===== EREIGNIS (2005:I.14) ===== //[VOLPI, Franco. Guida a Heidegger. Roma: Editori Laterza, 2018]// Quanto ao caráter de acontecimento (Ereignis) do ser, numa anotação à margem da palavra ereignet utilizada na passagem acima citada da Carta sobre o "Humanismo", adverte que Ereignis indica o "acontecimento da apropriação do ser e do homem" e tem sido "desde 1936 a palavra-guia do meu pensamento". E com a sua cada vez mais obstinada atenção a este problema, multiplicam-se as tentativas de encontrar uma dicção e uma terminologia adequadas para corresponder ao ser e ao seu peculiar modo de se manifestar: as diferentes soluções adoptadas testemunham o carácter "experimental" das tentativas feitas e a dificuldade do empreendimento com que aqui se aventura. (...) Mas é sobretudo na conferência tempo e Ser, de 1962, na qual Heidegger retoma o tema que deveria ter sido tratado na parte inédita de Ser e Tempo, que é apresentada uma reflexão global sobre o ser como Ereignis e sobre o seu enigmático dar-se (Es gibt) juntamente com o tempo. O ser é pensado como a dimensão que, em princípio, escapa às maquinações do homem, mas que, ao mesmo tempo, está com ele numa relação essencial. Na abertura formada pela clareira do ser, abre-se o espaço-tempo em que se situa o ser do homem (Da-sein). E a clareira do ser não é sempre idêntica, mas muda de acordo com a ocorrência e a sucessão das épocas da história, que correspondem às diferentes maneiras pelas quais, de tempos a tempos, o ser é dado e retirado na totalidade dos seus destinos. O acontecimento do ser pode então ser chamado "epocal" no sentido que a palavra grega epoche dá a este adjetivo: no seu dar, retém e retrai segundo o movimento da sua verdade, da sua a-letheia, do seu desvelamento e velamento. Aqui, porém, o que Ereignis faz acontecer parece ser, mais do que a co-parceria do ser e do homem, o "mundo" como o "conjunto dos Quatro", "Mortal e Divino, terra e Céu". Aqui Ereignis, de onde provêm as diferentes épocas históricas, é "ele próprio sem história, melhor: sem destino". A ênfase temática desloca-se assim do título Ser e Tempo para o novo título que Heidegger indica para o seu próprio pensamento, que é Clareira e Presença (Lichtung und Anwesenheit). ---- * Logo após a publicação de Ser e tempo, a Kehre altera o enfoque da questão do ser ao abandonar o caminho da analítica da existência e exigir que o ser seja pensado não como ser do ente, mas em si mesmo, na diferença radical em relação ao ente e nos modos de sua referência ao homem. * Kehre como transformação do modo de colocar a questão do ser. * Ser pensado em si mesmo e não como ser-do-ente. * Diferença radical entre ser e ente. * Modos do referir-se do ser ao homem. * A Kehre implica buscar um modo de pensar que corresponda à natureza eveniencial do ser, ao seu dar-se e subtrair-se segundo destinações histórico-epocais em que a humanidade se encontra e às quais pode corresponder com maior ou menor essencialidade. * Natureza eveniencial do ser como dar-se e retirar-se. * Destinações histórico-epocais como quadro do acontecer do ser. * Humanidade como situada nessas destinações. * Correspondência mais ou menos essencial a tais destinações. * Na Carta sobre o “humanismo”, o pensar é definido como pensar do ser em duplo sentido, pois pertence ao ser enquanto é apropriado pelo ser e, ao mesmo tempo, escuta o ser ao pertencer-lhe, com a formulação de que o pensar é feito-avir (ereignet) pelo ser e se põe à escuta do ser [GA9:316]. * Duplo sentido do genitivo em “pensar do ser”. * ereignet como fazer-avir do pensar pelo ser. * Pertencimento do pensar ao ser. * Escuta do ser como traço do pensar pertencente ao ser. * Quanto ao caráter de Ereignis do ser, uma anotação marginal ao termo ereignet na Carta sobre o “humanismo” define Ereignis como “evento de apropriação de ser e homem” e como palavra-guia do pensamento desde 1936, ano de início dos Contributos à filosofia, enquanto a insistência no tema multiplica tentativas de dicção e terminologia que evidenciam o caráter experimental e a dificuldade da empresa. * Ereignis como apropriação de ser e homem. * 1936 como marco ligado ao início dos Contributos à filosofia. * Procura de dicção e terminologia adequadas ao modo de manifestar-se do ser. * Caráter experimental das soluções e dificuldade persistente. * Um indício célebre das dificuldades do percurso aparece no Posfácio da prolusão Que é metafísica?, pois a edição de 1943 afirma que o ser é essencialmente sem o ente enquanto o ente jamais é sem o ser, mas a edição de 1949 altera a formulação para sustentar que o ser jamais é essencialmente sem o ente e que nenhum ente é sem o ser. * Posfácio de Que é metafísica? como