====== 6 Fundação ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Fundamento y abismo: Aproximaciones a la fenomenología hermenéutica de Martin Heidegger. México: Editorial Porrúa / BUAP, 2011.// **Fundação e fundamentação. Aspectos da passagem de alétheia a veritas no pensamento onto-histórico** 1. A grandeza do percurso de um pensador manifesta-se na riqueza do impensado que sua obra torna acessível como ainda não pensado, sem que isso represente uma omissão a ser corrigida posteriormente, pois se trata de possibilidades que somente podem aparecer a partir do próprio caminho aberto por esse pensamento. **Introdução** 1. A tradução de physis por natura constitui um ponto decisivo da reflexão heideggeriana sobre a transformação histórica da linguagem filosófica grega e sobre suas consequências para o pensamento ocidental. 2. A passagem do vocabulário grego ao latino marginaliza, segundo a interpretação apresentada em Introdução à metafísica, a experiência originária nomeada pelas palavras gregas e enfraquece sua força filosófica, constituindo uma primeira etapa do afastamento e da alienação em relação à essência da filosofia grega. 3. A mesma avaliação aparece em A origem da obra de arte, quando a apropriação romana das palavras gregas é caracterizada como um empréstimo realizado sem a experiência originária daquilo que elas nomeiam, fazendo dessa tradução um acontecimento pelo qual o pensamento ocidental começa a perder seu solo. 4. As formulações de 1935 pertencem ao período de revisão da ontologia fundamental e de elaboração do pensamento onto-histórico, cuja transformação gradual pode ser acompanhada nas referências de Heidegger a 1930 como ano crítico e nas cartas em que descreve uma mudança progressiva em sua maneira de trabalhar, perguntar e dizer, até reconhecer uma forma espiritual mais própria. 5. A transformação paulatina do pensamento heideggeriano exige reconsiderar suas afirmações de 1935 sobre a tradução do grego ao latim, sobretudo porque a interpretação do acontecido na origem passa a ocupar uma posição decisiva na investigação onto-histórica do Ocidente. 6. A investigação das traduções latinas deve concentrar-se no esclarecimento do pensamento onto-histórico, sem se converter em uma discussão geral sobre a condição filosófica da língua alemã, pois o desenvolvimento posterior da questão oferece elementos que permitem revisar a atribuição às traduções romanas da perda da experiência grega originária. 7. A preleção do inverno de 1937–1938, Questões fundamentais da filosofia. “Problemas” seletos de “lógica”, oferece um acesso público às questões desenvolvidas nos manuscritos das Contribuições à filosofia e permite acompanhar a reelaboração das posições anteriormente apresentadas sobre a tradução e a história da verdade. 8. A pergunta pelo sentido do ser transforma-se em pergunta pela verdade do ser, preservando a unidade da questão heideggeriana e distinguindo-se da pergunta condutora da metafísica pelo ente enquanto tal, pois procura pensar o próprio acontecer do ser, seu essenciar-se e seu dar-se oculto, designados nas Contribuições à filosofia como acontecimento apropriador (Ereignis). 9. A investigação da verdade concentra-se na fundação, quarta das seis junções das Contribuições à filosofia, sem separá-la da unidade constituída com a ressonância, o passe, o salto, os futuros e o último deus, pois nesse âmbito se explicita uma determinação decisiva do pensamento onto-histórico. 10. A análise da fundação exige revisar a tese de que a tradução de alétheia por veritas teria provocado a perda do solo originário do pensamento, mostrando que a interpretação latina acolhe uma transformação já ocorrida no próprio pensamento grego. **Os âmbitos da verdade** 1. A investigação da verdade distingue três âmbitos articulados: o verdadeiro, a essência do verdadeiro e a essencialidade da essência, permitindo ultrapassar tanto a orientação cotidiana pelo que se considera correto quanto a determinação filosófica habitual daquilo que torna algo verdadeiro. 2. O âmbito do verdadeiro regula a vida histórica e os comportamentos cotidianos mediante aquilo que se reconhece como correto, enquanto a verdade é compreendida como a essência que determina esse verdadeiro, de modo que a tradição se orienta tanto pela busca do que deve conduzir a ação quanto pela investigação de seu fundamento essencial, tomando a correção do enunciado, dirigido ao ente e ajustado a ele, como determinação da verdade. 