===== COLAPSO DA ANGÚSTIA EM BLANCHOT E HEIDEGGER (2001:154-158) ===== //ZARADER, Marlène. L’être et le neutre: à partir de Maurice Blanchot. Lagrasse: Éd. Verdier, 2001.// * A fenomenologia heideggeriana do mundo, exposta em Ser e Tempo, demonstra que o mundo não é a soma dos entes, mas sim a condição de possibilidade de sua aparição, um sistema de referências estruturado como mundo circundante (Umwelt) a partir do qual o Dasein se relaciona com as coisas. * A análise dos parágrafos 14 a 18 de Ser e Tempo revela que os entes só podem surgir em relação à preocupação do Dasein, estando inseridos em um complexo sistema de referências cuja totalidade é o mundo. * Esse mundo é o âmbito das potencialidades do Dasein, o mundo familiar (Umwelt) que, embora não seja tematicamente considerado na atitude natural, permanece como a condição não aparente para a manifestação de qualquer ente. * A experiência de ruptura do mundo descrita por Blanchot encontra um paralelo na análise heideggeriana da angústia, na qual Heidegger pensa o desenraizamento radical que Husserl tinha dificuldade em explicar. * Blanchot descreve uma experiência de ruptura do mundo que não é desejada, mas sofrida como um desenraizamento radical. * Heidegger propõe uma análise da angústia que parece corresponder a essa experiência, sugerindo que a descrição blanchotiana da noite redobra a análise heideggeriana desse estado de espírito. * A análise heideggeriana da angústia, presente em Ser e Tempo, descreve como os três momentos estruturais do ser-no-mundo — o mundo, o eu e a relação de ser-em — sofrem um abalo decisivo que os transforma radicalmente. * Em primeiro lugar, os entes intramundanos tornam-se irrelevantes e sua conexão significativa desmorona, tornando o mundo não significativo e rompendo a familiaridade que ele assegurava, o que expõe o Dasein a um não-lugar estranho e inquietante (Unheimlichkeit). * Em segundo lugar, o Dasein é arrancado não apenas do mundo e da convivência com os outros, mas também do eu familiar, sendo reduzido a uma solidão onde a interioridade é revertida em um "fora de casa", dominado pelo estranhamento de si mesmo. * Em terceiro lugar, o que resta do vínculo com o mundo é um face a face com o nada, que se manifesta sem um polo ou foco central, envolvendo o Dasein em um movimento descrito como "repouso fascinado" (gebannte Ruhe). * A palestra "O que é a metafísica?" aprofunda a descrição da estranheza do eu na angústia, apresentando-a em termos de uma impessoalidade que tira a fala e diante da qual tudo o que diz "é" se cala, em consonância com a tripla suspensão que Blanchot associa ao "fora". * Na angústia, não é um "eu" ou "você" específico que é dominado, mas a própria possibilidade de enunciação do ser é anulada, pois a angústia tira a fala e o nada se impõe. * Heidegger, à semelhança de Blanchot, mostra que o mundo colapsa em um nada e lugar nenhum, o sujeito dá lugar a um fora de si original, e a relação habitual é atingida por uma ruptura, tudo sob o signo da não significância e da impotência. * A análise comparativa inicial sugere que a descrição heideggeriana da angústia corrobora a tripla ruptura apresentada por Blanchot, sendo necessário, no entanto, um exame mais aprofundado dessa correspondência. * A angústia, para Heidegger, é um sentimento fundamental que revela a devastação dos três momentos estruturais do ser-no-mundo, em estreita correspondência com a suspensão do mundo, do eu e da relação descrita por Blanchot. * Apesar das semelhanças terminológicas e estruturais, uma análise mais detalhada se faz necessária para verificar a profundidade da concordância entre os dois pensadores. {{tag>Zarader Angst angústia}}