====== Fenomenologia Crítica ====== DZ2025 * Emergência e indeterminação conceitual da fenomenologia crítica * Nos últimos anos, consolidou-se o nome “fenomenologia crítica” para designar uma nova orientação de trabalhos fenomenológicos, mas permanece controverso o que exatamente ela é e em que difere da fenomenologia clássica. * Um motivo decisivo do “giro crítico” consiste no desejo explícito de transformação social e política, de modo que a fenomenologia não se limite a descrever, mas contribua para uma ordem social mais justa e inclusiva. * A fenomenologia crítica se apresenta como uma forma de teoria crítica voltada a iluminar, analisar e opor-se a injustiças estruturais, como marginalização, racismo, colonialismo, capacitismo, homofobia e práticas correlatas. * Uma questão imediatamente aberta é se a fenomenologia crítica é apenas crítica do mundo social ou também crítica da própria fenomenologia clássica. * Controvérsias inaugurais e o papel de Lisa Guenther * Referências recentes ao termo são frequentemente vinculadas a um texto de 2013 de Lisa Guenther, que descreve a fenomenologia crítica como continuidade da tradição fenomenológica de tomar a experiência em primeira pessoa como ponto de partida, ao mesmo tempo em que resiste à tendência de privilegiar a subjetividade transcendental em detrimento da intersubjetividade transcendental. * Em sua própria elaboração, Guenther recorre a Maurice Merleau-Ponty e Emmanuel Levinas, e tende a identificar Edmund Husserl como o principal alvo quando contrapõe “clássico” e “crítico”. * As objeções centrais atribuídas por Guenther a Husserl são: * O privilégio unilateral da subjetividade individual. * Uma teoria da constituição em que a consciência constituiria o mundo sem reciprocidade. * A insuficiente tematização do modo como estruturas históricas e sociais contingentes moldam o sentido e a forma da experiência. * A relutância em engajar-se em crítica normativa e transformação de normas do mundo da vida. * Contestação da leitura crítica de Husserl * A crítica a Husserl é contestada por razões filosóficas internas à própria fenomenologia husserliana. * Husserl não sustenta que o “eu” singular seja absolutamente anterior à intersubjetividade, pois afirma que certas dimensões da subjetividade pessoal emergem na relação eu-tu. * A intersubjetividade é crucial, em Husserl, para a constituição da objetividade mundana, o que desloca a imagem de uma subjetividade isolada e soberana. * Husserl enfatiza facticidade e passividade, tratando a subjetividade como princípio constitutivo necessário, mas não suficiente. * A fenomenologia genética husserliana explicita uma reciprocidade temporal: * Estruturas intencionais têm devir temporal. * Sedimentações da experiência passada moldam o presente da vida intencional. * Elementos como generatividade, tradição, historicidade e normalidade cultural ganham peso constitutivo. * A linguagem escrita é exemplificada como fator historicamente contingente com impacto constitutivo: * A objetividade científica depende da transmissibilidade intergeracional do sentido escrito. * A escrita opera como reservatório de conhecimento, tornando possíveis teorias científicas complexas que reconfiguram a vida cotidiana. * A acusação de ausência de crítica normativa também é relativizada: * Husserl escreveu sobre ética social e se preocupou com uma renovação cultural capaz de reparar uma atitude “menschenverachtende” [inhumana] observada na sociedade europeia e alemã. * Problema do contraste “clássico” versus “crítico” * Se os traços críticos reivindicados já podem ser encontrados em um autor tão paradigmático quanto Husserl, perde-se a força de uma distinção rígida entre fenomenologia clássica e fenomenologia crítica. * O uso do termo “crítica” como termo contrastivo sugere que a fenomenologia clássica seria “acrítica”, mas a fenomenologia, desde Husserl, Martin Heidegger e Merleau-Ponty, inclui a crítica de estilos de pensamento não interrogados, como naturalismo e objetivismo. * Merleau-Ponty caracteriza a fenomenologia como reflexão crítica permanente, que não toma nada como dado, nem a si própria. * Uma resposta comum é distinguir estilos de crítica: * A fenomenologia clássica teria sido crítica de pressupostos epistemológicos e metafísicos, mas insuficientemente crítica de práticas sociopolíticas específicas. * Contudo, essa resposta incorre em erro histórico, pois há uma politização já na fenomenologia alemã inicial, intensificada após a Primeira Guerra Mundial. * Historicidade política da fenomenologia e diversidade de posições * A tradição fenomenológica inicial inclui análises de comunidade, Estado e direito, e engajamentos com nacionalismo, liberalismo e capitalismo. * A pluralidade de posições políticas entre fenomenólogos é incontornável: * Há críticas à modernidade capitalista-consumista e desejos de renascimento social. * Há também adesões divergentes, indo de socialismo a conservadorismo católico e, infamemente, ao nacional-socialismo em alguns casos. * No pós-guerra francês, a orientação crítica se torna mais explícita: * Jean-Paul Sartre examina o antissemitismo e oferece uma das primeiras abordagens filosóficas do Holocausto. * Simone de Beauvoir formula uma análise fenomenológica do corpo generificado. * Frantz Fanon critica colonialismo e racismo e analisa fenomenologicamente o corpo racializado. * A passagem de Husserl do a-histórico ao historicamente situado é continuada por Sartre e Merleau-Ponty e radicalizada por Beauvoir e Fanon. * Fenomenologia crítica como continuidade e expansão * Diante dessa genealogia, a distinção rígida entre “clássico” e “crítico” torna-se