====== 4 Diferença ontológica ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Fundamento y abismo: Aproximaciones a la fenomenología hermenéutica de Martin Heidegger. México: Editorial Porrúa / BUAP, 2011.// **Diferença ontológica e retenção. As tonalidades afetivas no pensamento onto-histórico** 1. A facticidade constitui o sentido radical do estar-aí do Dasein, cujo fundamento não corresponde a uma base simplesmente presente, mas a um fundo existencial aberto que, por não possuir um fundamento último sobre o qual repousar, se revela como abismo. **Introdução** 1. A crescente importância filosófica da afetividade permite reconsiderar as indicações desenvolvidas por Heidegger nas preleções de Marburgo e em Ser e tempo, inicialmente interpretadas como uma introdução do irracional na filosofia, mas posteriormente esclarecidas pela publicação dos escritos póstumos, cuja contribuição se tornou decisiva para compreender o alcance da obra publicada. 2. A superação da interpretação irracionalista exige reconhecer que a investigação heideggeriana reformula as questões mediante um acesso fenomenológico-hermenêutico, em vez de simplesmente contradizer a racionalidade estabelecida, embora a compreensão da afetividade como sentimentos ainda conserve o esquema racionalista ao situá-la em uma esfera contraposta ou subordinada à razão. 3. A radicalidade ontológica da pergunta pelo ser exige compreendê-la a partir da diferença entre ser e ente, permitindo apreender a afetividade como tonalidades afetivas enraizadas na estrutura existencial do ser-no-mundo, em vez de reduzi-la a sentimentos subjetivos que acompanham a atividade racional. 4. A diferença ontológica oferece um fio condutor para compreender a afetividade ao longo de todo o percurso heideggeriano, pois a investigação posterior do retraimento histórico do ser concretiza uma questão já presente na ontologia fundamental, contrariando a interpretação que restringe essa diferença a um momento tardio do primeiro Heidegger. 5. A diferença entre ser e ente permanece operante em Ser e tempo mesmo sem receber uma tematização expressa sob o título de diferença ontológica, como indicam tanto a caracterização do Dasein como ente ontológico quanto a distinção entre os entes descobertos na ocupação e aquilo que já se encontra aberto como condição de seu encontro, sem possuir o mesmo modo de ser nem se tornar acessível como mais um ente. 6. A distinção entre abertura do ser (Erschlossenheit) e descobrimento dos entes (Entdecktheit) constitui a formulação inicial da diferença ontológica e exige um acesso fenomenológico correspondente, pois pensar o ser em sua diferença em relação ao ente implica ultrapassar a positividade da presença herdada da metafísica e reconhecer a estrutura do ser-no-mundo, cuja desconsideração favorece interpretações que reconduzem indevidamente a proposta heideggeriana ao esquema da subjetividade. 7. A ontologia fundamental investiga a diferença entre ser e ente como uma articulação na qual o encobrimento do ser acompanha a manifestação do ente, e a analítica existencial procura manter todos os seus desenvolvimentos nesse horizonte, explicitado pela investigação da abertura que sustenta o encontro com os entes. 8. A análise da abertura desenvolve a afetividade mediante a distinção entre tonalidades afetivas (Stimmungen) e disposição afetiva (Befindlichkeit), cuja articulação permite compreender como a diferença ontológica se manifesta na própria constituição afetiva da existência. **Tonalidades afetivas e disposição afetiva em sua diferença** 1. A diferença ontológica deve ser reconhecida nos modos fundamentais de abertura da existência, compreensão (Verstehen) e disposição afetiva (Befindlichkeit), pois o Dasein não é como algo simplesmente presente, mas como ente que compreende possibilidades, cuja abertura ocorre sempre de uma maneira afetivamente determinada, distinguindo-se a disposição afetiva como o modo de abertura e as tonalidades afetivas como as maneiras concretas pelas quais as possibilidades se apresentam nessa abertura. 2. A disposição afetiva distingue-se ontologicamente da tonalidade afetiva, embora ambas sejam inseparáveis, pois a primeira constitui o caráter ontológico da segunda, enquanto a segunda constitui a manifestação ôntica da primeira, de maneira que toda tonalidade dispõe afetivamente e toda disposição se realiza em uma tonalidade, sem que a estrutura da disposição se esgote em qualquer manifestação particular. 