====== Filosofia da Mente ====== DZ2010 * Filosofia da mente, ciências cognitivas e a escolha de uma perspectiva fenomenológica * O livro parte do problema da mente, entendida como objeto de debates complexos e interdisciplinares que atravessam psicologia, neurociência, inteligência artificial, filosofia da mente e, de modo geral, as ciências cognitivas. * A interdisciplinaridade não é acidental, mas necessária, pois nenhuma disciplina isolada consegue fazer justiça à complexidade dos fenômenos mentais. * Embora trate de problemas clássicos da filosofia da mente, a obra rejeita um filosofar isolado das ciências empíricas e recorre sistematicamente a dados das neurociências cognitivas, do brain imaging, da psicologia do desenvolvimento, da psicologia cognitiva e da psicopatologia. * Ainda assim, o projeto permanece filosófico, na medida em que visa esclarecer problemas conceituais fundamentais, e não simplesmente relatar resultados empíricos. * O diferencial da obra consiste em assumir explicitamente uma perspectiva fenomenológica, entendida como uma tradição filosófica europeia que inclui Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty, Sartre e autores posteriores. * Não se pretende oferecer uma história exaustiva da fenomenologia nem uma exegese textual detalhada, mas selecionar temas considerados centrais para os debates contemporâneos em filosofia da mente e ciências cognitivas. * Reconstrução hipersimplificada do desenvolvimento histórico recente * No final do século XIX, filosofia e psicologia mantinham diálogos intensos sobre consciência, intencionalidade e método, envolvendo figuras como William James, Edmund Husserl, Franz Brentano, Wilhelm Wundt e Gustav Fechner. * Esses autores influenciaram-se mutuamente por meio de leituras, correspondência e debates, compartilhando problemas e interlocutores comuns. * Husserl dialogou com Frege na crítica ao psicologismo, isto é, à tese de que as leis da lógica seriam redutíveis às leis psicológicas, interesse que também marcou Russell. * Ao longo do século XX, contudo, esses caminhos se separaram progressivamente: * James voltou-se ao pragmatismo. * Frege e Russell fundaram a tradição da filosofia analítica. * Husserl desenvolveu a fenomenologia como investigação rigorosa da consciência e da experiência. * A partir da metade do século XX, instalou-se uma quase completa falta de comunicação entre filosofia analítica da mente e fenomenologia, frequentemente marcada por indiferença ou hostilidade recíproca. * Críticas mútuas extremadas exemplificam esse afastamento, como a acusação de que a fenomenologia teria se arrogado o monopólio da filosofia ou, inversamente, de que ela seria um programa de pesquisa intelectualmente falido. * Apesar disso, há interesses comuns, e o livro se propõe a mostrar tanto diferenças estruturais quanto convergências substantivas entre essas tradições. * Psicologia, comportamentismo e a narrativa tradicional distorcida * A narrativa clássica apresenta a psicologia inicial como introspeccionista, seguida por uma virada comportamentista e, posteriormente, pela revolução cognitiva. * Segundo essa narrativa, o comportamentismo teria rejeitado a vida mental interior em favor do comportamento observável, sendo depois substituído pelo cognitivismo computacional. * Essa reconstrução é considerada excessivamente simplificadora e historicamente enviesada. * Evidências históricas mostram que: * Métodos objetivistas já estavam presentes nos primeiros laboratórios psicológicos. * A introspecção sempre foi vista com desconfiança, inclusive por Wundt. * Conceitos computacionais da mente têm raízes muito anteriores ao século XX. * A consciência jamais deixou de ser tema filosófico central desde Locke e, antes dele, desde a filosofia antiga. * O cognitivismo, longe de romper radicalmente com o comportamentismo, preservou traços mecanicistas fundamentais. * A fenomenologia foi frequentemente identificada, de modo equivocado, com introspeccionismo, o que contribuiu para sua marginalização na filosofia analítica da mente. * Naturalismo, ciência e a marginalização da fenomenologia * A filosofia analítica da mente dominante adotou amplamente o naturalismo, enquanto a fenomenologia foi associada a uma postura não naturalista ou antinaturalista. * Como as ciências cognitivas emergiram sob forte influência do computacionalismo e do naturalismo, a filosofia analítica pareceu oferecer o arcabouço conceitual mais adequado. * O funcionalismo, por exemplo, forneceu bases filosóficas centrais ao modelo computacional da mente. * Nesse contexto, a fenomenologia foi considerada irrelevante para a inteligência artificial e para as ciências cognitivas, com raras exceções, como o trabalho de Hubert Dreyfus. * Mudanças recentes e reabertura do diálogo * Três desenvolvimentos principais reabilitaram a relevância da fenomenologia: * O renovado interesse pela consciência fenomenal, especialmente a partir do debate sobre o problema difícil da consciência. * A ascensão das abordagens da cognição incorporada, que criticam a ideia de uma mente puramente computacional