locus da reformulação. * Edição de 1943 e a assimetria ser/ente. * Edição de 1949 e a dupla impossibilidade (ser sem ente; ente sem ser). * Reformulação como sintoma de impasse e reajuste conceitual. * Nos Contributos à filosofia e em tratados inéditos dos anos 1940, recorre-se à grafia arcaica Seyn para suspender o legado metafísico do termo Sein, expediente usado publicamente em A essência da verdade (texto de 1930 publicado em 1943) e confirmado em Aus der Erfahrung des Denkens, composto nos anos da Carta mas editado apenas em 1954. * Seyn como sinal de suspensão de heranças metafísicas. * Contributos à filosofia e tratados inéditos dos anos 1940. * A essência da verdade: composição em 1930 e publicação em 1943. * Aus der Erfahrung des Denkens: redação nos anos da Carta e edição em 1954. * Em Über “Die Linie” (1955), resposta ao texto de Ernst Jünger e depois retitulado Zur Seinsfrage, a grafia Sein é cruzada por uma barratura para indicar tanto o abandono de representações metafísicas do ser quanto o esforço de pensar, na radura do ser, o Geviert como relação entre Terra e Céu, Divinos e Mortais, tema privilegiado nas últimas conferências. * 1955: Über “Die Linie” e retitulação Zur Seinsfrage. * Ernst Jünger como interlocutor do escrito. * Barratura de Sein como gesto anti-representacional. * Geviert: Terra e Céu, Divinos e Mortais, com centralidade nas últimas conferências. * Identidade e diferença (1957) tematiza o ser como Ereignis ao aproximá-lo de Logos e Tao e ao concebê-lo como evento apropriador em que o ser se dá em co-pertença ao homem, mantendo a diferença ontológica ser/ente de modo que, no Ereignis, coexistem Unter-Schied e Austrag, descritos como uma diferença que, enquanto transmissão e advento, compõe ambos ao desvelar e velar [GA11:57]. * 1957: Identidade e diferença como texto-chave. * Aproximação de Ereignis a Logos e Tao. * Co-pertença entre ser e homem sem dissolver ser/ente. * Unter-Schied e Austrag como desvelar e velar no acontecimento. * A conferência Tempo e ser (1962) oferece uma reflexão de conjunto sobre o ser como Ereignis e sobre o seu enigmático Es gibt em coimplicação com o tempo, ao pensar o ser como dimensão que se subtrai às maquinações humanas e, contudo, mantém com o homem um vínculo essencial. * 1962: Tempo e ser como retomada de uma temática prometida em Ser e tempo. * Ereignis e Es gibt articulados com o tempo. * Ser como dimensão irredutível ao controle humano. * Relação essencial do ser com o homem. * Na abertura da radura do ser abre-se o espaço-tempo em que se situa o Dasein do homem, e como a radura não permanece idêntica, ela varia conforme o acontecer e o suceder das épocas históricas, correspondentes aos modos em que o ser, em suas destinações, se dá e se retira. * Radura como abertura de espaço-tempo. * Dasein situado no espaço-tempo da radura. * Mutabilidade da radura conforme épocas. * Destinações como modos de dar-se e retirar-se do ser. * O evento do ser pode ser dito epocal no sentido de epochè, pois ao dar-se ele se detém e se retrai segundo o movimento de sua verdade como a-letheia, isto é, segundo o desvelar-se e o velar-se. * Epocalidade entendida a partir de epochè. * Detenção e retração no próprio dar-se. * Verdade como a-letheia. * Desvelamento e velamento como dinâmica do evento. * Nesse ponto, o que o Ereignis faz acontecer parece ser, mais que a co-pertença de ser e homem, o mundo como Geviert, Mortais e Divinos, Terra e Céu, de modo que o Ereignis, de que provêm as épocas, é dito sem história ou melhor sem destino, deslocando o acento temático de Ser e tempo para o título Radura e presença (Lichtung und Anwesenheit). * Mundo como Geviert: Mortais e Divinos, Terra e Céu. * Ereignis como origem das épocas e, ao mesmo tempo, sem história e sem destino. * Deslocamento temático do eixo Ser e tempo. * Radura e presença (Lichtung und Anwesenheit) como novo título indicativo do pensar. * A esse pensar do ser corresponde nova modificação diante da metafísica, pois já não se trata de desconstruí-la para reconstrução radical como na ontologia fundamental, nem apenas de além-passá-la (Überwindung) ao expor pressupostos e reinscrevê-la na história do ser, mas de um superamento como Verwindung que a deixa ao próprio destino sem pretender transformá-la, superando-a como se supera uma doença e “engolindo” trabalhos e padecimentos como “bocados amargos”. * Ontologia fundamental: desconstrução visando reconstrução radical. * Überwindung como além-passagem por exposição de pressupostos e reinscrição histórica. * Verwindung como deixar a metafísica ao seu destino. * Verwindung como superação análoga a cura e a engolir padecimentos. {{tag>Volpi Ereignis}}