====== 7 Verdade do corpo ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Articular lo simple: aproximaciones heideggerianas al lenguaje, al cuerpo y a la técnica. Madrid: Ediciones Akal, 2021.// **VII. A verdade do corpo. Heidegger e a ambiguidade do corporal** 1. A corporalidade, até suas fibras musculares e moléculas hormonais, pertence essencialmente ao existir e constitui uma dimensão da capacidade não objetivável de perceber as significatividades daquilo que vem ao encontro, não podendo ser reduzida à matéria inanimada. 2. A resposta de Heidegger à crítica sartreana sobre o tratamento insuficiente do corpo encontra-se registrada nos apontamentos de Medard Boss, vinculando essa insuficiência às exigências de fundamentação da análise existencial. 3. A investigação dos fenômenos corporais exige um desenvolvimento adequado dos fundamentos do ser-no-mundo e uma descrição do corpo orientada por essa estrutura, condições que ainda não haviam sido suficientemente alcançadas. 4. A apropriação sartreana das determinações heideggerianas conduz a uma compreensão divergente do corpo, pois sua análise privilegia a contingência da realidade humana, definindo a corporalidade como a forma contingente assumida pela necessidade da própria contingência, em vez de partir do cuidado existencial. 5. A passagem da investigação dos modos de ser para a interrogação de seu acontecimento implica uma autocrítica da ontologia fundamental, deslocando a atenção da pergunta esquecida pelo sentido do ser para o próprio acontecer do esquecimento e abrindo o caminho para a questão da verdade do ser. 6. A questão corporal pode ser reconstruída pela via negativa do confronto com a tradição metafísica, pois o aparente esquecimento do corpo em Ser e tempo envolve o distanciamento da concepção cartesiana e a exigência de pensá-lo a partir da existência. 7. A compreensão ontológica do ser-em não pode derivar da combinação entre uma propriedade espiritual e uma espacialidade corporal fundada na extensão física, pois a reunião de uma coisa espiritual e uma coisa corpórea mantém inteiramente obscuro o ser do ente assim composto. 8. A análise do ente que possui acesso ao ser exige explicitar suas estruturas próprias e confrontar a interpretação moderna do humano como mistura de espírito e corpo, cuja crítica permanece atuante na parte sistemática de Ser e tempo apesar da ausência da destruição histórica inicialmente projetada. 9. A unidade humana não pode ser esclarecida pela mistura entre corpo e alma, pois, embora as sensações ocupem uma posição central na concepção cartesiana, sua explicação continua subordinada à independência ontológica dos componentes que deveriam constituí-la. 10. A experiência do sentir permanece insuficientemente esclarecida quando a unidade sentiente é interpretada a partir da extensão corporal e do pensamento espiritual, fazendo da sensação uma modificação do pensar e atribuindo à alma uma extensão potencial. 11. A crítica fenomenológica à concepção cartesiana incide sobre a derivação do modo de ser daquele que sente de determinações que lhe são alheias, como a extensão comum aos corpos e o pensamento atribuível aos seres espirituais em geral. 12. O contraste entre ser-no-mundo e mistura psicofísica permite distinguir a corporalidade existencial da corporalidade da subjetividade, abrindo possibilidades para uma fenomenologia do corpo que ultrapasse os pressupostos responsáveis pela obscuridade da unidade humana. 13. A retomada da questão corporal pode avançar mediante a investigação da essência da verdade, pois as diferentes versões das conferências sobre esse problema oferecem elementos para compreender o corpo a partir do acontecer do ser e de sua dinâmica de manifestação. **A BUSCA DO SER-VERDADEIRO** 1. A pergunta pelo ser desenvolve-se tanto como investigação de seu sentido quanto como interrogação do próprio esquecer, encontrando nas diferentes versões de Sobre a essência da verdade uma elaboração decisiva da passagem entre a ontologia fundamental e o pensamento da verdade do ser. 2. A compreensão da verdade como desocultamento, conquistada nas interpretações de Aristóteles, mostra que o ser-verdadeiro precisa ser arrancado ao encobrimento, enfrentando a aparência cotidiana, o desconhecimento e a recaída do que já foi descoberto em interpretações que dispensam uma nova interrogação. 