e desincarnada. * Os avanços das neurociências e das técnicas de brain imaging, que exigem descrições refinadas da experiência subjetiva para o desenho e a interpretação de experimentos. * Autores como Varela, Thompson, Rosch, Damasio e Clark recorreram explicitamente a Merleau-Ponty para fundamentar críticas ao dualismo mente-corpo e ao computacionalismo clássico. * A fenomenologia passa a ser vista como fonte metodológica para a descrição rigorosa da experiência, sem recaída no introspeccionismo ingênuo. * O que é a fenomenologia enquanto abordagem filosófica * A fenomenologia nasce com Husserl e se desenvolve como um conjunto plural de abordagens, incluindo existencialismo e hermenêutica, bem como críticas internas e externas. * Apesar da diversidade, há um núcleo comum que orienta a investigação fenomenológica. * Diferentemente dos manuais tradicionais de filosofia da mente, a fenomenologia não começa por assumir posições metafísicas como dualismo ou materialismo. * Ela suspende, coloca entre parênteses, tais compromissos teóricos, a fim de voltar-se ao fenômeno tal como é vivido. * O lema “às próprias coisas” expressa a exigência de descrever a experiência tal como se dá, antes de filtrá-la por pressupostos teóricos estranhos. * A suspensão das questões metafísicas e o primado da experiência * A fenomenologia não nega nem afirma teses como “o cérebro causa a consciência”, mas suspende o juízo sobre elas. * O ponto de partida é a experiência vivida, não sua explicação causal. * No caso da percepção, o fenomenólogo não investiga processos neurais, mas descreve como a percepção aparece ao sujeito e como ela se diferencia de imaginação ou memória. * Processos cerebrais podem ser condições causais da percepção, mas não fazem parte do conteúdo experiencial do percipiente. * Primeira pessoa e terceira pessoa * A fenomenologia adota uma perspectiva de primeira pessoa, interessada no significado da experiência para o sujeito. * As ciências cognitivas adotam predominantemente uma perspectiva de terceira pessoa, explicando a experiência por meio de processos subpessoais objetivos. * Ambas tratam do mesmo fenômeno, mas fazem perguntas distintas e produzem explicações de naturezas diferentes. * Estrutura intencional da experiência * Toda consciência é intencional, isto é, é sempre consciência de algo. * A experiência nunca é isolada ou elementar, mas sempre refere-se a um mundo, entendido em sentido amplo, físico, social e cultural. * A percepção não é mera recepção passiva de dados, mas envolve interpretação e sentido. * Ver algo como algo, por exemplo, um carro como meu carro, já implica um horizonte de significados sedimentados por experiências anteriores. * Contextualidade, corporeidade e sentido prático * A percepção é informada por hábitos, práticas e capacidades corporais. * O conteúdo perceptivo depende do contexto pragmático, social e cultural em que o sujeito está inserido. * Em vez de dizer que a mente representa propriedades abstratas, a fenomenologia enfatiza que o mundo se oferece como dotado de possibilidades de ação em relação a um corpo situado. * Espacialidade, temporalidade e incompletude prospetiva * A percepção é perspectivada: nunca vemos um objeto em sua totalidade de uma só vez. * Cada percepção envolve ocultamento de aspectos e antecipação de outros, formando expectativas tácitas. * Essa estrutura implica uma dimensão temporal essencial, descrita fenomenologicamente como síntese do passado, presente e futuro imediato. * Estrutura gestáltica da percepção * A experiência perceptiva organiza-se em figura e fundo, foco e horizonte. * O deslocamento da atenção implica sempre reorganização do campo perceptivo. * Fenomenicidade e “como é” da experiência * Além da estrutura intencional, a fenomenologia investiga o caráter qualitativo da experiência, o “como é” vivenciar algo. * Esse aspecto fenomenal não é separado da intencionalidade, mas articulado a ela. * Fenomenologia e ciência: complementaridade * A descrição fenomenológica não substitui explicações científicas, mas fornece um modelo claro do que deve ser explicado. * Qualquer tentativa de naturalizar ou reduzir a consciência requer uma compreensão prévia adequada do fenômeno a ser reduzido. * Uma análise fenomenológica rigorosa oferece ao cientista um ponto de partida mais sólido do que pressupostos de senso comum. * Crítica ao uso impreciso do termo “fenomenologia” * Em debates contemporâneos, o termo é frequentemente usado como sinônimo de introspecção ou descrição subjetiva não controlada. * Essa identificação é enganosa, pois ignora o caráter metodológico rigoroso da fenomenologia. * Fenomenologia, teoria e ciência cognitiva * A fenomenologia não rejeita teoria, mas busca evitar dogmatismo e preconceitos teóricos. * As descrições fenomenológicas podem fundamentar teorias da percepção, da intencionalidade e da fenomenicidade. * A tese central do livro é que essas teorias podem contribuir de modo mais fecundo às ciências cognitivas do que debates metafísicos abstratos, como o problema mente-corpo em sua formulação tradicional.