====== Desobstrução (Destruktion) ====== LDMH * Natureza e alcance da tarefa desobstrutiva: A //Destruktion// heideggeriana, introduzida no §6 de //Ser e Tempo//, não é uma demolição negativa (//Zerstörung//) da tradição filosófica, mas uma tarefa positiva e fenomenológica de desobstrução. Seu objetivo não é corrigir, restaurar ou invalidar os pensadores do passado, como Kepler fez com Copernic, mas desfazer as camadas de interpretação e os preconceitos que obstruem o acesso à questão originária que os animava. A desobstrução é uma "apropriação produtiva" do legado filosófico, que visa libertar a tradição de suas cristalizações dogmáticas para, paradoxalmente, levá-la à sua verdade mais própria e, ao mesmo tempo, colocar-nos em confronto vivo com ela. Esta operação exige uma leitura "com olhos novos", capaz de atravessar os dois milênios de sedimentação doutrinal que, frequentemente, mumificaram o pensamento grego. * A obstrução como fenômeno tenaz: O termo "desobstrução" evidencia o radical "obstrução", que no francês aparece na locução //faire obstruction// — um bloqueio tenaz e quase perfurante, que não cede a meios convencionais. A tradição metafísica funciona como tal obstrução: não é um simples obstáculo a ser removido, mas uma configuração de sentido que se interpõe e dificulta o retorno às experiências originárias que a fundaram. Os preconceitos herdados (a "preocupação" cartesiana) opõem uma resistência opiniática à reflexão. A desobstrução, portanto, não é uma rejeição da metafísica, mas um engajamento crítico e liberador com ela, reconhecendo-a como a herança a partir da qual—e contra a qual—a questão do ser deve ser refeita. * A desobstrução como operação fenomenológica: Qualificar esta tarefa de fenomenológica é quase um pleonasmo, pois a própria máxima "às coisas mesmas" (//zu den Sachen selbst//) é, em seu princípio, desobstrutiva. A fenomenologia exige um retorno às origens da experiência, um despojamento das teorias e categorias pré-concebidas que obstruem o acesso ao fenômeno. A leitura desobstrutiva dos gregos por Heidegger exemplifica isto: ao ler Platão ou Aristóteles, ele não procura reconstituir um sistema doutrinal, mas reabrir a interrogação que os movia, libertando conceitos como //aletheia// (verdade) e //logos// de suas interpretações latinas posteriores (//veritas//, //ratio//). Esta abordagem não é uma simples restauração arqueológica (como desvelar uma sinopia sob uma fresca), mas um esforço para fazer com que o passado nos interpele novamente, colocando-nos "às voltas com ele" no nosso hoje. * Consequências para a prática do pensamento: A desobstrução implica uma mudança de atitude perante a história da filosofia. Ela nega tanto a atitude antiquária, que coleciona opiniões passadas, quanto a atitude "moderna" que pretende superá-las por um progresso linear. Em vez disso, ela instaura um diálogo (//Auseinandersetzung//) conflituoso e produtivo com os pensadores, no qual a questão do ser, constantemente recoberta, pode ressoar de novo. Esta prática, embora possa parecer violenta ou "rude", é a condição para que o pensamento não se encerre na repetição de dogmas, mas se mantenha aberto à sua tarefa mais própria: interrogar o sentido do ser a partir da finitude e da historicidade do //Dasein//.