====== Si-mesmo (Selbst) ====== LDMH * O //Selbst// como idiotismo alemão intraduzível: O termo alemão //Selbst// não é um conceito filosófico técnico, mas uma palavra comum cuja força e uso idiomático não possuem equivalente direto em francês. Expressões como //Selbst ist der Mann// ("o si-mesmo é o homem", no sentido de "desenrasca-te sozinho") mostram sua carga de autonomia e exigência. Traduzi-lo por "si-mesmo" (fr. //soi-même//) é uma solução deficiente, pois introduz um "si" (//sich//) ausente no original e enfraquece a ênfase no "mesmo" (//selbst//), que em alemão pode funcionar sozinho, substantivado e acentuado. A poesia de Herder ilustra este contraste: enquanto o poema "O Eu" (//Das Ich//) recusa o eu como pretensão vazia, o poema "Si-mesmo" (//Selbst//) exalta o "mesmo" como aquilo que há de mais próprio e inalienável ("Esquece teu eu, nunca te percas a ti mesmo!"). Esta consistência do //Selbst// resiste à transposição para línguas que, como o francês, exigem o reforço de um pronome (//toi-même//, //lui-même//). * O si-mesmo como propriedade (//Eigentlichkeit//) e não como eu: Em Heidegger, o //Selbst// é explicitamente distinguido do "eu" (//Ich//) subjetivo e cartesiano. No curso sobre Nietzsche, ele escreve: "O si-mesmo [//das Selbst//], a propriedade, não é o 'eu'". A propriedade (//Eigentlichkeit//) é o que cada //Dasein// tem e é em próprio, sua tarefa irredutível e insubstituível (como a de Racine escrever //Berenice//). O homem não "é" simplesmente, mas "tem a tornar-se" aquele que é, apropriando-se de suas possibilidades mais próprias. O si-mesmo não é, portanto, uma substância ou um núcleo identitário pré-dado, mas a conquista de uma relação autêntica consigo mesmo na abertura ao ser. Como observa F. Fédier, a amizade convida menos a "ser si-mesmo" do que a "pôr-se em condições de ser si". * O si-mesmo na analítica do //Dasein//: Em //Ser e Tempo//, o si-mesmo é um modo de ser do //Dasein//, não uma propriedade ôntica. Ele emerge na resolução (//Entschlossenheit//) ante o apelo da consciência (//Gewissen//), que interpela o //Dasein// para fora da dispersão no //Man// (o impessoal). O si-mesmo próprio (//eigentliches Selbst//) não é um eu isolado, mas o //Dasein// assumindo sua facticidade e sua finitude, tornando-se o "aí" (//Da//) da abertura do ser. Esta conquista não é um fechamento em si, mas uma abertura mais originária. O si-mesmo impróprio (//uneigentliches Selbst//), ao contrário, é o //Dasein// entendendo-se a partir dos outros e das ocupações mundanas, perdendo-se no anonimato. * Consequências para a tradução e o pensamento: A dificuldade de traduzir //Selbst// revela uma diferença ontológica entre as línguas e os modos de pensar. O "si-mesmo" heideggeriano escapa às categorias da subjetividade moderna: não é o ego transcendental, nem a pessoa psicológica, nem o indivíduo social. Ele designa a possibilidade de o //Dasein//, em sua existência, tornar-se o lugar (o //Da//) onde a questão do ser pode ser recolocada. Qualquer tradução que o assemelhe a um "eu profundo" ou a uma "identidade autêntica" trai, portanto, seu sentido. O //Selbst// é a marca da finitude e da responsabilidade singular do existir, aquilo que, em cada um, responde ao apelo do ser—um apelo que não diz "eu", mas convoca a ser o que se é.