====== MÉTODO ====== //ZAMBRANO, María. Claros del bosque. 4. ed ed. Barcelona: Seix Barral, 1993.// * É necessário adormecer no alto, na luz. * O adormecer é prescrito como exigência. * A luz é o âmbito próprio desse adormecer. * É necessário manter-se desperto embaixo, na escuridão intraterrestre e intracorporal dos diversos corpos que o homem terrestre habita, o da terra, o do universo e o próprio. * A vigília é situada nos profundos. * A escuridão é descrita como intraterrestre e intracorporal. * A habitação humana se distribui por múltiplos corpos. * Nos profundos e nos ínferos, o coração vela, se desvela e se reaviva em si mesmo. * O coração aparece como vigília subterrânea. * O desvelar e o reacender são movimentos internos. * No alto, na luz, o coração se abandona, se entrega, se recolhe e enfim adormece sem pena, acolhido por uma luz sem violência, alcançada sem forçar portas, sem abri-las e sem atravessar dintéis de luz e sombra, sem esforço e sem proteção. * A luz é descrita como acolhimento sem violência. * O acesso se dá sem travessias, sem limiares, sem esforço. * O adormecer final é qualificado como sem pena. * A frase do livro de Tobías, Quoniam tu flagelas et salvas, deducis ad inferos et reducis, apresenta a possibilidade de associar a descida aos ínferos à dedução e o retorno deles à indução que também é redução, ainda que tal efeito ultrapasse qualquer intenção do tradutor da Vulgata. * Tobías é nomeado como fonte da fórmula latina. * Tobit dirige o cântico ao Senhor diante do Arcanjo Rafael. * Deduzir é distinguido de conduzir. * Dedução e ínferos se entrelaçam por ressonância verbal. * Indução e redução aparecem como figuras do retorno. * A operação dedutiva, entendida como caminho seguro da lógica formal, pode insinuar uma declinação fatal, enquanto a indução surge como gesto modesto de arrancar algo submerso e aderido à escuridão. * Dedução é apresentada como operação tranquilizadora. * Indução é apresentada como extração do mergulhado. * A escuridão figura como fundo do que foi deixado. * A dedução parte do universal para o singular e do abstrato para o concreto, submetendo o vivo à envoltura do universal e sugerindo que o concreto não encontra repouso em si, como no exemplo escolar em que de Todos os homens são mortais se conclui que Sócrates é mortal. * Universalidade é tomada como verdade de razão. * O singular é apresentado como confinado pelo abstrato. * O concreto e vivente aparece como incapaz de transcender o invólucro. * O exemplo de Sócrates deixa entrever uma perda, porque a conclusão o inclui como um a mais entre todos, embora nem todos morram como Sócrates, e daí nasce a necessidade de uma reparação mental que detenha o ânimo e ofereça mínima ofrenda ao morrer, percebendo com sentidos interiores o pulsar de sua morte antes de qualquer juízo envolvente. * A morte de Sócrates é afirmada como sua e distintiva. * A incompatibilidade anímica aparece como recusa da verdade deduzida. * A reparação começa por deter o ânimo e o pensamento. * Sentidos interiores são convocados antes do juízo. * Após o afinamento dos sentidos interiores, o intelecto é chamado não a julgar, mas a seguir indicações, e desse seguimento pode emergir figura que convoca a uma noção de homem em que a mortalidade não seja o centro exclusivo, mas sim a forma da morte, pela qual Sócrates seria resgatado dos ínferos, inclusive os da lógica. * Intelecto é orientado ao seguimento e não à proposição. * A figura substitui o enunciado Sócrates é mortal. * A forma do morrer se torna decisiva. * Ínferos da lógica são nomeados como âmbito de queda. * O delírio parece brotar sem limites do coração humano e da vida toda, manifestando-se com força no despertar primaveril da terra e em plantas como a hera, ligadas ao nascimento sempre incompleto de Dioniso, deus que mostra um nascer padecendo e anuncia vida que morre para retornar. * Primavera é descrita como presença aumentada do delírio. * A hera é dita irmã da chama. * Dioniso é dito de nascimento incompleto e inacabável. * Semelé é nomeada como mãe que não o deu plenamente à luz. * Retorno e renascimento são traços do deus. * Dioniso embriaga por si mesmo antes do símbolo da videira, e seu dom é a comunicação que exige possessão prévia, transmitindo-se por dança e mímica de onde nasce o teatro, como representação