====== 2 Aparecer ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Fundamento y abismo: Aproximaciones a la fenomenología hermenéutica de Martin Heidegger. México: Editorial Porrúa / BUAP, 2011.// **Aparecer e mostrar-se. Notas sobre a “fenomenologia” em Hegel e Heidegger** 1. A interpretação hegeliana da vida, da existência e do processo permanece categorialmente insuficiente ao empregar determinações herdadas da lógica da coisa e do mundo, tornando necessária uma interrogação mais radical que alcance o próprio ser, para além da consideração do devir, do movimento, do acontecer e da história. **Introdução** 1. A publicação da Fenomenologia do espírito, em 1807, e de Ser e tempo, em 1927, permite interrogar a relação entre duas compreensões decisivas de fenomenologia, embora Hegel empregue um termo proveniente da filosofia alemã do século XVIII e Heidegger se vincule ao método inaugurado por Husserl, de maneira que uma aproximação legítima exige ultrapassar a coincidência terminológica e investigar o que efetivamente se pensa em cada obra, evitando submeter um pensador aos esquemas interpretativos do outro. 2. O emprego hegeliano de fenomenologia inscreve-se em uma herança moderna que relaciona o termo à aparência (Schein) e à aparição (Erscheinung), enquanto Husserl o utiliza para designar a ciência dos fenômenos, compreendendo o fenômeno como aquilo que aparece e, sobretudo, como o próprio aparecer em sua dimensão subjetiva, deslocando a investigação para a maneira pela qual algo se manifesta. 3. A fenomenologia husserliana reconhece inicialmente como fenômeno a consciência enquanto fluxo de vivências intencionais e, por essa via, investiga aquilo que nela aparece, distinguindo os fenômenos das coisas simplesmente admitidas na atitude natural mediante reduções ou mudanças de atitude que tornam possível sua consideração eidética e transcendental. 4. A distinção husserliana entre coisas e fenômenos é retomada pelo jovem Heidegger mediante a investigação de um âmbito pré-teorético do qual deriva a possibilidade de apreender teoricamente as coisas, substituindo a centralidade da consciência pela vida fáctica e, posteriormente, pelo Dasein, de modo que o acesso fenomenológico passa a exigir a interpretação do existir em sua experiência originária. 5. A determinação de fenômeno no § 7 de Ser e tempo restringe ontologicamente a fenomenologia àquilo que habitualmente não se mostra, o ser, e responde indiretamente à crítica de Rickert ao estabelecer que toda aparição mediada e toda aparência pressupõem algo que se mostra em si mesmo, o fenômeno; entretanto, como essa distinção se dirige ao neokantismo e Hegel emprega Erscheinung, permanece necessário investigar a possibilidade de aproximar a aparição hegeliana do fenômeno heideggeriano para além das diferenças vocabulares. 6. A confrontação heideggeriana com Hegel atravessa desde a tese de habilitação de 1916 e as primeiras preleções sobre a vida fáctica até as investigações da temporalidade, retomando-se sistematicamente em 1929 e aprofundando-se nos cursos e escritos dos anos seguintes, quando a revisão da ontologia fundamental conduz ao reconhecimento da historicidade da metafísica e atribui a Hegel, ao lado de Nietzsche, um papel decisivo na meditação sobre o início grego e sobre as formas de consumação da metafísica ocidental. 7. As interpretações que aproximam o pensamento onto-histórico de uma versão da dialética hegeliana encontram a oposição explícita de Heidegger, cuja crítica se desenvolve especialmente na discussão da constituição ontoteológica da metafísica e do princípio de identidade, embora a determinação de sua relação com Hegel ultrapasse uma simples posição contrária e remeta à pergunta pelo mistério do início. 8. A investigação do mistério do início exige uma aproximação preparatória e delimitada ao sentido inicial de fenomenologia em cada percurso, esclarecendo primeiro a introdução hegeliana do termo e, em seguida, a compreensão elaborada pelo jovem Heidegger, para reconhecer a relação entre suas questões sem apagar a especificidade de seus caminhos. **Hegel e a “fenomenologia”** 1. A introdução de fenomenologia por Johann Heinrich Lambert, no Novo Organon de 1764, designa a investigação que distingue a aparência da verdade ao reconhecer na aparência uma mediação entre o verdadeiro e o falso, cuja abrangência ultrapassa a percepção sensível e alcança os domínios psicológico, moral e ideal, justificando sua caracterização ocasional como uma óptica transcendente. 2. A fenomenologia de Lambert investiga a estrutura do conhecimento para explicar como se diferencia aquilo que uma coisa parece ser daquilo que ela realmente é, enfrentando especialmente os erros aceitos por sua aparência de verdade e orientando-se, por isso, para a verdade metafísica na oposição entre aparência e realidade, o que lhe confere objetivos próprios como modalidade autônoma de investigação. 3. O projeto kantiano anterior à Crítica previa uma fenomenologia geral como ciência negativa preparatória à metafísica, destinada a determinar a validade e os limites dos princípios da sensibilidade, e ainda em 1772 essa investigação figurava como parte inicial de uma obra sobre os limites da sensibilidade e da razão, evidenciando a participação do termo na formação do programa crítico. 