====== 1 Dimensões da coisa ====== //XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Fundamento y abismo: Aproximaciones a la fenomenología hermenéutica de Martin Heidegger. México: Editorial Porrúa / BUAP, 2011.// **As dimensões da coisa. Heidegger e a articulação entre hermenêutica, metafísica e fenomenologia** 1. A tarefa filosófica consiste em libertar das aparências e dos obscurecimentos aquilo que há muito já se conhece, tornando novamente acessível o familiar encoberto, em vez de buscar necessariamente um território desconhecido. **Estratos no pensar heideggeriano** 1. A investigação da ideia de filosofia e da continuidade do pensamento de Heidegger ultrapassa o interesse secundário ou meramente filológico porque sua repercussão possui uma amplitude territorial, disciplinar e popular que permite caracterizá-la como universal, sem pressupor um fundamento atemporal válido em toda parte, sobretudo pela recepção sistemática no Oriente e pelos impulsos decisivos proporcionados ao trabalho filosófico em regiões como a América Latina. 2. A singularidade da repercussão heideggeriana reside tanto em sua contribuição determinante para os caminhos da filosofia ocidental quanto no diálogo com a ciência e a arte, estendendo-se das salas de aula e bibliotecas aos museus, ateliês, laboratórios, consultórios e espaços cotidianos de convivência, de maneira que a interpelação filosófica alcança profissionais de diferentes áreas e pessoas sem formação especializada, aproximando o filosofar da própria vida. 3. A multiplicidade de possibilidades abertas pelo pensamento heideggeriano impede sua apreensão unívoca e produz avaliações radicalmente opostas, pelas quais Heidegger aparece como grande pensador ou charlatão, renovador ou adversário da ciência, intérprete visionário ou ortodoxo da arte, restaurador ou deformador dos termos clássicos e promotor de uma renovação teológica ou representante de um ateísmo irreverente. 4. A polarização em torno da obra heideggeriana dificulta sua localização acadêmica porque, apesar de sua influência decisiva na configuração da filosofia do século XX, permanece a avaliação de que ela representaria um rebaixamento ou uma deformação da atividade filosófica, evidenciando um conflito acerca dos próprios critérios pelos quais se reconhece a legitimidade do filosofar. 5. A radicalidade heideggeriana situa seu pensamento no limite da filosofia ocidental e lhe confere o caráter de uma interrupção decisiva em seu percurso, de modo que sua compreensão exige reconhecer uma transformação das possibilidades do pensar que impede classificá-lo simplesmente como mais um representante das categorias tradicionais. 6. As classificações de Heidegger como filósofo da vida, existencialista, antropólogo filosófico, neokantiano, ontólogo, hermeneuta ou fenomenólogo simplificam o acesso à sua obra mediante a seleção de uma perspectiva que frequentemente exclui as demais, embora a própria ideia de filosofia nela operante possa exigir uma articulação que não se deixa encerrar em nenhuma dessas designações isoladas. 7. A insuficiência das referências classificatórias tradicionais exige reconsiderar a ideia de filosofia que sustenta o pensamento heideggeriano e explicitar a radicalidade dos estratos que a constituem, compreendendo-os como aspectos entrelaçados e não excludentes que abrem perspectivas em diferentes níveis, ainda que essa articulação contrarie a expectativa de uma classificação fechada e definitiva. **Elementos preliminares** 1. A filosofia autêntica dirige-se ao ser-no-mundo humano em meio aos entes e constitui uma possibilidade da própria vida, realizando-se como sua interpretação originária, embora a tendência da vida a ocultar-se e a compreender-se por determinações estranhas ao seu modo de ser favoreça sua transformação em objeto de uma disciplina teórica; por isso, o acesso filosófico originário requer recuperar o âmbito ateorético da experiência cotidiana e sua facticidade mediante uma compreensão hermenêutica que se aproprie do vivido sem separá-lo do movimento da vivência. 2. O percurso iniciado em 1919 com a hermenêutica da facticidade, apesar de sua ruptura com a filosofia tradicional, encaminha-se para uma problemática ontológica que surpreende parte de seus primeiros interlocutores, pois a interpretação da vida fáctica desperta a necessidade de reformular a pergunta pelo ser, convertida no programa fundamental de Ser e tempo, publicado em 1927. 