====== Verfallen ====== LDMH ETFV: dévalement; STMS: decadência; BTMR: fallenness * Caráter existencial e neutralidade valorativa: O //Verfallen// é um existencial, uma estrutura ontológica do //Dasein// que descreve seu movimento inerente de "descer a ladeira" para o mundo e para o impessoal (//das Man//). Heidegger insiste que não há aqui "nenhum juízo de valor negativo", diferenciando sua análise de condenações morais ou religiosas do fenômeno (como o "divertissement" pascaliano). A analítica existencial assume uma postura descritiva e neutra perante este traço inevitável da existência, que não é uma corrupção ou queda a partir de um estado superior, mas uma modalidade constitutiva do ser-no-mundo. O //Verfallen// é a tendência do //Dasein//, em seu ser-lançado (//Geworfenheit//), de se entender e interpretar a si mesmo a partir do ente intramundano, perdendo-se nas ocupações cotidianas e na opinião pública. * Ligação com o ser-lançado e a impropriedade: O //Verfallen// está intimamente ligado à facticidade do ser-lançado. No //fallen// (cair) de //Verfallen// ressoa a condição de ter sido "jogado" na existência. Incapaz de suportar o peso e a estranheza de seu ser próprio, o //Dasein// "cai" para o mundo, buscando segurança e familiaridade no âmbito das coisas e das interpretações correntes. Este movimento funda a dominância da impropriedade (//Uneigentlichkeit//) na cotidianidade: o //Dasein// fala, vê e age como "se faz", fugindo de si mesmo no "turbilhão do mundo". O //Verfallen// não é, portanto, um acidente, mas a maneira inicial e mais constante pela qual o //Dasein// é seu "aí". * Dinâmica do //Verfallen//: sedução, tranquilização e alienação: Heidegger descreve o //Verfallen// através de três momentos dinâmicos: a sedução (//Versucherisch//), a tranquilização (//Beruhigend//) e a alienação (//Entfremdend//). O mundo cotidiano "seduz" o //Dasein// com suas possibilidades fáceis e imediatas; em seguida, o "tranquiliza" com a sensação de que tudo é compreensível e manejável; finalmente, o "aliena" de seu poder-ser mais próprio, fazendo-o crer que a impropriedade é a autenticidade. Este processo não é uma degenerescência moral, mas o modo como o //Dasein//, em sua facticidade, inicialmente e na maioria das vezes, encontra uma "morada" e um "chão"—ainda que ilusório—em meio à estranheza do ser. * Significado ontológico e possibilidade da propriedade: Longe de ser apenas negativo, o //Verfallen// é a condição de possibilidade para a propriedade (//Eigentlichkeit//). Só porque o //Dasein// está sempre já em //Verfallen//, ele pode ser chamado de volta a si pelo apelo da consciência (//Gewissen//). A propriedade não é um estado puro anterior à queda, mas uma modificação do //Verfallen//, uma retomada resoluta (//Entschlossenheit//) do ser-lançado a partir da abertura ao poder-ser mais próprio. Analisar o //Verfallen// permite, assim, compreender a tensão constitutiva da existência entre a fuga e o retorno a si, entre a dispersão no mundo e a recolha na finitude, sem recair em dualismos metafísicos ou moralismos.