3. O encobrimento dos entes manifesta-se nos pareceres imediatos sobre o mundo, na ausência de familiaridade com determinados domínios e no obscurecimento do que já havia sido esclarecido pela repetição de frases e conceitos desgastados. 4. A investigação grega da verdade evidencia um modo destacado de ser do ente, o ser-verdadeiro, cuja manifestação não coincide com sua simples presença nas opiniões cotidianas, mas exige uma fala reveladora capaz de deixá-lo aparecer como desoculto. 5. O desocultamento constitui uma luta contínua contra as aparências, o desconhecimento e a dissimulação, de maneira que a verdade não se estabelece como aquisição definitiva, mas exige preservar o movimento que arranca o ente ao ocultamento e resguardá-lo da possibilidade de novo encobrimento. **DA POTENCIAÇÃO DA ESSÊNCIA À POTENCIAÇÃO ORIGINÁRIA DA ESSÊNCIA** 1. As diferentes versões de Sobre a essência da verdade retomam radicalmente a investigação do ser-verdadeiro, oferecendo tanto formulações consolidadas quanto tentativas intermediárias de esclarecer o movimento da alétheia a partir da relação entre ocultamento e desocultamento. 2. A investigação parte das interpretações correntes da verdade, presentes no senso comum e na tradição filosófica, que a compreendem como adequação entre pensamento e coisa ou como concordância entre a proposição e aquilo que nela é visado. 3. A relação entre ocultamento e desocultamento exige reconhecer simultaneamente a necessidade de retirar o ente do domínio das aparências e a tarefa de preservar sua manifestação, evitando que o descoberto recaia no desconhecimento ou na dissimulação. 4. A insuficiência da concepção tradicional para compreender a verdade como processo relacionado ao ocultamento conduz à transformação da pergunta pela verdade em pergunta por sua essência. 5. A potenciação da essência (Wesensbemächtigung) percorre a compreensão habitual da concordância, a investigação de sua possibilidade interna e a busca de seu fundamento, mostrando que o dar e o tomar medida pressupõem uma vinculação prévia entre o comportamento e aquilo que pode oferecer-lhe uma orientação. 6. A vinculação necessária à concordância depende da manifestação do ente, embora essa manifestação também pareça exigir previamente a própria vinculação, tornando necessário investigar um fundamento comum que será reconhecido na liberdade. 7. A liberdade constitui o fundamento da possibilidade interna da verdade ao sustentar a relação entre deixar-ser vinculante e manifestação, mas sua identificação ainda exige avançar da potenciação da essência para a potenciação originária da essência (Wesensermächtigung), na qual a essência pode desdobrar sua essencialidade própria. 8. O resguardo da essência da verdade diante das resistências do senso comum exige esclarecer que a manifestação pressupõe deixar previamente o ente ser aquilo que é e tal como é, reconduzindo o tornar-manifesto a um deixar-ser originário. 9. O deixar-ser vinculante e o deixar-ser próprio da manifestação não constituem elementos independentes, pois o desocultamento originário do ente já realiza, a partir de si, a sustentação prévia de sua vinculação em seu ser. **LIBERDADE, EX-SISTÊNCIA E IN-SISTÊNCIA** 1. A liberdade como deixar-ser desocultante implica um duplo movimento pelo qual o ente humano se expõe aos entes e recua diante deles, contendo-se para permitir sua manifestação e vinculando-se ao que aparece, em uma dinâmica cuja retenção (Verhaltenheit) foi negligenciada pela interpretação moderna centrada no sujeito. 2. A liberdade não constitui uma propriedade subjetiva, mas o acontecimento pelo qual o ente pode ser deixado ser no comportamento desocultante, conferindo à verdade o caráter de uma manifestação conquistada a partir do ocultamento. 