====== §41. O problema da vontade (1982) ====== RSPA * Exposição da tese comum sobre a evolução do pensamento de Heidegger acerca da vontade * Em //Ser e Tempo//, a vontade se enraíza fenomenologicamente no cuidado, na abertura existencial do Dasein * A oposição entre o voluntário e o involuntário corresponde à oposição entre o autêntico e o inautêntico * O fenômeno da vontade é remetido ao da resolução * O Dasein resoluto e autêntico é o Dasein que quer * Ele quer suas possibilidades próprias, que assume resolutamente na autenticidade * A vontade não é uma faculdade, mas um fenômeno concomitante das modificações que permitem alcançar a verdade mais própria * Por outro lado, Heidegger desconstrói as noções normativas de verdade, as quais poderiam servir de ideia reguladora para a resolução * A verdade como desvelamento não fornece nenhum guia para os impulsos possíveis da vontade * A vontade se lança como no escuro * Disso decorre um certo decisionismo subjacente no jovem Heidegger * Após a //Kehre//, esse decisionismo se inverteria em seu contrário, o "deixar-ser" * Não se trataria mais de querer resolutamente para existir autenticamente, mas de "querer não querer" * O objetivo seria desaprender a objetivação, a representação, a apropriação e todo o mecanismo do pensamento essencialmente técnico * A transição do decisionismo ao abandono não ocorreu sem dificuldade * No ensaio "A Origem da Obra de Arte", os temas voluntarista e anti-voluntarista coexistiriam curiosamente * Isso levou Heidegger, mais de vinte anos depois, a acrescentar um suplemento ao ensaio * Nesse suplemento, ele procura reconciliar a oposição entre "querer" e "deixar", remetendo ambos ao "engajamento ek-stático do homem existente no desvelamento do ser" * O esforço repetido de Heidegger em declarar que "a resolução, em //Ser e Tempo//, não é a ação decidida" indica quão problemática e artificial é a harmonização retrospectiva dessas duas posições * Em resumo, a "virada" se acompanharia de uma "abdicação da vontade como afirmação de si diante do ser" * A tese comum é plausível, mas seu silêncio é mais instrutivo sobre o agir como condição do pensamento * Em primeiro lugar, ela nada diz sobre a palavra //Entscheidung// (decisão) em si mesma * O termo deriva de um verbo que significa "separar", "decidir" * A questão é: separar e decidir o quê? * A separação entre dois tipos de questão: a questão metafísica do ser sobre o ser do ente e a questão mais originária sobre a verdade do ser * A primeira é "metafísica", a segunda não o é mais * Trata-se, portanto, de uma separação entre duas eras * As questões inventadas pelo homem não decidem nada de essencial * A separação de duas questões históricas ocorre antes mesmo que o homem possa intervir * A decisão, no sentido de separação e corte, é econômica * Ela põe à parte uma época, uma ordem histórica da presença, um mundo * Uma decisão é, assim, uma questão de destino coletivo, a disjunção entre duas eras econômicas * Toda decisão essencial é não apenas econômica, mas também aleiteológica * O mundo é a clareira das órbitas das injunções essenciais, nas quais toda decisão se ordena * Toda decisão se funda em algo não dominado, oculto e errante * Uma decisão econômica é dita essencial porque arranca a clareira ao oculto, o "mundo" à "terra", a //alétheia// ao //léthe// * Uma constelação de verdade determina as órbitas pelas quais nos chegam as injunções econômicas * O humanismo filosófico é, ele também, produto de uma decisão econômica, não humana * As decisões disjuntivas restringem o espaço das decisões volitivas possíveis * Elas constituem seu limite, mas também sua boa fortuna * O fato de as decisões volitivas serem, em sua essência, estruturadas pelas decisões disjuntivas é indicado na primeira linha da //Carta sobre o Humanismo// * A afirmação "não pensamos de forma suficientemente decisiva a essência do agir" aponta para isso * O agir volitivo pode ser essencial como as decisões disjuntivas * O agir essencial possível após a disjunção entre modernidade e pós-modernidade é aquele que renuncia aos princípios e adere às transmutações econômicas * Esse agir, tornado possível na época da clausura e graças à virada, seria originário * Heidegger distingue claramente entre dois tipos de decisão * Uma decisão essencial, disjuntiva, histórico-destinal, econômica, aleiteológica e não humana precede, como sua condição de possibilidade, todas as decisões humanas ou volitivas * Ela precede todo comportamento, assim como o ser-lançado precede todo projeto * Heidegger chama também esse primeiro tipo de decisão de crise * As decisões "críticas" estabelecem as condições históricas da própria vida * Elas se distinguem das decisões "criadoras" como a vida se distingue do instante * O conceito de decisão em Heidegger é, em primeiro lugar, topológico * Isso torna difícil sustentar um pretenso "decisionismo" * A vontade pode seguir ou não o fluxo econômico * O último princípio epocal, cuja eficácia culmina na técnica, é o ser como vontade * Na época da clausura, seguir as modificações econômicas implica "renunciar voluntariamente ao querer" * Significa demitir voluntariamente a vontade como última marca metafísica, como ser do ente, como marca de nossa época * A condição para estarmos historicamente perto da origem originária é dizer: "Quero o não-querer" * O agir revocatório dos princípios é, mais uma vez, a condição do pensamento * O agir contrário, que visa consolidar os princípios, consiste em não adotar as decisões históricas como nossa condição * Isso é associado à //adikía// de Anaximandro * Heidegger compreende a //díkē// como acordo na presença, entre vinda e retirada * A //adikía// é o desacordo, que consiste no fato de que o que permanece por um tempo procura endurecer-se na permanência, insistindo na pura persistência * No ente "injusto", a permanência não quer ceder seu lugar * A presença se estende, se consolida e se obstina contra a ausência * Essa permanência e persistência são o oposto da emergência originária, incessantemente nova e "ajustada" à ausência * No estágio terminal da filosofia, a vontade humana pode tornar-se absoluta, querendo apenas a si mesma * Ela se revela como o lugar de uma insurreição possível: é a força que procura erigir o si mesmo em si permanente e o tempo em presença constante * Se a "justiça" consiste, para cada coisa, em vir e repartir segundo as economias, a vontade é o nome da rebelião contra essa justiça * A presença eventual será, portanto, questão de pensar, e a presença constante, questão de querer * O agir principial é //hýbris// * Contra essa vontade insurrecional e absoluta, Heidegger busca uma contra-vontade * A simples possibilidade de "querer não querer" coloca o agir diante de uma alternativa * Ou deixar-se levar pelas economias, ou rebelar-se contra elas, imobilizando a presença sobre um suporte fictício * Entre o arrebatamento e o suporte, Heidegger escolhe o primeiro * As decisões volitivas ou se abandonam às decisões disjuntivas que fazem época, ou se endurecem contra elas * A grandeza de Hölderlin e Nietzsche reside em terem ousado entregar-se ao deslizamento que põe fim à idade moderna e talvez à idade metafísica * Nietzsche, no entanto, "não era capaz de discernir o enraizamento histórico da questão metafísica da verdade em geral, nem de suas próprias decisões em particular" * Suas decisões se inscrevem inteiramente na outra decisão, a "decisão que não é tomada por nós, mas que, enquanto história do ser, é pronunciada pelo ser para nossa própria história" * Com Nietzsche, a metafísica "tomou uma guinada decisiva para o acabamento de sua própria essência" * O //Mittenken// (pensamento acompanhante) de Nietzsche mostra que as decisões práticas podem aproximar-se da decisão histórica como suas assíntotas * Esta é a boa fortuna das épocas de transição, quando o abandono prático e a entrega de si às variações se tornam uma possibilidade concreta * O conceito de decisão em Heidegger obriga a dar várias respostas ao problema da vontade * Primeiro, no sentido essencial, uma decisão é a separação ou disjunção histórica entre duas economias da presença * Os reveses da história metafísica, assim como a virada para fora da metafísica, são tais decisões não humanas e aleiteológicas * Segundo, a disjunção contemporânea coloca em contiguidade a economia do último princípio metafísico (a vontade de vontade) e uma economia possível, desprovida de princípio * Economicamente falando, a virada é essa decisão pela qual é demitida a vontade como marca cada vez mais exclusiva da civilização ocidental * Terceiro, as decisões individuais e coletivas, nossos atos voluntários, inscrevem-se sempre no horizonte das decisões econômicas * O homem é "usado" para e por essas incursões cortantes * Quarto, dentro do horizonte assim recortado, o agir é colocado diante de um "ou bem – ou bem" * Os atos voluntários põem-se explicitamente à mercê do devir ou não * Em termos temporais: a presença é vivida como eventual ou como constante * Quinto, desse "ou bem – ou bem" nasce, ou "a filosofia", ou "o pensamento" * A busca voluntária da presença constante deve ser demitida se o pensamento deve tornar-se pensamento da presença eventual * Querer o não-querer é a condição prática para o "pensamento do ser" * O pensamento nasce de dois tipos de condições * Pode-se opor sua condição econômica à sua condição prática como o condicionamento ao a priori * A condição como condicionamento é descrita por Heidegger como a ordenação de um mundo * Esse ordenamento é a condição econômica dentro da qual podemos recolher, abandonar, desconhecer ou pôr em questão as decisões que fizeram história * Dentro dela pode nascer um pensamento que rompe esse condicionamento * A condição prática para o nascimento de um pensamento outro é a transmutação do a priori do "querer" no a priori do "deixar" * Trata-se da transmutação do querer absoluto, que se quer a si mesmo, naquele "querer que, renunciando ao querer, se deixou introduzir naquilo que não é uma vontade" * O agir que rompe o condicionamento metafísico introduzir-nos-ia plenamente naquilo que Heidegger chama de //die Gegnet//, a "livre extensão", que é a economia libertada dos princípios * Heidegger possui, portanto, uma resposta à pergunta "Que fazer?" * Ele não convida à decisão pela decisão * Ele não prega nem o amor contra o ódio, nem a expropriação dos expropriadores contra a injustiça * Ele convida à revogação expressa dos princípios epocais que economicamente já cambaleiam * A dificuldade reside em nosso hábito de conceber essa revogação apenas como uma empresa voluntária, "decidida", "resoluta" e "energética" * Para Heidegger, ao contrário, o não-querer e o abandono são mais subversivos e contestatórios que todo projeto de vontade que "quer agir e quer a efetividade como seu elemento"