4. A transformação kantiana da fenomenologia em crítica exige que a investigação da aparência seja precedida pela análise da aparição, pois a identificação da aparência (Schein), agora vinculada à razão pura, pressupõe o esclarecimento da aparição (Erscheinung) como o modo pelo qual algo é dado na experiência. 5. A delimitação kantiana do conhecimento inaugura um pensamento da finitude ao substituir a adequação do conhecer a objetos previamente garantidos pela exigência de que os objetos se conformem às condições do conhecimento, situando a possibilidade da objetividade na subjetividade e na articulação entre a receptividade sensível, pela qual o objeto é dado, e a espontaneidade do entendimento, pela qual ele é pensado. 6. Os objetos cognoscíveis são, assim, aparições constituídas segundo as condições humanas de experiência, e somente a partir dessa determinação Kant pode investigar a possibilidade da aparência transcendental, desenvolvida na dialética transcendental como problema distinto da simples manifestação dos objetos. 7. A fenomenologia hegeliana nasce de uma confrontação filosófica com Kant e seus intérpretes, na qual a determinação da razão pela finitude é questionada por restringir o conhecimento às aparições, convertendo essa restrição em limite aparentemente incontornável da própria atividade de conhecer. 8. A limitação do entendimento ao conhecimento de aparições torna contraditória sua elevação a instância em si e absoluta, pois um entendimento que conhece somente o que aparece deveria reconhecer também seu próprio caráter de aparição, em vez de estabelecer dogmaticamente o conhecimento finito como única forma legítima de saber e excluir o conhecimento da razão. 9. A investigação kantiana das condições do conhecimento finito impede o pensamento de alcançar a própria aparição em sua verdade porque pressupõe a constituição prévia do objeto pelas condições subjetivas que permitem reconhecê-lo, de maneira que a restrição do ente a objeto que aparece torna problemática a experiência natural do mundo e não satisfaz a exigência de uma verdade independente do sujeito. 10. A fenomenologia hegeliana procura superar a restrição do pensamento ao conhecimento das aparições ao integrar o aparecer e aquilo que aparece, compreendendo a aparência como uma modalidade efetiva de manifestação e, no desenvolvimento da Fenomenologia do espírito, como um momento do processo pelo qual o saber absoluto se apresenta. 11. A compreensão da aparência como aparição ultrapassa os limites kantianos e abre a possibilidade de apresentar o saber absoluto em seu desenvolvimento, esclarecendo a relação entre o título Fenomenologia do espírito e a designação inicialmente prevista, ligada à ciência da experiência da consciência, cuja permanência na impressão testemunha a articulação entre ambos os sentidos. 12. A substituição dos títulos indica que o emprego hegeliano de fenomenologia, embora herde uma palavra utilizada por Lambert e Kant, corresponde à elaboração de uma nova disciplina vinculada à experiência da consciência, cujo surgimento pode ser acompanhado pelo menos desde 1804. 13. A Fenomenologia do espírito, concluída às vésperas da batalha de Jena, ocupa na apresentação hegeliana de 1807 o lugar de primeira parte e de introdução ao sistema, articulando sua autonomia expositiva com a função de preparar o acesso à ciência filosófica propriamente dita. 14. A publicação das preleções de Jena permite reconsiderar interpretações que separam a Fenomenologia do sistema ou a desvinculam da lógica, enquanto Heidegger a compreende como pressuposição fundamental do sistema enciclopédico, porque a consciência constitui o elemento do aparecimento do absoluto como saber absoluto, e Pöggeler reconstrói sua gênese nas relações entre lógica e metafísica, mostrando que a unificação destas na filosofia especulativa exige uma nova introdução, desenvolvida como história da experiência da consciência. 15. A experiência da consciência consiste na manifestação do próprio saber absoluto e no processo de formação da consciência em direção à ciência, no qual a diferença entre ser em si e ser para si permite que uma negação determinada transforme o objeto e inaugure uma nova verificação, de maneira que a passagem da certeza sensível a outras figuras não constitui uma simples sucessão de conhecimentos, mas o movimento dialético da própria experiência. 16. A ciência da experiência da consciência apresenta o desdobramento do saber absoluto em seus diferentes momentos, desde sua figura mais exteriorizada na certeza sensível até sua manifestação mais interior no saber absoluto, ultrapassando tanto uma crítica externa do conhecimento quanto uma descrição de seus percursos sucessivos. 17. A fenomenologia hegeliana reelabora os sentidos herdados de eliminação da aparência e de doutrina da aparição ao apresentar a história da experiência da consciência, na qual a aparência é apreendida em sua necessidade e a aparição recebe uma fundamentação sistemática no desenvolvimento do saber. **Heidegger e a “fenomenologia”** 1. O contato de Heidegger com as Investigações lógicas desde seu primeiro semestre universitário, em 1909, estabelece a origem husserliana de sua compreensão de fenomenologia, apesar das informações sobre Hegel recebidas por intermédio da teologia, conduzindo-o a reconhecê-la como método descritivo de visão direta das coisas e, posteriormente, como um modo de ver ou de tratar os fenômenos. 