3. A passagem da hermenêutica da facticidade à pergunta pelo ser suscita a dificuldade de conciliar a radicalidade inicial com uma interrogação herdada da tradição ontológica, exigindo esclarecer se há uma inconsistência entre esses momentos, se a destruição da ontologia permite articulá-los ou se a interpretação da facticidade transforma a questão tradicional e torna acessível aquilo que nela permaneceu impensado. 4. A inclusão do pensamento onto-histórico posterior amplia a dificuldade de compreender a continuidade da obra heideggeriana, pois à possível ruptura entre hermenêutica da facticidade e ontologia fundamental acrescenta-se a passagem desta última ao caminho designado como viragem (Kehre), alimentando a controvérsia sobre a existência de um único percurso ou de dois ou três momentos filosóficos substancialmente distintos. 5. A relação entre radicalidade e tradição pode ser esclarecida pela hipótese de que a pergunta herdada pelo ser se transforma tão profundamente em sua reformulação que passa a conter o núcleo da ruptura heideggeriana com o pensamento ocidental, permitindo compreender a ontologia fundamental como uma articulação que incorpora retrospectivamente a hermenêutica da facticidade e antecipa possibilidades do posterior pensamento onto-histórico. 6. A pergunta heideggeriana pelo ser entrecruza três dimensões: a indeterminação imediata da vida, acessível por uma hermenêutica da cotidianidade; a tematização determinada que se constitui como investigação metafísica da entidade do ente; e a consideração do próprio acontecer dessa tematização, pela qual se anuncia uma abordagem fenomenológica da presença que ultrapassa a simples determinação do ente e de sua entidade. **Ponto de partida: as coisas** 1. O trato cotidiano com as coisas constitui o ponto de partida mais imediato da investigação, desde que não se antecipe uma definição de coisa que já imponha uma direção interpretativa, pois caminhar, escrever, recordar ou contemplar revelam inicialmente uma cadeia de comportamentos cuja aparente trivialidade foi desconsiderada pela tradição; nesse horizonte, a compreensão husserliana da consciência como fluxo intencional de vivências permite a Heidegger reconhecer, além da orientação para objetos, o caráter ontológico de um ente que já se encontra em meio a outros entes e absorvido em seus comportamentos. 2. A indeterminação das coisas cotidianas não designa uma realidade inacessível situada além dos limites da finitude, mas a regularidade e a imediatez de um encontro no qual elas ainda não foram isoladas como objetos cognoscíveis, apresentando-se originariamente como aquilo de que o Dasein se ocupa em sua existência prática, em consonância com o sentido inicial de coisa como assunto, questão ou causa. 3. A familiaridade prática com uma coisa não implica sua determinação isolada, porque todo comportamento ateorético se realiza em uma cadeia de remissões na qual algo se compreende a partir de outros elementos e do horizonte de sua utilização, de maneira que a cadeira usada para sentar somente se torna objeto de uma determinação específica quando é destacada desse contexto e interpretada, por exemplo, como móvel, artefato de madeira, inovação ou peça de museu. 4. A relação constante com as coisas revela primeiramente o estar ocupado e somente de maneira derivada envolve determinações epistemológicas ou ontológicas, de modo que a investigação moderna dos limites do conhecimento já parte de coisas isoladas e diferenciadas como objetos, deixando de reconhecer a cotidianidade originária como problema filosófico e reduzindo-a, quando considerada, à frequência das relações entre o ser humano e uma soma de entes separados. 