3. A pergunta pela essência do verdadeiro, embora pareça supérflua diante das exigências práticas, constitui uma tarefa central da tradição filosófica e conduz à necessidade de interrogar por que o verdadeiro precisou ser fundamentado, o que tornou necessária sua essência e em que sentido a própria correção pode ser considerada verdadeira. 4. A pergunta heideggeriana pela verdade não propõe simplesmente outro conceito, mas transforma a direção da investigação ao perguntar pela essencialidade da essência da verdade, tornando possível experimentar a história ocidental como primeiro início e reconduzir a correção ao desocultamento, sem estabelecer o outro início como uma etapa que apenas se oporia ao anterior ou o superaria. 5. A passagem da pergunta pela essência da verdade à pergunta pela verdade da essência constitui uma viragem no próprio perguntar, pela qual tanto o verdadeiro quanto aquilo que o fundamenta se tornam questionáveis, exigindo esclarecer a origem da essência que determina a verdade como correção. 6. A investigação histórica da essencialidade da essência parte das determinações aristotélicas do universal, do que já era, do gênero e do subjacente, reconhecendo nelas a referência ao que algo é e àquilo que antecede o singular, o que conduz à concepção platônica da essência como aspecto mantido previamente à vista no encontro com cada coisa. 7. A necessidade de fundamentar o verdadeiro remete à ideia platônica como aspecto antecipadamente divisado que orienta a apreensão dos casos particulares, funcionando como modelo pelo qual algo pode ser reconhecido em sua configuração própria. 8. A essência que determina a entidade do ente não se origina da simples consideração de uma coisa já presente diante de alguém, mas de um modo específico de apreensão que Heidegger interpreta como produção da essência, tornando necessário esclarecer o caráter originário desse trazer à manifestação. 9. A interpretação de Platão desenvolvida nessa preleção distingue-se dentro do amplo trabalho heideggeriano sobre o filósofo por orientar-se especificamente para um aspecto central do pensamento inicial, investigando a origem da apreensão essencial. 10. A ideia, enquanto aspecto oferecido por algo, orienta sua apreensão como tal, pois a possibilidade de perceber depende do mostrar-se do ente em seu aspecto, de maneira que a ideia apresenta o que algo é em seu fazer-se presente e permite compreender a determinação do ser aí operante como presença constante. 11. A presença constante da essência não se identifica com a presença efetiva de um caso singular, pois a contingência de sua realidade não altera a determinação do que algo é enquanto ideia. 12. A concepção grega da entidade distingue-se da interpretação posterior do ser como simples presença efetiva, porque, em Platão, a existência factual e a realidade de um ente não constituem aquilo que determina sua entidade, tornando necessário reconhecer a transformação histórica dessa compreensão. 13. A essência como determinação do que algo é não pode ser fundamentada pela referência a exemplares singulares já presentes, pois essa verificação pressuporia aquilo que deveria explicar e não alcançaria a origem da determinação essencial. 14. A apreensão da essência deve ser compreendida como uma atividade que a traz originariamente à manifestação e orienta a possibilidade dos casos singulares, em vez de reuni-la posteriormente a partir de coisas já dadas. 15. A diferença entre familiaridade com a essência e conhecimento explícito de sua constituição mostra que a vida cotidiana pressupõe a capacidade de distinguir os entes sem tematizar aquilo que permite essa distinção, de maneira que a essência permanece simultaneamente próxima e distante, conhecida e desconhecida, em uma tensão constitutiva da existência humana entre ser e aparência. 16. A tensão enigmática entre proximidade e distância da essência possibilita a grandeza das épocas históricas quando elas conseguem experimentá-la e sustentá-la, transformando as rupturas produzidas por esse confronto em obras e ações essenciais. 17. A produção da essência não pode ser compreendida como apreensão de algo simplesmente presente nem como fundamentação mediante uma realidade previamente dada, embora a impossibilidade desse procedimento não autorize concluir que o conhecimento essencial careça de fundamento. 18. A produção da essência consiste em trazê-la à luz desde seu desconhecimento e encobrimento, mediante uma visão originária que expõe o aspecto da coisa e estabelece aquilo que deve ser visto, diferenciando o pensar tanto da observação passiva quanto do cálculo ou da fala que apenas reproduz o já disponível. 