sem invenção nem suplência de verdade, mas presença figurada em máscara que é história, signo do ser dado na história. * A possessão antecede a comunicação. * Dança e mímica são meios de transfusão. * Teatro nasce da mímica. * Representação é definida como apresentação do que é. * Máscara é história. * Ser é enunciado como dado em história. * A paixão da vida se verte e se sobrepassa em história e só se embebe na morte, enquanto Dioniso se derrama incessantemente, inclusive nos Ditirambos, cujas palavras conservam grito, choro e riso como expressão incontida. * História é lugar de transbordamento da vida. * Morte é lugar de embebimento. * Ditirambos são nomeados como modalidade verbal do derramamento. * Grito, choro e riso definem a expressão. * Um cumprimento objetivo no mundo ou nas coisas deixa um vazio específico, consumando e consumindo um longo passado, como no término de uma época histórica quando um acontecimento decisivo impõe algo novo e lança ao passado irremediável o que era presença e atualidade. * Cumprimento é descrito como vazio do passado consumado. * A imposição do novo redefine o que era atual. * O passado torna-se irremediável. * A história pode parecer cessar no instante que depois é chamado histórico, e também pode ocorrer cumprimento sem novidade, como a perda dos últimos rastros de um império que produz liberação e leveza, gerando uma nudez que faz sentir renascimento por despojamento total de vestiduras, dossel e teto, sem abrigo, apoio e referência. * O histórico é descrito como instante de cessação. * A perda de império é descrita como liberação. * Nudez é condição de renascer. * Despojamento implica ausência de referências. * Quando o passado é abolido por um novo regime inédito que se impõe, a liberação não se dá a sós, e o momento histórico aparece como salto ou epifania de uma vida sem história, vida como puro dom que permanece para quem esteve desperto durante o acontecimento, antes que a história, sua filha inevitável, marque essa vida. * Regime novo é descrito como ansiado e sonhado. * Epifania é atribuída à vida sem história. * Dom define a vida recém-encontrada. * História é nomeada como filha inevitável. * Esse sentir une sentir e consciência de que a vida é indefinível, imensa e inapropriável como dom que não invade, mas requer moral que a conduza, moral inspirada também pela morte e não apenas pela história. * Vida é descrita como inacessível e imensa. * Moral é requerida como condução. * Morte é fonte de inspiração moral. * História não é a única inspiração. * A identificação por união ocorre no morrer ou em algo semelhante, e a identificação máxima é a de vida e morte, alcançada no ir morrendo onde a morte não é fim, mas começo e entrada em espaços mais amplos e indefinidos, não medidos por quantidade, deixando o sujeito na pura qualidade ainda no tempo, em direção a um sincronismo. * Morrer é apresentado como via unitiva. * Morte é redefinida como começo. * Espaços não quantitativos são nomeados. * Qualidade substitui ser e nada. * Sincronismo surge como direção do tempo. * A sincronização, ou sincronia, aparece como ação que se abre como harmonia, feita desde lá e desde cá ao mesmo tempo, cumprimento matemático e incalculável, manifestação de harmonia, ligada ao logos e ao número, e se dá como marco ou detenção na via unitiva, vindo sem quase ser buscada e sem empenho. * Harmonia é modelo da sincronização. * O incalculável é condição do cumprimento. * Logos e número são enunciados juntos. * A via unitiva inclui detenção e marco. * Ausência de empenho acompanha a ocorrência. * No estado em que se deixou de esperar, ocorre sem ser notado o instante em que se cumpre o sincronizar da vida com o ser, da vida própria com a vida toda, e do ser vacilante com o ser simples e uno, e então o tempo não se suspende, mas se manifesta em esplendor e oferece seu fruto como dom que ultrapassa o que o tempo leva e o que sua velocidade deixa por não chegar a ser. * O deixar de esperar é condição do instante. * Vida e ser são postos em sincronização. * Isolamento se conecta à vida toda. * O uno é nomeado como ser simples. * O fruto do tempo é descrito como dom. * A velocidade do tempo deixa restos não realizados. * O fruto do tempo cumpre preságios fracos e é profecia do cumprimento final, como dupla entrega do além e