2. A compreensão heideggeriana da fenomenologia como modo de tratamento exige uma reconstrução de sua gênese, capaz de esclarecer tanto suas diferenças quanto suas possíveis relações com a fenomenologia hegeliana, sem reduzir a aproximação ao uso comum de uma designação. 3. O projeto husserliano de uma lógica pura responde a um interesse teórico pelo esclarecimento dos conceitos e pela fundamentação formal da ciência, investigando as formas mais gerais e as leis de composição de noções como significado e objeto em geral, que não resultam de mera generalização empírica e constituem o domínio de uma ciência formal universal das ciências, a mathesis universalis. 4. A passagem da lógica pura à noética amplia a investigação do conteúdo objetivo do conhecimento ideal para suas condições subjetivas ideais, conduzindo Husserl às vivências intencionais da consciência como fonte dos conceitos fundamentais e das leis lógicas, nas quais se torna possível investigar a origem do conhecimento sem partir de posições teóricas previamente constituídas. 5. A descoberta husserliana das vivências intencionais orienta o jovem Heidegger a compreender a fenomenologia como ciência do vivenciar, desenvolvida desde a descrição da experiência do mundo circundante até a investigação da intencionalidade e condensada em Ser e tempo na exigência de tornar visível precisamente aquilo que, de início e na maior parte das vezes, não se mostra. 6. A determinação da fenomenologia como ciência dos fenômenos torna problemática sua orientação para aquilo que não se mostra, exigindo esclarecer como a investigação pode fazer ver o que permanece oculto sem abandonar o compromisso com a manifestação e com a explicitação do fenômeno. 7. A peculiaridade heideggeriana consiste em tomar como ponto de partida o não estar dado e o encobrimento do fenômeno, deslocando a atenção da simples disponibilidade do que aparece para a necessidade de desvelar aquilo que permanece oculto na experiência. 8. A investigação ontológica distingue os entes que aparecem do ser que se oculta em seu próprio mostrar-se, sem converter esse ser em uma face escondida dos entes ou em um ente supremo que os englobe, pois a pergunta pelo ser permanece inseparavelmente vinculada à pergunta pelo ser do ente. 9. A orientação heideggeriana não estabelece dogmaticamente um conteúdo determinado a ser descoberto, mas reconduz o que aparece ao modo de seu aparecimento, fazendo da relação entre conteúdo e manifestação uma exigência interna da própria consideração fenomenológica. 10. O fenômeno constitui uma totalidade de sentido na qual se articulam o conteúdo originariamente experimentado, a referência pela qual esse conteúdo é experimentado e a realização efetiva dessa referência, de modo que a fenomenologia explicita conjuntamente essas três direções — sentido de conteúdo, sentido de referência e sentido de realização — sem tratá-las como elementos simplesmente justapostos. 11. A tematização fenomenológica dirige-se à fenomenalidade como o próprio mostrar-se, pois aquilo que aparece é sempre algo, embora seu modo de manifestação não apareça da mesma maneira, tornando possível interrogar o ser como aquilo que permanece oculto no mostrar-se do ente, sem localizá-lo atrás deste como uma segunda coisa e sem reduzir a investigação à descrição abstrata de condições de possibilidade. 12. A copertença entre o que aparece e o modo de seu aparecimento exige investigar esse modo preservando-o como modo, em vez de transformá-lo em um conteúdo ou ente adicional, de maneira que a fenomenologia, em sentido estrito, pensa o ente em seu ser e fundamenta o caráter não dogmático da ontologia, cuja possibilidade depende precisamente desse acesso fenomenológico. 13. A fenomenologia hegeliana apresenta uma afinidade com essa orientação ao compreender a aparição em sua negatividade e em sua inserção na experiência da consciência, pela qual aquilo que inicialmente se manifesta pode revelar-se aparência diante de outra figura do saber, sem que essa transformação signifique mera eliminação, pois a verdade se realiza como processo. 14. As fenomenologias de Hegel e Heidegger questionam as concepções dogmáticas da realidade ao investigar o âmbito em que algo aparece, seja no desdobramento da totalidade do saber, seja no modo determinado de manifestação do ente, preservando a necessidade do que aparece sem tomá-lo como verdade autossuficiente e afastando-se da familiaridade que considera as coisas simplesmente dadas, embora Hegel se dirija ao reconhecimento do absoluto e Heidegger procure pensar a diferença entre ser e ente. 15. A diferença entre os contextos e os limites de Hegel e Heidegger não elimina sua convergência na investigação do fundo do próprio aparecer, desenvolvido dialeticamente na experiência da consciência ou hermeneuticamente na explicitação do mostrar-se, constituindo essa interrogação uma determinação decisiva da fenomenologia. {{tag>Xolocotzi fundamento abismo aparecer mostrar-se fenômeno}}