19. O estabelecimento da essência não constitui fabricação arbitrária nem descoberta de um dado previamente presente, mas uma fundação que se conduz sobre o fundamento por ela mesma posto, tornando possível compreender a hypothesis como posição daquilo que subjaz, o hypokeimenon. 20. O conhecimento essencial constitui a posição do fundamento, ultrapassando a alternativa entre fundamentação e ausência de fundamento, de modo que a verdade dessa apreensão não pode ser a correção, que já exige algo previamente estabelecido para orientar-se, mas o próprio desocultamento da essência, denominado alétheia e interpretado em termos platônicos como ideia. 21. A apreensão do ente realiza-se como desocultamento e revela a alétheia como caráter do ente enquanto tal, mostrando que a verdade como correção depende de uma abertura anterior na qual os entes já se encontram manifestos e podem orientar o conhecimento factual. 22. O desocultamento do ente constitui o fundamento da possibilidade da correção, mas, por ter sido originariamente experimentado como aquilo que se oferece à visão, não exigiu uma fundamentação nem se tornou objeto de pergunta, permanecendo como pressuposto não interrogado da verdade posteriormente determinada como concordância. 23. A experiência grega da alétheia foi tomada como fundamento da correção sem que a essência desse fundamento fosse investigada em sua origem, constituindo uma fundação produtiva que encobriu o próprio acontecer do fundar e manteve o desocultamento fora do questionamento. 24. A tradução latina de alétheia por veritas acolhe, assim, uma transformação previamente ocorrida no pensamento grego, exigindo inverter a explicação que atribui à tradução a perda originária da experiência da verdade. 25. A interpretação da verdade como veritas, rectitudo e correção do enunciado pôde estabelecer-se e tornar-se dominante porque a essência da alétheia não havia sido desenvolvida de maneira suficientemente originária nem fundada com força suficiente, de modo que a tradução manifesta uma possibilidade aberta por essa insuficiência anterior. 26. A compreensão desse acontecimento pertence à meditação histórica, que procura penetrar no sentido do ocorrido e do que continua a acontecer, e não a uma descrição historiográfica de perdas sucessivas, pois o histórico diz respeito à maneira pela qual o mundo humano permanece aberto e não se reduz à oposição entre presente e passado. **Conclusão** 1. A resposta grega à pergunta pelo ente como desocultamento inaugura um caminho de investigação cuja realização exige permanecer no âmbito em que o ente se manifesta em estabilidade, presença, forma e limite, de maneira que a impossibilidade de perguntar pela própria alétheia pertence ao modo pelo qual os gregos sustentaram e consumaram a tarefa do primeiro início. 2. O início grego do pensamento contém o risco de seu próprio encobrimento, pois o ente originariamente acessível mediante o conflito entre ocultamento e desocultamento passa a ser compreendido como manifestação positiva, enquanto a verdade se torna adequação a um aspecto previamente divisado, cuja instituição como fundamento abre um percurso que alcança na modernidade a transformação da visão antecipadora em calculabilidade. 3. A metafísica ocidental desenvolve as possibilidades abertas pela passagem da fundação do fundamento à fundamentação, correspondente à transformação da alétheia em correção, de modo que suas configurações históricas da presença constituem simultaneamente modos de soterramento do desocultamento e de abandono do ente pelo ser, compreendidos como esquecimento do ser. 4. A transformação da verdade em correção modifica também a essência do ser humano, que passa de perceptor do ente a animal racional, sem que essa mudança resulte primeiramente da tradução latina, pois a interpretação de nous e logos como ratio já estava preparada na filosofia grega desde Platão. 5. A tradução latina deve ser reconhecida como receptiva à transformação já acontecida no pensamento grego, mostrando fidelidade ao sentido então disponível, em vez de ser tomada simplesmente como incapacidade de acolher a experiência originária. 6. A investigação do caráter onto-histórico da verdade conduz também à necessidade de aprofundar a relação entre Heidegger e a romanidade filosófica, cuja riqueza permanece insuficientemente explorada e não pode ser ignorada em consequência de interpretações que simplificam sua contribuição à história do pensamento. {{tag>Xolocotzi fundamento abismo aletheia}}