====== O Cinza – Cor da Contemporaneidade ====== PSCCC ==== Prólogo: Sob vela pálida sobre as águas do acostumado ==== * A investigação parte da intuição de que o cinza, enquanto fenômeno cromático, atmosférico e existencial, ocupa uma posição decisiva e subestimada no pensamento estético e filosófico, sendo inadequadamente reduzido a um valor intermediário entre o preto e o branco. * A sentença de Paul Cézanne — “enquanto não se tiver pintado um cinza, não se é pintor” — funciona como critério implícito de maturidade artística e autoriza uma extensão conceitual segundo a qual pensar o cinza constitui igualmente uma prova de maturidade filosófica. * O cinza reivindicado por Cézanne não se refere a uma técnica isolada, mas a uma compreensão profunda da relação entre cor, luz, matéria e percepção. * Pensar o cinza significa atravessar a zona onde o sensível perde nitidez sem desaparecer, onde a evidência não se converte nem em brilho nem em escuridão. * O cinza não se deixa fixar nem como conceito puro nem como simples metáfora, mas emerge numa região intermediária em que percepção, avaliação e pressuposição se entrelaçam de modo indistinto. * A linguagem cotidiana fornece o indício mais eloquente dessa condição híbrida ao empregar o termo “cinza” de forma não patética e quase furtiva. * O mesmo lexema designa fenômenos meteorológicos, superfícies materiais, estados de ânimo, paisagens sociais, temporalidades históricas e expectativas de futuro. * Essa extensão semântica não decorre de precisão cromática, mas da afinidade atmosférica entre situações heterogêneas. * Sob a designação aparentemente neutra do cinza concentra-se uma constelação densa de sentidos: o indiferente, o impreciso, o indeciso, o monótono, o amorfo, o arquivístico, o envelhecido, o coberto, o esquecido, o sem direção. * O cinza funciona como operador de nivelamento existencial. * Ele não qualifica o excepcional, mas o contínuo, o repetido, o que não se destaca. * A existência humana revela possuir uma meteorologia implícita, não tematizada, na qual o cinza atua como clima predominante. * Falar de um “boletim meteorológico da alma” não constitui metáfora ocasional, mas descreve um regime contínuo de tonalidades afetivas. * Levar a sério essa meteorologia exige reconhecer o cinza como categoria fundamental da experiência. * Toda vida humana visualmente intacta é, desde o início, uma imersão em campos cromáticos, mas essa imersão é precedida por uma diferença mais originária: a distinção entre claro e escuro. * Essa diferença antecede qualquer policromia e estrutura a experiência perceptiva de modo elementar. * O cinza emerge precisamente como zona de transição e tensão entre essas polaridades. * A teoria das cores de Goethe fornece um primeiro acesso sistemático a essa problemática ao pensar o cinza não como ausência, mas como resultado dinâmico entre luz e sombra. * O daltonismo e a acromatopsia revelam de modo dramático a condição originária do cinza como base possível da experiência visual humana. * Nesses casos, o mundo não desaparece, mas se apresenta como campo claro-escuro sem diferenciação cromática. * A fotografia em preto e branco introduz uma transformação histórica da visão ao universalizar uma experiência acromática que reeduca a percepção coletiva. * Mesmo fora dessas condições extremas, a vida cotidiana conhece momentos em que os contrastes cromáticos se dissolvem. * A fadiga, a repetição, o abatimento sinalizam uma regressão perceptiva a um cinza dominante. * O mundo parece então recuar para um fundo neutro, escuro e indiferenciado. * O cinza, pensado filosoficamente, representa o domínio do meio: nem o prazer nem o desprazer, nem o excepcional nem o trágico. * Ele não se identifica com uma cor específica, mas com a própria cotidianidade. * Como ambiente existencial, o cinza configura o mundo enquanto horizonte tácito de hábitos, discursos, expectativas e riscos difusos. * Ele não é o conteúdo do mundo, mas seu pano de fundo permanente. * A fenomenologia reconhece nesse domínio o “mundo da vida”, entendido como reino das obviedades. * O fenomenólogo não busca superá-lo, mas iluminá-lo. * A atenção dirigida ao ordinário revela uma densidade que escapa ao objetivismo científico. * Do ponto de vista histórico-cultural, os séculos XIX e XX testemunham uma profunda recoloração dos valores cromáticos. * A hierarquia tradicional das cores se dissolve progressivamente. * Nenhuma cor conserva legitimamente um estatuto superior. * Esse processo coincide com a dessimbolização geral da cultura. * As cores se desligam de significados fixos. * O princípio do arbitrário do signo se impõe também no domínio cromático. * A antiga supremacia do branco sintetizava uma tradição solar, metafísica e teológica do Ocidente. * O branco funcionava como supercor, epifania estabilizada, índice visual do absoluto. * A modernidade rompe esse regime por meio de uma inversão radical das hierarquias. * O Ancien Régime das cores é abolido. * O branco perde sua inocência simbólica. * O capítulo do leviatã branco em Moby Dick constitui o ponto clássico dessa transvaloração. * O branco aparece associado ao terror, ao vazio e ao ilimitado. * A cor suprema torna-se o ápice do horror. * Essa inversão mantém alta tensão metafísica, sem cair imediatamente na banalização. * Processos posteriores, contudo, conduzem da transvaloração à neutralização. * As cores coexistem sem hierarquia. * Tudo é permitido, nada é obrigatório. * A mistura generalizada não produz um novo absoluto cromático. * O resultado é um cinza fosco, residual, indiferenciado. * O cinza impõe-se assim como cor dominante da contemporaneidade. * Não mobiliza. * Não aterroriza. * Não promete redenção. * Ele expressa o colorido sem cor de uma liberdade esvaziada. * Um horizonte aberto, mas sem direção. * Um mundo disponível, mas sem intensidade. {{tag>Sloterdijk}}