do agora. * Preságios são ditos débeis e pouco formulados. * Profecia é atribuída ao fruto do tempo. * Além e agora são postos como dupla entrega. * O tempo passa porque tem passos e vem de modo descontínuo, fazendo-se sentir como alguém, talvez um deus com lei que cala e oculta e que revela num de seus passos, figurado como deus do deserto, escondido e mediador, rei da idade de ouro que não abdica nem se deixa prender. * Passos descrevem a descontinuidade do tempo. * Lei do tempo inclui ocultação e revelação. * Deus do deserto é nomeado como figura do tempo. * Mediação é atribuída ao tempo. * Rei da idade de ouro é imagem de soberania inaprensível. * Esse deus ri de quem o julga fora do logos e também de quem o toma como uniforme ou apenas divisor, pois o tempo dá discernimento e separação de que dependem os modos verbais, e sua risa e choro ocultos parecem engendrar Dioniso, deus do teatro e do sofrimento, vida entrelaçada com morte, deus muriente sob máscara, enquanto o Crucificado não tem máscara e é revelação inteira. * Logos e tempo são vinculados ao verbo humano. * Modos verbais dependem de separação temporal. * Uniformidade do tempo é recusada. * O tempo não é só divisão, mas também unidade múltipla. * Dioniso é posto como derivação mítica da risa e do choro. * Máscara define Dioniso. * O Crucificado é definido como sem máscara. * O divino estabelece e renova lei múltipla e una, e Dioniso não dá sangue, mas vinho que solta o delírio enclausurado da ânsia anterior ao amor de união, enquanto sob ele a união se cumpre na confusão até que Apolo, deus da forma e do visível, oferece a máscara. * Lei divina é ao mesmo tempo renovada e vencida. * Vinho é dom dionisíaco. * Delírio antecede o amor de união. * Confusão acompanha a união. * Apolo é nomeado como irmão e doador da máscara. * Cronos não dá delírio nem substância, e ainda assim dá de si na substância do transcorrer, onde parece dar-se inteiramente neste agora que provém de sua mediação incessante. * Cronos é dito rei sem substância. * O transcorrer é o lugar do dom de Cronos. * O agora é atribuído à mediação. * É no transcorrer do tempo, mais que no simples passar, que Cronos se mostra e dá de si, e esse dom se oferece sem máscara na música e antes dela na musicalidade, lugar do tempo como a espacialidade é dos corpos, a visibilidade das presenças e a alma de tudo o que alenta, incluindo o pensamento mesmo quando nasce e murcha. * Musicalidade é definida como lugar do tempo. * Música é expressão posterior à musicalidade. * Analogia com espacialidade, visibilidade e alma organiza os domínios. * O pensamento é incluído no âmbito do que alenta. * O transcorrer puro manifesta o ser do tempo sem substância e liberta o tempo da ocupação de fatos e sucessos, fazendo-o dar-se a ouvir e não a ver, como música anterior a toda música composta, de que é inspiração e fundamento, aproximada do rumor do mar, do vento manso e de certos silêncios sem expectativa e sem vazio. * Ser do tempo é afirmado como não substancial. * Fatos e sucessos são descritos como ocupação sofrida. * Audição é privilegiada sobre visão. * Rumor do mar e vento são analogias. * Silêncios sem expectativa são aproximados da musicalidade. * Pela música do coração inimaginável do tempo parece permanecer tudo o que passou e tudo o que passa sem acabar de passar, inclusive o que não teve substância mas teve avidez de tê-la, bem como o que interrompeu o fluir e o que não seguiu o curso do tempo com seus desertos e abismos, enquanto ver os efeitos do tempo já é juízo. * Coração do tempo é figura de conservação. * Passado incompleto é retido musicalmente. * Avidez de substância é reconhecida no que não a teve. * Interrupções e resistências ao curso do tempo são recolhidas. * Visão é associada a julgamento. * A música do transcorrer é também choro, recolhendo o choro do que passou e do que não chegou a dar-se, o gemido da possibilidade salvadora e o que foi negado aos que estão sob o tempo, como se o sentir do tempo se derramasse musicalmente sobre o sentir de quem o escuta padecendo-o, e essa música se dê no modo da oração. * Choro é atributo da musicalidade. * O não ocorrido e o negado são incluídos. * Possibilidade salvadora é nomeada. * O padecer acompanha a escuta. * Oração é o modo final de doação musical. {{tag>Zembrano método tempo}}