===== KAIROS (2000:195-197) ===== //ZARADER, Marlène. A Dívida Impensada. Heidegger e a Herança Hebraica. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.// * A análise das aulas de Friburgo (GA60) revela os conceitos do Novo Testamento que interessam a Heidegger, particularmente o kairos nas epístolas de São Paulo, e permite investigar o destino desse interesse em sua obra posterior. * A maior parte da aula de 1920 é consagrada à meditação de duas epístolas de São Paulo: Primeira aos Tessalonicenses e Segunda aos Coríntios. * Da Primeira Epístola aos Tessalonicenses, Heidegger retém essencialmente o conceito de kairos, a partir da questão paulina sobre a vinda do Senhor (Parusia). * A análise heideggeriana da Primeira Epístola aos Tessalonicenses foca-se no par formado pela instantaneidade da vinda do Senhor, que ocorre como um ladrão na noite, e a vigília como o comportamento humano correspondente, uma determinação específica do tempo que Heidegger denomina "kairológica" em oposição à "cronológica". * São Paulo não fornece indicações temporais sobre a Parusia, mas sublinha o modo de sua vinda: a instantaneidade, como um ladrão na noite. * A esse caráter repentino corresponde, do lado humano, a vigília e a sobriedade, e não o sono nas trevas. * Heidegger identifica nessa relação uma determinação "kairológica" do tempo, que envolve instantaneidade e vigilância, distinta da determinação "cronológica". * A determinação do tempo a partir da experiência paulina implica, primeiramente, caracterizar o acontecimento temporal pela forma como se entrega, ou seja, por seu conteúdo imprevisível, o que invalida qualquer tentativa de fixação cronológica ou de domínio conceitual. * A ênfase na instantaneidade prioriza o conteúdo do acontecimento temporal em detrimento de qualquer avaliação cronológica. * Tentar fixar o acontecimento por meio de cronologias ou caracterizações objetivantes é uma tentativa de tornar disponível e garantido aquilo que, por essência, nunca está à disposição e define a vida justamente por sua indisponibilidade. * Em segundo lugar, em virtude dessa instantaneidade que equivale a uma essência imprevisível, o presente encontra-se colocado sob a ameaça que lhe vem do futuro, pois é a partir do futuro desconhecido e indizível que o acontecimento surge para surpreender o presente. * O kairos não pode ser esperado nem agarrado, pois qualquer representação de um presente prolongado no futuro quebraria o sério da imperceptibilidade. * O futuro, por ser desconhecido, é a origem da ameaça que recai sobre o presente, surpreendendo-o. * Em terceiro lugar, essa ameaça vinda do futuro transforma o presente no instante da decisão, no qual tudo se joga, mas nada pode ser calculado, marcando o insucesso da representação e do domínio diante do futuro indisponível. * O kairos coloca-se na ponta da lâmina, diante da decisão, tornando o instante o lugar onde tudo se decide sem que nada possa ser previsto. * Um pensamento que calcula o tempo e se volta para conteúdos objetivos, dissimulando a relação com o futuro indisponível, encaminha-se para a perdição. * Essa experiência kairológica do tempo, que exclui antecipação e apropriação, induz uma determinação da existência (então chamada "vida") como abertura e resolução, pois apenas aquele que está constantemente disposto para o acontecimento imprevisível pode, no encontro da decisão, experimentar a verdade indisponível do tempo. * A existência deve ser caracterizada por uma constante disposição e resolução para o acontecimento temporal imprevisível. * A resolução para cada instante é necessária porque o kairos pode surgir de repente, e é nessa abertura que o homem vive o próprio tempo e experimenta sua verdade indisponível. * A mesma perspectiva de uma vida concebida não por seu conteúdo, mas pela forma como se cumpre de modo histórico e não objetivável, é desenvolvida na aula de 1921 consagrada a Santo Agostinho, onde a vida feliz é pensada a partir de seu modo de realização temporal. * A vida feliz, em Santo Agostinho, é concebida por Heidegger não à luz daquilo que contém, mas segundo a forma como se cumpre. * Esse cumprimento tem um duplo caráter: é histórico e não objetivável, justamente por ser temporal. {{tag>Zarader kairos}}