metodologicamente suspeita. * A tese de que “o que há de crítico na fenomenologia crítica já estava lá desde o início” sugere que se trata menos de ruptura e mais de reconfiguração de ênfases. * Uma leitura hoje crescente sustenta que Husserl, Beauvoir e Fanon podem ser tomados como pensadores centrais para a fenomenologia crítica, ao lado de autores mais recentes. * A fenomenologia aparece, assim, como tradição em evolução, cujos recursos podem ser reempregados para finalidades diversas, inclusive a crítica social. * Experiências marginalizadas e enriquecimento das análises da corporeidade * Uma marca da fenomenologia crítica recente é o compromisso com uma descrição mais abrangente da diversidade das experiências vividas. * Análises clássicas da corporeidade frequentemente operaram em nível alto de abstração, omitindo idade, sexo, gênero, raça e posição social. * O que se apresentava como universal pode ser interpretado como universalização de uma perspectiva particular: masculina, branca e capacitista. * Uma fenomenologia abrangente da corporeidade deve tematizar: * Como intencionalidade corporal é modulada por gênero, raça, sexualidade e classe. * Como práticas sociais e culturais conformam postura, gesto e horizonte do “eu posso” corporal. * Exemplificação por episódio narrado por Elizabeth Anderson: * A interação em um posto de gasolina evidencia como estereótipos raciais moldam não apenas interpretações, mas a própria intencionalidade corporal do homem negro, compelido a gerir a legibilidade de seus gestos sob o olhar branco. * Fanon oferece um modelo clássico de análise da opressão racial como modificação do ser-no-mundo: * A internalização do olhar branco restringe, inibe e objetifica a existência corporal. * Sara Ahmed sintetiza essa modulação como passagem do “eu posso” para o “eu não posso”, caracterizando restrição, incerteza e bloqueio. * Iris Marion Young, em “Throwing like a girl”, descreve modalidades de comportar-se corporalmente sob patriarcado: * Mulheres são frequentemente definidas como corpos-objeto e internalizam componentes de auto-objetificação. * Normas de socialização instalam timidez e hesitação, deslocando o “eu posso” para um “eu não posso” ou “eu não deveria”. * Essas modalidades não decorrem de essência feminina, mas de estilos culturalmente formados. * A extensão contemporânea dessas análises abrange outras formas de opressão e influencia campos como estudos críticos da deficiência, estudos trans e queer, e estudos pós-coloniais. * Essa produção é mais bem compreendida como continuidade e ampliação de linhas já abertas a partir do fim dos anos 1940 e início dos anos 1950, e não como ruptura absoluta. * O problema do método na fenomenologia crítica * Discute-se se um uso crítico da fenomenologia exige repensar ou abandonar ferramentas e métodos clássicos. * Guenther sustenta que a fenomenologia crítica deve reconsiderar os métodos eidético e transcendental e ir além do que a fenomenologia clássica oferece para engajar-se com história e poder. * A contextualização sociocultural levanta questões metodológicas estruturais: * Análises do corpo racializado e generificado substituem ou suplementam análises genéricas de corporeidade? * Ainda é possível uma análise eidética da corporeidade, isto é, uma investigação de estruturas invariantes da existência corporificada? * Ou só existem corpos particulares, de modo que o máximo seria descrever “um corpo de mulher, um corpo latino, um corpo materno, um corpo envelhecente, um corpo judeu”, e assim por diante? * Proibir qualquer referência a estruturas universais ameaça a própria possibilidade de uma análise filosófica da corporeidade. * Distinções formais como corpo vivido e corpo objetificado, ou consciência corporal pré-reflexiva e reflexiva, podem permanecer válidas como estruturas básicas, ainda que precisem de especificação contextual. * É uma coisa afirmar que a análise genérica é incompleta; é outra, muito mais forte, declará-la inútil ou perigosamente enganosa. * Young sustenta explicitamente a via suplementar: * A descrição merleau-pontyana da relação corpo-mundo vale em nível básico geral. * Em nível específico, há estilos típicos de comportar-se que modulam essas estruturas gerais. * Redução fenomenológica, transcendentalidade e crítica social * A atenção a estruturas históricas contingentes levou alguns a questionar o estatuto transcendental da fenomenologia e a relevância da redução fenomenológica. * Em contraste, Johanna Oksala defende que a crítica social fundamental exige a redução para mostrar que o mundo social não é dado natural, mas produto de constituição e sedimentação. * A crítica filosófica visa desfazer crenças naturalizadas que operam como “fatos ontológicos”, quando são preconceitos profundamente enraizados. * Pluralismo metodológico e risco de indeterminação do “fenomenológico” * Guenther compreende a fenomenologia crítica como prática aberta, próxima do ativismo, e propõe recorrer a recursos de teorias pós-coloniais, feminismo, teoria racial crítica, marxismo, Escola de Frankfurt, psicanálise, teoria queer, genealogia foucaultiana, desconstrução e estudos críticos da deficiência. * O pluralismo pode ser justificável, mas, se a fenomenologia crítica se distancia tanto da redução transcendental quanto da redução eidética, torna-se urgente esclarecer o que ainda a torna fenomenologia. * Um apelo genérico à “experiência vivida” pode não ser suficiente para delimitar o campo. * Discussões análogas reaparecem no debate sobre fenomenologia aplicada, onde a utilidade prática frequentemente compete com a exigência de método e identidade disciplinar.