3. O Dasein realiza seu ser como possibilidade compreendida e tonalidade afetivamente disposta, de modo que a compreensão constitui o caráter ontológico da possibilidade e a disposição constitui o caráter ontológico da tonalidade, permitindo caracterizá-lo, na unidade originária de sua relação de ser, como possibilidade afetivamente afinada e, na diferenciação ontológica dessa unidade, como compreensão afetiva. 4. A inseparabilidade entre possibilidade afetivamente afinada e compreensão afetiva exprime a ruptura heideggeriana com a ontologia representacional da presença, pois a existência se constitui como relação com seu próprio ser e sua permanência no mundo não corresponde à posição de uma subjetividade diante de objetos, mas à compreensão afetiva de possibilidades nas quais o existir já se encontra envolvido. 5. A disposição afetiva, embora cooriginária com a compreensão, possui uma importância específica em Ser e tempo porque desempenha simultaneamente uma função ontológica, ao constituir um modo fundamental pelo qual o Dasein é sua abertura, e uma função metodológica, ao possibilitar o acesso às estruturas que a analítica existencial procura explicitar. 6. A função ontológica da disposição afetiva desenvolve-se especialmente no § 29, enquanto sua função metodológica se evidencia na análise da angústia no § 40, que procura tornar acessível a totalidade estrutural do Dasein mediante um modo de abertura capaz de revelar a existência como relação de ser, sem recorrer a determinações ônticas que a reconduzam à simples presença. 7. As tonalidades cotidianas manifestam como o Dasein se encontra absorvido no impessoal e no mundo da ocupação, permitindo que os entes sejam descobertos em experiências diversas, como alegria, medo ou confiança, mas sem abrir tematicamente o âmbito a partir do qual esse encontro se torna possível, isto é, a abertura do ser e do mundo. 8. As tonalidades afetivas fundamentais (Grundstimmungen) permitem um acesso à dimensão ontológica da abertura do ser e do mundo, ultrapassando o descobrimento cotidiano dos entes, e seu caráter fundamental reside paradoxalmente em abrir o Dasein na totalidade de seu fundo sem fundamento, em vez de revelar uma base entitativa que o sustentaria. 9. A angústia distingue-se das demais tonalidades por abrir o mundo enquanto abertura, e não por uma intensidade maior ou por um conteúdo mais negativo, fazendo a rede de significância cotidiana aparecer como insignificância e rompendo a familiaridade do estar-em-casa, de modo que o Dasein se encontra em seu não-estar-em-casa e reconhece a ausência de qualquer ente capaz de fundamentar ou justificar seu ser-no-mundo, revelando-se assim sua facticidade. **O lugar afetivo da retenção no pensamento onto-histórico** 1. A abertura do nada na angústia não estabelece uma oposição entre nada e ente ou entre nada e ser, mas radicaliza a diferença ontológica ao revelar que a retração dos entes em sua totalidade não significa sua aniquilação, e sim um abismo de sentido no qual se evidencia a ausência de um ente fundamental e o acontecer do ser como não ente, em sua recusa de uma manifestação entitativa. 2. O caminho inaugurado pela análise da angústia em Ser e tempo e aprofundado em Que é metafísica? prossegue no pensamento onto-histórico dos anos 1930, permitindo compreender a metafísica como história do encobrimento do ser em favor da manifestação do ente, sem que esse reconhecimento implique desprezá-la ou simplesmente rejeitá-la. 3. O pensamento inicial desenvolvido nas Contribuições à filosofia e nas preleções próximas prepara a passagem da consumação do primeiro início, caracterizado pela pergunta metafísica pelo ser do ente, ao outro início, orientado pela pergunta fundamental pela verdade do ser (Seyn), constituindo um pensamento de transição que acompanha a história do ser e se articula em seis junções. 