====== Sorge ====== LDMH STMS: cura, preocupação; BTMR: care; ETFV: souci == Introdução: A Recepção e os Mal-entendidos == Desde sua publicação, "Ser e Tempo" despertou enorme interesse, mas também gerou interpretações apressadas e equívocos significativos. Um dos conceitos mais mal compreendidos foi justamente o de "souci" (Sorge), muitas vezes reduzido a uma ideia de "preocupação" ou "angústia constante". Heidegger nunca afirmou que o Dasein (ser-aí) estaria permanentemente "atolado em preocupações", embora o termo possa abarcar também momentos de aflição extrema — como no famoso grito de Egmont: "Ó preocupação! Preocupação! Tu que antecipas o assassinato antes do tempo, solta tua garra!". O erro das primeiras leituras foi dramatizar excessivamente o conceito, sem perceber que ele faz parte da linguagem cotidiana alemã, onde "sorgen" significa simplesmente "cuidar de", "ocupar-se com", como em: "Ela cuida da mãe idosa" ("Sie sorgt für ihre Mutter"). Isso inclui desde ajudar a mãe a caminhar até garantir que ela não falte nada — ações corriqueiras, não necessariamente trágicas. == O "Souci" (Sorge) como Estrutura Existencial == Heidegger não parte da consciência (como Descartes ou Husserl), mas da existência concreta. Enquanto Husserl dizia que "toda consciência é consciência de algo", Heidegger radicaliza: existir é "pensar nisso" (y penser). O Dasein não é um "pensador" abstrato, mas um ser que se projeta, que cuida, que se ocupa — seja da morte, dos impostos, das plantas, do casamento ou de arrumar o quarto. O "souci" (Sorge) é, portanto, a estrutura fundamental do Dasein, sintetizada por Heidegger na fórmula: "Sich-vorweg-schon-sein-in-(der-Welt)-als-Sein-bei" ("ser já adiante de si mesmo no mundo como ser junto a..."). Isso significa que o Dasein é sempre projetado para o futuro, já lançado no mundo e em relação com os entes que encontra nele. == A Subversão da Consciência e a Intencionalidade Ontológica == Heidegger não nega a intencionalidade husserliana (a ideia de que a consciência é sempre "consciência de algo"), mas a radicaliza ontologicamente. Enquanto Husserl fica no plano da consciência, Heidegger pergunta: o que significa, existencialmente, que o Dasein "se ocupa" do mundo? Exemplo cotidiano: Uma filha que cuida da mãe idosa não está apenas "pensando" nela, mas agindo no mundo, projetando-se, assumindo responsabilidades — isso é o "souci" em ação. Diferença crucial: O "souci" não é um estado psicológico (como a angústia ou a preocupação), mas a própria estrutura do ser-no-mundo. Não é um "acidente", mas a essência do Dasein. == O "Souci" na Arte e na Cultura Popular == Heidegger não inventou o termo, mas o resgatou da linguagem comum e da tradição filosófica (como a "cura" latina). Ele destaca que até mesmo obras de arte e literatura popular — como o romance "Frau Sorge" (1887) ou a escultura "A Mulher Preocupada" (1910) de Ernst Barlach — captam algo dessa dimensão humana. Porém, para Heidegger, não se trata de um "tipo humano", mas de um existencial: uma estrutura fenomenológico-hermenêutica que revela como o Dasein existe. == Conclusão: O "Souci" como Modo de Ser == O "souci" (Sorge) não é uma emoção passageira, mas o modo como o Dasein é. Ele abrange: * O projeto (ser adiante de si mesmo), * A facticidade (já ser no mundo), * A relação com os entes (ser junto a...). Heidegger desdramatiza o termo sem torná-lo banal: cuidar, ocupar-se, projetar-se — isso é o "souci", a essência do ser-aí.