma que o modo fundamental de ser para nós é a prontidão-para-a-mão (Zuhandenheit). * A atitude espectatorial resulta de abstração. * A Vorhandenheit deriva do afastamento do envolvimento cotidiano. * O Dasein pode adotar posição de observador apenas secundariamente. * O equipamento, em sua funcionalidade cotidiana, torna-se transparente e retira-se em favor do trabalho a ser realizado, como ocorre quando o sapateiro martela sem perceber explicitamente o martelo. * A ferramenta funciona como extensão da mão. * A mão desempenha papel decisivo na revelação das entidades. * O que ocupa primariamente a preocupação é o trabalho a produzir. * A retirada da ferramenta garante sua autenticidade como pronta-para-a-mão. * A confiabilidade das ferramentas faz com que desapareçam na execução do trabalho, tornando-se visíveis apenas quando falham, faltam ou perturbam a atividade, iluminando então o mundo de relações que sustenta o ofício do sapateiro. * A ausência da ferramenta revela sua indispensabilidade. * O mundo do trabalho torna-se explícito na interrupção. * Surgem conexões com fornecedor, fabricante, cliente e finalidade do sapato. * A rede de referências constitui o mundo do sapateiro. * As ferramentas nunca existem isoladamente, mas apenas dentro de um contexto referencial significativo que constitui o mundo como totalidade de referências, tal como indicado por Heidegger em GA20. * A oficina não aparece como conglomerado de coisas. * Materiais, peças prontas e em andamento manifestam-se como mundo. * O mundo é totalidade revelada de referências. * Sem esse contexto, não haveria ferramenta enquanto tal. * A estrutura de atribuições “a fim de” (Um-zu) caracteriza as ferramentas e compõe a significância (Bedeutsamkeit) do mundo, fundamentada no Dasein enquanto aquilo para o qual (Worumwillen) a totalidade referencial opera. * O mundo não é soma de entidades naturais ou criaturas divinas. * É estrutura constituída pela e para a existência humana. * As entidades significam apenas no mundo aberto pelo Dasein. * O Dasein existe de modo tal que seu próprio ser está em questão para si, sendo caracterizado como cuidado (Sorge), isto é, engajamento prático com coisas, outros e consigo mesmo. * O ser humano manifesta-se fazendo, falando e escolhendo. * A manutenção de estruturas sociais e econômicas orienta a instrumentalidade. * Artefatos e elementos naturais revelam-se como prontos-para-uso. * A natureza é descoberta à luz do uso e dos produtos. * Ao afirmar a primazia da compreensão instrumental, Heidegger inverte a prioridade tradicional da teoria sobre a prática e sustenta que a visão distanciada deriva da circunspecção (Umsicht) própria das práticas cotidianas. * O comportamento pragmático não é grau inferior do teórico. * A teorização surge tardiamente em relação às práticas. * A autotransparência total é impossível. * O Dasein é lançado em práticas históricas não plenamente explicitáveis. * As relações constitutivas resistem à funcionalização matemática. {{tag>Zimmerman técnica trabalho mundo ser}}