===== TAMINIAUX (2002:18-20) – eudaimonia ===== Se nos voltarmos para o Heidegger de [[termos:s:sein:start|Sein]] und [[termos:z:zeit:start|Zeit]], veremos que, nele, não há privilégio para a atividade de fazer-obra. Pelo contrário, ela é relegada à [[termos:v:vida-dh:start|vida]] cotidiana, que é, por definição, inautêntica, e é explicitamente declarado que essa atividade só pode dar origem a uma historicização inautêntica. De modo mais geral, podemos ver hoje, graças à publicação das palestras de Marburg, antes de Sein und Zeit, que a distinção heideggeriana entre o inautêntico e o autêntico deve muito à distinção que [[termos:a:aristoteles-2:start|Aristóteles]] fez na Ética a Nicômaco entre a atividade de produzir obras ou efeitos — [[termos:p:poiesis-hlex:start|poiesis]] — e a atividade da [[termos:p:praxis-hlex:start|praxis]] entendida como a conduta da existência humana individual entre outras existências. É essa conduta que, de acordo com Aristóteles, torna possível atingir ou não a eudaimonia, a realização individual. Mas somente outros depois dele poderão testemunhar essa conquista e contar a história. Nesse ponto, parece-me que a Ética a Nicômaco deve ser vista em relação ao que a Poética nos ensina sobre o [[termos:m:mythos-hlex:start|mythos]] — em particular, o enredo trágico. Seria possível mostrar que a problemática heideggeriana da autenticidade deriva da problemática aristotélica da eudaimonia, uma palavra que o próprio Heidegger traduz como [[termos:e:eigentlichkeit:start|Eigentlichkeit]]. Em outras palavras, quando Heidegger lida com o que ele chama de historicidade autêntica, ele a relaciona ao fenômeno que Aristóteles chamou de práxis, um fenômeno no qual Aristóteles viu o objeto primário da narrativa historiográfica. No entanto, a praxis no sentido heideggeriano, ou seja, a própria existência do [[termos:d:dasein-hlex:start|Dasein]], entendida em termos de suas características existenciais fundamentais, é atenuada por algumas das características que Aristóteles considerava essenciais, em especial a interlocução e a interação. É claro que o Dasein está com os outros. O [[termos:m:mit:start|mit]]-Sein determina sua condição. Mas ele não é essencialmente interpelado por eles, referido a eles, apresentado a eles. Em última análise, é consigo mesmo que ele fala, ouvindo a voz de seu fôro interior. E, em última análise, a relação que o constitui não é uma relação com o outro, mas uma relação com seu poder-ser mais próprio. Se, em última análise, a praxis, que se tornou a existência autêntica, reside na assunção resoluta da própria mortalidade, é uma questão entre eu e eu, uma intriga egológica que é difícil de ver como poderia ser objeto de historiografia. Isso é ainda mais difícil de ver porque o que está em jogo nessa resolução é a [[termos:v:visao:start|visão]] do ser, uma [[termos:t:theoria-hlex:start|theoria]] ontológica final, um [[termos:b:bios:start|bios]] theoretikos como tal que se rebela contra a historiografia. Portanto, aqui encontramos uma dificuldade semelhante àquela que mencionei em relação à proclamação de Husser da archontische [[termos:f:funktion:start|Funktion]] der Philosophie. Será dito que, no mínimo, a relegação da atividade de fazer a um nível secundário e inadequado permite a Heidegger abordar o problema da história em termos concretos de existência e, consequentemente, livrar-se de hipóstases abstratas como Espírito ou Humanidade. Ao que, sem dúvida, teríamos que responder — mas isso nos levaria longe demais — que Sein und Zeit não é, de forma alguma, a última palavra de Heidegger sobre a história, que a hipóstase abstrata do Espírito reapareceu com força sob sua pena em meados dos anos 30, unida à hipóstase não menos abstrata do Dasein de um povo e ao retorno do conceito de história como uma implementação pela qual alguns criadores privilegiados são responsáveis: o fundador de um estado, o poeta de um povo, o filósofo. Sem mencionar a meditação subsequente sobre a história do ser, que é a dos modos sob as quais o ser se esconde sob as figuras epocais da metafísica até a era contemporânea da [[termos:t:tecnologia:start|tecnologia]], e que, portanto, não é diferente do tema hegeliano do progresso em direção a um fim que somente o pensador está em posição de medir, e que, em última análise, não reconhece outro evento senão o [[termos:e:ereignis:start|Ereignis]] do próprio ser. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}