5. A interpretação da experiência do mundo circundante, desenvolvida desde as primeiras preleções heideggerianas e aprofundada na análise da mundanidade em Ser e tempo, recupera o sentido grego de prágmata como coisas da ocupação prática e conduz à investigação ontológica do Dasein que existe em meio a elas, tornando necessário esclarecer por que essa descoberta da imediatez prática foi abandonada em favor da concepção teórica do ser humano como ente simplesmente dado diante de outros entes. **O esquecimento do esquecido** 1. O encobrimento da existência pertence ao próprio modo de ser do Dasein, cuja tendência é compreender-se a partir dos entes com os quais se relaciona imediata e constantemente, razão pela qual a dificuldade de apreender diretamente o existir não constitui uma deficiência cognitiva, mas exige uma interpretação fenomenológico-hermenêutica capaz de reconhecer o caráter derivado do conhecimento teórico e de desfazer os filtros que ocultam a simplicidade originária do ser-no-mundo. 2. A existência significa estar colocado para fora e, por isso, não se reduz à persistência de algo simplesmente dado, mas a um estar fora de si em meio aos entes cuja familiaridade induz o existente a assimilar-se àquilo que ele não é; desse encobrimento resulta a busca de um centro ou suporte — materialidade, extensão, vida ou Deus — que determine sua estrutura, desviando a investigação para a constituição entitativa do ser humano e relegando ao esquecimento a possibilidade de interrogá-lo a partir de seu próprio modo de existir. 3. A assimilação do existente ao ente simplesmente dado não elimina a existência, porque até mesmo o comportamento de perguntar manifesta o estar fora de si que a busca de um fundamento tende a ocultar ao privilegiar o objeto da pergunta, de maneira que o esquecimento da excentricidade modifica sua apreensão sem transformar seu modo de ser, mantendo a existência como existência esquecida. 4. O desenvolvimento ocidental da investigação dos entes simplesmente dados ampliou extraordinariamente suas possibilidades de descoberta e produziu benefícios e prejuízos para a vida humana, mas sua intensificação técnica aprofunda o afastamento em relação ao existir esquecido ao alimentar a expectativa de encontrar um centro capaz de determinar integralmente o ser humano, submetendo a natureza e a vida ao controle e à manipulação e elevando a humanidade à posição de um novo deus. 5. A meditação heideggeriana procura reconduzir a atenção ao existir encoberto sem competir com o avanço técnico nem desprezar suas conquistas, pois a técnica pressupõe um ocultamento anterior que se intensifica na modernidade, quando o cogito cartesiano consolida a razão como centro humano e favorece a vontade de calculabilidade de todos os entes, inclusive daquele que calcula, culminando em uma organização técnica da experiência na qual relógios, telefones e computadores regulam ritmos, diálogos e atividades e a segurança digital passa a substituir a confiança no mundo familiar. 6. O caráter existente do ser humano permanece irredutível ao descobrimento técnico porque sua compreensão pertence a outro caminho, cujo esquecimento não pode ser absoluto, uma vez que a própria possibilidade de reconhecê-lo exige sinais e acenos preservados no existir, embora a longa familiaridade com os entes simplesmente dados e o soterramento da excentricidade tenham enfraquecido a capacidade de perceber tanto o esquecido quanto seu próprio esquecimento. 7. A metafísica constitui o processo de soterramento que concentra a interrogação na entidade do ente, enquanto a ontologia fundamental procura articular o caráter hermenêutico e o caráter entitativo do Dasein pela transcendência, entendida como o movimento no qual ele ultrapassa os entes em direção à abertura do ser e retorna a eles em sua ocupação cotidiana, distinguindo-se nesse movimento o Dasein que ultrapassa, a abertura para a qual se dirige e o ente ultrapassado. 8. A hermenêutica da cotidianidade remete, assim, a uma metafísica do Dasein na qual a entidade do ente se compreende mediante a abertura do ser, pois o trato ocupado com as coisas exige o movimento de ultrapassagem próprio da existência, tornando inteligível a caracterização da ontologia fundamental, em Kant e o problema da metafísica, como uma metafísica do Dasein. 9. A autocrítica heideggeriana do final dos anos 1920 conduz ao pensamento onto-histórico, que desenvolve o caráter estritamente fenomenológico da hermenêutica do Dasein e questiona sua determinação mediante a transcendência, reconhecendo que tanto a dimensão cotidiana da coisa como ente quanto sua tematização metafísica como entidade remetem ao âmbito da presença. 