4. A articulação dessas junções parte da ressonância da verdade do ser na experiência da indigência do abandono do ente pelo ser, passa pela confrontação em que o primeiro início põe em jogo o outro início e prepara o salto para a verdade do ser como acontecimento, tornando possível sua fundação como Dasein e projetando os futuros fundadores dessa verdade no âmbito dos acenos do último deus. 5. As tonalidades afetivas desempenham um papel decisivo nessa articulação porque as configurações metafísicas da presença do ente dependem da correlação histórica entre a verdade como correção e o ser humano como animal racional, cuja transformação exige recuperar possibilidades soterradas no início ocidental, entre as quais se encontra o caráter afetivamente afinado do próprio pensar. 6. O rigor filosófico e a sobriedade do pensamento nascem de uma tonalidade fundamental e nela se mantêm, pois a sobriedade não significa ausência de afinação afetiva nem frieza conceitual, mas a sustentação rigorosa de uma abertura para o fato inquietante de que o ente é, em vez de não ser. 7. O predomínio ocidental da razão restringiu e rebaixou as tonalidades afetivas ao procurar integrá-las à sua própria ordem, embora elas pertençam constitutivamente ao filosofar desde o espanto (thaumazein) e participem de suas aberturas históricas, preservando uma relação com o acontecimento da verdade como desvelamento (alétheia) que a redução racionalista tende a encobrir. 8. Aquilo que se denomina sentimento ou tonalidade afetiva pode mostrar-se mais receptivo ao ser do que a razão convertida em ratio, porque sua abertura permite uma sensibilidade que o entendimento exclusivamente racionalizado não alcança, exigindo reconsiderar os critérios pelos quais a tradição lhe atribuiu uma posição inferior. 9. A tonalidade afetiva prepara o outro início ao possibilitar a superação da concepção do ser humano como animal racional, exigindo uma radicalização do pensar e uma interrogação da estrutura de fundamentação que orientou o Ocidente, cuja transformação passa pela meditação histórica do início que continua a vigorar em seu desenvolvimento. 10. A passagem ao outro início responde a uma indigência que abre um entre ainda não determinado pela distinção estabelecida entre o que é e o que não é, criando espaço para perceber o ente como tal e dispondo o ser humano mediante uma tonalidade fundamental; assim como o espanto corresponde à necessidade do primeiro início, a retenção (Verhaltenheit) corresponde à transição em que a verdade como alétheia, soterrada pela correlação entre correção e animal racional, volta a exigir pensamento. 11. A retenção reúne originariamente o espanto aterrador diante do fato próximo de que o ente é e o recato diante do mais distante, o essenciar-se do ser no ente e antes de todo ente, preservando o primeiro mediante o segundo e constituindo a tonalidade fundamental de uma relação com o ser na qual o encobrimento de sua essência se torna o mais digno de questionamento. 12. O que permanece retido como não acontecido conserva seu caráter insondável e solicita continuamente a meditação, de maneira que a investigação da essência da verdade como alétheia exige escutar a reivindicação de uma história oculta e experimentar a necessidade que dá origem ao próprio perguntar. 13. As tonalidades fundamentais constituem modos de acesso ao pensamento de transição da história do ser e esclarecem a continuidade entre ontologia fundamental e pensamento onto-histórico, pois sua tematização histórica desenvolve consequências da investigação inicial da existência, ultrapassando a interpretação que as toma como manifestações de um romantismo irracional. 14. A retenção nomeia a tonalidade fundamental do outro início e ocupa uma posição central na elaboração onto-histórica da afetividade, vinculando o pensamento da história à possibilidade de uma criação que preserva o mais próprio e abre o futuro. 15. A superação da esterilidade imitativa produzida pela relação meramente historiográfica com o passado exige que a história recupere sua força criadora, fazendo surgir novas possibilidades mediante uma retenção que preserva o mais próprio e permite à história aparecer, transfigurando o futuro tanto pelo esclarecimento quanto pela elevação do que se torna manifesto. 16. A história do ser abre o retido em sua projeção futura mediante uma criação que inaugura caminhos, e essa abertura ocorre sob a tonalidade fundamental da retenção, cuja experiência possibilita a transformação criadora não apenas do pensar, mas também do poetizar e de outros âmbitos decisivos da relação humana com o mundo histórico. {{tag>Xolocotzi fundamento abismo diferença-ontológica Stimmung}}