3. A ex-sistência aprofunda a compreensão do Dasein ao indicar que o ser humano já se encontra na verdade como exposição aos entes e contenção que os deixa ser, tornando possível sua vinculação concreta com este ou aquele ente. 4. A essência da verdade inclui a possibilidade da não verdade, exigindo reconhecer sua inessência como dimensão intrínseca de seu próprio desdobramento, em vez de tratá-la como simples contrário ou ocorrência exterior à verdade. 5. O deixar-ser do ente singular acontece em relação com os entes em sua totalidade, cujo ocultamento não constitui uma consequência posterior da manifestação particular, mas uma dimensão originária que acompanha o desocultar e abre a possibilidade do mistério. 6. O Dasein ex-sistente é necessariamente insistente porque, ao permanecer exposto à totalidade, se vincula ao ente singular que descobre, enquanto o ocultamento mais originário dos entes em seu conjunto o ultrapassa e constitui a possibilidade do mistério. 7. A absorção nas urgências e necessidades conhecidas favorece o esquecimento do ocultamento originário e o endurecimento da relação com os entes disponíveis, de maneira que a insistência permanece vinculada àquilo que se manifesta particularmente, enquanto a ex-sistência conserva a exposição à totalidade. 8. A ex-sistência encontra-se originariamente também na não verdade, cuja inessência pode ser acolhida propriamente como mistério pertencente à essência da verdade ou reduzida impropriamente a uma nulidade, abrindo nesse segundo caso a possibilidade do erro. 9. O errar (Irren), do qual emerge o erro (Irrtum), decorre da relação de dependência entre a manifestação própria da insistência e a abertura da ex-sistência, articulando um duplo movimento no qual a exposição à totalidade e a descoberta do ente singular implicam diferentes possibilidades de ocultamento e desocultamento. **A AMBIGUIDADE DO CORPO** 1. A impossibilidade de reduzir lágrimas e rubor a fenômenos mensuráveis evidencia que a medição alcança líquidos, gotas ou alterações sanguíneas, mas não a tristeza ou a vergonha enquanto experiências corporais, cuja compreensão exige ultrapassar a alternativa entre somático e psíquico e reconhecer a questão da verdade do corpo. 2. A ambiguidade da verdade permite tanto o predomínio de interpretações que conduzem ao erro quanto a abertura ao mistério, tornando possível confundir o engano com o misterioso ou desqualificar o mistério como simples engano. 3. A reserva heideggeriana diante da tematização direta do corpo pode ser compreendida a partir de suas possibilidades de manifestação e encobrimento, enquanto a confusão entre erro e mistério revela a necessidade de interrogar as medidas que orientam sua interpretação. 4. A distinção entre Körper e Leib torna visível a ambiguidade da corporalidade e remete à herança husserliana, que investiga o entrelaçamento entre corpo e consciência e a constituição do corpo próprio a partir da subjetividade transcendental. 5. O corpo constitui-se originariamente de maneira dupla, como coisa física dotada de extensão e propriedades materiais e como âmbito no qual se sentem calor, frio e contato, articulando objetividade corporal e experiência sensível vivida. 6. A distinção fenomenológica também desenvolvida nas Meditações cartesianas fornece uma base para a investigação heideggeriana dos Seminários de Zollikon, na qual ocultamento e desocultamento permitem compreender a ambiguidade do próprio corpo. 7. O Körper designa o corpo mensurável e objetivável que se possui, enquanto o Leib remete ao corpo que se é, de maneira que o estudo científico da corporalidade, ao privilegiar o ente singular na insistência, pode ocultar a ex-sistência e sua exposição ao mundo, explicando a exigência de repensar o corpo a partir do ser-no-mundo. **CORPORAR COMO ERRAR E COMO MISTÉRIO** 1. A redução da corporalidade ao Körper situa sua interpretação no âmbito do errar quando a medida previamente adotada substitui o fenômeno corporal por propriedades objetiváveis, fazendo desaparecer a especificidade de experiências como lágrimas, tristeza e dor em favor de algo simplesmente presente e mensurável. 2. O corporar pode manifestar-se imediatamente no movimento das mãos ao escrever e, ao mesmo tempo, ocultar a exposição existencial à totalidade dos entes, de maneira que a referência exclusiva à insistência favorece o erro, enquanto a consideração da ex-sistência abre a dimensão do mistério. 