10. A fenomenologia em sentido estrito, posteriormente designada simplesmente como pensar, dirige-se à presença enquanto tal e não à apreensão da entidade das coisas, desenvolvendo-se nos trabalhos posteriores a Ser e tempo a partir da descoberta do caráter histórico da entidade e recebendo do poetizar acenos que favorecem a abertura desse caminho. 11. O pensar da presença exige uma criação que ultrapassa a relação de dependência entre ente e entidade, porque pensador e poeta dizem pela primeira vez o não dito ao responderem ao que advém, tornando manifesto o caráter histórico das configurações pelas quais o ente aparece; a presença, entretanto, somente se mostra em sua recusa, cujos testemunhos são as interpretações ocidentais da entidade como produção, criação divina, objetualidade ou consistência, de maneira que pensar significa reconhecer como pressuposto histórico aquilo que a metafísica toma simplesmente como posto e operante em seu horizonte. 12. As dimensões da pergunta heideggeriana permitem compreender aquilo com que se lida como algo na cotidianidade, como posto na metafísica e como pressuposto no pensar, pois o acesso cotidiano encontra coisas significativas, enquanto a investigação metafísica explicita a entidade como condição de possibilidade desse encontro e determina sua posição tanto verticalmente, pela transcendência, quanto horizontalmente, pelas modalidades históricas de aparecimento como prágmata, produto, criação divina ou objeto. 13. O pensar procura tematizar a presença que se subtrai à apresentação do ente mediante uma criação que acolhe o advento sem se limitar a copiar o já dado, exigindo uma atitude de escuta e uma disposição afetiva aberta à interpelação e aos acenos do esquecimento, de modo que a experiência fundamental alcança uma compreensão histórica profunda do ser-no-mundo, para a qual Nietzsche e Hölderlin constituem referências decisivas. 14. A dificuldade de acesso ao pensar decorre de seu afastamento radical dos modos habituais de compreensão, pois sua classificação depreciativa como poesia, mística, mito ou deformação o transforma previamente em algo distinto daquilo que procura realizar, repetindo a incompreensão que ocorre quando uma visão de mundo historicamente determinada julga uma criação exclusivamente pelos pressupostos vigentes e impede que o advento encontre lugar fora do horizonte já estabelecido. 15. A criação do pensador torna-se testemunho da abertura dos pressupostos históricos que condicionam a entidade e o trato cotidiano com os entes, mas, ao ser incorporada como tradição, tende a perder sua abertura originária e a converter-se em algo simplesmente aceito dentro dos limites metafísicos do posto, embora conserve a possibilidade de ser reaberta por uma nova criação interpretativa, como ocorre nas relações de Hegel e Heidegger com a tradição. **Conclusão** 1. As coisas se oferecem inicialmente ao saber prático e ateorético da ocupação cotidiana, podem ser tematizadas metafisicamente em sua entidade como condição de possibilidade de seu aparecimento e, por fim, pensadas a partir da retenção histórica da presença que configura cada época, mostrando que a entidade não é uma determinação atemporal, mas um acontecimento relacionado à subtração da presença, pelo qual as coisas se apresentam, por exemplo, como objetos na modernidade e como disponibilidades (Bestände) na época técnica contemporânea. 2. A filosofia heideggeriana articula o encontro hermenêutico com algo, a determinação metafísica desse algo em sua entidade posta e a compreensão fenomenológica de que essa entidade está historicamente pressuposta a partir da recusa originária da presença, de maneira que a familiaridade cotidiana, a tradição filosófica e a criação do pensador e do poeta constituem modos distintos de acesso à mesma coisa. 3. A articulação das dimensões hermenêutica, metafísica e fenomenológica das coisas concentra a simplicidade e a complexidade do pensamento heideggeriano e esclarece sua capacidade de interpelar diferentes âmbitos da experiência, pois o convite a pensar transforma os modos habituais de ver, questiona convicções profundamente enraizadas e pode abrir novas perspectivas no interior da época técnica contemporânea. {{tag>Xolocotzi fundamento abismo}}