3. A relação entre errar e mistério pode ser compreendida mediante a diferença ontológica, distinguindo a positividade ôntica do mensurável e a abertura de ser, sem separar o deixar-ser manifesto do deixar-ser vinculante. 4. Os traços ontológicos somente se tornam visíveis por meio de dados ônticos descritíveis, enquanto esses dados se encontram fundados em determinações ontológicas, tornando impossível separar os fatos particulares das estruturas de ser que os sustentam. 5. A corporalidade pertence ao entrelaçamento ôntico-ontológico da ex-sistência e não pode ser identificada apenas ao lado ôntico do Dasein, pois essa identificação privilegiaria a insistência e excluiria a abertura existencial que a possibilita. 6. A investigação do corpo precisa partir do modo de ser do ente que compreende afetivamente o ser, reconhecendo que ao corpo onticamente descoberto corresponde uma corporalidade ontológica cuja abertura não se reduz à manifestação de um objeto. 7. A diferença entre ser e ente exige distinguir também seus modos de acesso, de maneira que a corporalidade ontológica não se oferece à descoberta como uma coisa, mas se manifesta mediante seu retraimento. 8. A radicalidade da investigação heideggeriana depende de reconhecer no retraimento uma possibilidade de acesso ao mistério, pois a imposição de critérios exclusivamente ônticos mantém a interpretação corporal subordinada à positividade dos entes característica da metafísica. 9. O esquecimento do corpo exprime o esquecimento do ser quando a corporalidade é limitada à extensão simplesmente presente, embora o corpo seja simultaneamente aquilo que se possui e aquilo que se é na ex-sistência. 10. A dificuldade de acesso à corporalidade ontológica esclarece a reserva heideggeriana e sua resposta à crítica sartreana sobre a escassez de considerações corporais em Ser e tempo, reconhecendo no corpo um problema cuja complexidade ainda impedia uma formulação mais desenvolvida. **CORPO INSISTENTE E CORPO EXTÁTICO** 1. A ex-sistência caracteriza-se pela permanência descentrada do Dasein fora de si, permitindo compreender o corpo extático como manifestação do entrelaçamento ôntico-ontológico e como mistério que ultrapassa sua determinação exclusivamente extensa. 2. Uma refeição entre amigos revela o corporar como unidade situada de gestos, fala, escuta e relações com coisas e pessoas, na qual o corpo ultrapassa sua posição na cadeira e se orienta para o que solicita ou indica, evidenciando que a organização corporal e a linguagem pertencem ao mesmo acontecimento de ser-no-mundo. 3. O corpo encontra-se simultaneamente aqui e além de sua localização física quando se dirige aos interlocutores ou àquilo de que fala, pois o corporar possui o modo de ser da ex-sistência e se realiza como relação já aberta para fora de si. 4. A compreensão existencial distingue a localização corporal simplesmente presente da permanência extática em uma situação, exigindo interpretar o corpo a partir desse modo de ser que ultrapassa continuamente sua delimitação espacial. 5. A investigação científica e médica exige legitimamente a consideração do corpo objetivável, permitindo intervenções, exames e tratamentos, mas essa necessidade não elimina o mistério do corpo que se é, pois a mensuração do corpo possuído e a abertura da corporalidade existencial constituem dimensões da ambiguidade de sua verdade. **CONCLUSÃO** 1. A verdade do corpo precisa ser interrogada em sua essencialidade, reconhecendo que a descoberta insistente do ente corporal pode ocultar sua exposição ao mundo, enquanto o mistério da ex-sistência permite compreender como constitutiva aquela alteridade inicialmente considerada exterior ou não essencial ao próprio corpo. 2. A ambiguidade entre ocultamento e desocultamento não constitui uma deficiência a ser eliminada, pois tanto o corpo que se possui quanto o corpo que se é pertencem à verdade da corporalidade, cuja investigação exige manter aberta a tensão entre essas dimensões sem privilegiar unilateralmente qualquer uma delas. {{tag>Xolocotzi corpo}}