====== §43. A Transmutação da Responsabilidade (1982) ====== RSPA * Problematização do conceito tradicional de responsabilidade * O conceito tradicional repousa sobre o reconhecimento de um compromisso recíproco entre duas partes * Sua base etimológica revela essa estrutura de reciprocidade * Do latim //spondere// (prometer, comprometer-se) e //respondere// (comprometer-se em retorno) * Ser responsável significa estar pronto a prestar contas de seus atos perante uma instância com a qual se está vinculado * A responsabilidade sempre implica uma relação com uma autoridade normativa e justificadora * Esta autoridade pode ser interior (como a consciência) ou exterior (como o poder) * Ela mede os atos, transcende-os e fundamenta a imputação * Dois traços principais caracterizam o fenômeno da responsabilidade na tradição * O retorno contabilizado dos atos sobre o agente * A existência de uma instância normativa perante a qual se prestam contas * A retomada heideggeriana do conceito opera um duplo deslocamento desses traços * Heidegger não abole a prestação de contas nem a instância normativa, mas as desloca * A responsabilidade deixa de ser um corolário humanista das disposições da liberdade "moral" * Ela se torna um corolário econômico dos dispositivos da presença "ontológica" * Este duplo deslocamento inflige uma dupla afetação à noção tradicional de liberdade * O //locus// da prestação de contas deixa de ser a liberdade entendida como faculdade de escolha * Prestar contas não significa mais reivindicar as consequências de suas escolhas * O //locus// da instância normativa deixa de ser transcendente em relação aos atos * A responsabilidade não conduz mais perante uma autoridade que limite a liberdade entendida como ausência de coação * Crítica da origem do traço contábil na responsabilidade * A ideia de prestar contas nasce do primeiro grande giro dos tempos, que inaugura a metafísica * Trata-se da redução progressiva do //légein// ao cálculo * O cálculo de direitos e deveres, a contabilidade do bem e do mal constituem a consequência mais flagrante da mutação do //lógos// em //ratio// * A essência da razão, para Heidegger, consiste em "enunciar, ter por..., justificar" * Toda a história epocal da presença "se acompanha desta marca destinal que é o fundamento, a //ratio//, o cálculo, a prestação de contas" * A marca calculadora imposta à presença se acentua nos tempos modernos * A razão "exige que se preste conta da própria possibilidade de uma contabilidade geral" * É necessário produzir uma instância perante a qual se preste conta da contabilidade como tal e de suas condições * No coração do conceito metafísico de responsabilidade encontra-se a contabilidade * O ápice e o excesso desta contabilidade na filosofia moral é o utilitarismo * Para Heidegger, a moral é essencialmente uma empresa de contabilidade * As razões são as mesmas pelas quais a ciência é essencialmente técnica e a metafísica, racionalista * São três figuras de uma única e mesma época * Crítica da instância normativa na responsabilidade * A instância normativa e justificadora é o segundo traço do conceito metafísico * Sua genealogia remonta aos princípios epocais * Trata-se da figura suprema que, em cada época, serve como referência transcendente para a justificação dos atos * Esboço de um conceito não-metafísico e não-calculador de responsabilidade * Tal conceito requer a desconstrução da dívida das contas e da instância perante a qual quitá-la * A desconstrução da instância justificadora é a destituição dos princípios epocais * A desconstrução da essência calculadora é esboçada por Heidegger através de etimologias * O verbo alemão //rechnen// (calcular) não é compreendido no sentido ordinário * Heidegger o compreende como "orientar algo sobre algo outro", como //richten//, //ausrichten// (dirigir) * Estas considerações permitem passar do cálculo à direcionalidade * Os atos responsáveis são, então, aqueles que se inscrevem na direção, na trama de uma economia dada * É a direcionalidade sublinhada pela palavra "sentido" * Atos responsáveis são aqueles que adotam o sentido para onde vão as coisas em uma era dada, que se alinham com a orientação das coisas tais como entram em seu mundo * O novo //locus// da responsabilidade desconstruída: da liberdade moral à economia da presença * Ser responsável não significa mais responder //de// suas ações perante uma instância, mas responder //a// * Responder às constelações aleiteológicas onde se situam nossos atos * Trata-se de uma responsividade ou respondência * O pensamento mesmo não pode mais "responder por" ela, não pode ser intimado a fornecer suas razões * Fazer isso anularia o deslocamento anti-humanista * A essência responsorial da responsabilidade como resposta ao apelo da diferença * Resposta a quê? Ao "apelo da diferença", que é "a diferença entre mundo e coisa" * Resposta à modalidade sempre nova segundo a qual o mundo desdobra as coisas e segundo a qual as coisas dão configuração ao mundo * "As coisas: suporte do mundo. O mundo: favor das coisas." * Resposta à sua "intimidade", ao "entre-dois onde mundo e coisa diferem", ao evento de sua constelação mútua * Resposta ao //Ereignis//, portanto, cuja estrutura de apelo já foi vista * A responsabilidade deslocada para o domínio da linguagem e do ser * A essência responsorial da responsabilidade a tira do domínio moral para implantá-la no domínio da linguagem * Resposta à "injuncão na qual a diferença chama mundo e coisas" * Resposta ao evento de apropriação que se articula em silêncio e que não é "nada de humano" * "Tal apropriação se produz na medida em que o desdobramento essencial da linguagem, recolhimento do silêncio, usa da fala dos mortais" * Esta reimplantação topológica não faz da responsabilidade um fenômeno puramente linguístico * Chamado e resposta se conjugam em uma maneira de ser * O "encaminhamento para a palavra" designa um //Unterwegs// que não se limita à inteligência nem ao indivíduo * O evento que é a entrada em presença "usa" os homens, situa-os de tal modo que tudo o que empreendem será apenas resposta à economia que os envolve * Impossibilidade de reduzir o deslocamento a um mero fatalismo ou automatismo * Não se pode concluir deste deslocamento uma simples absorção de todo projeto na //Geworfenheit// (ser-lançado) * Não se pode concluir um automatismo sem falha da resposta econômica, ou seja, a impossibilidade da irresponsabilidade * A irresponsabilidade redefinida como //adikía// * Para Heidegger, irresponsabilidade significa doravante a mesma coisa que //adikía// * O conceito de responsabilidade é assim desalojado de seu contexto de cargas e descargas * O olhar fenomenológico percebe que o ente primeiro (lei, consciência, Deus, etc.), que intima outro ente (o ator) a prestar contas, funciona como princípio de ordem em um sistema de contas * Em tal dispositivo, a irresponsabilidade é a infração ao princípio de ordem * É a derrogação a uma constelação de velamento e desvelamento * É sempre a contravenção à vinda que é a presença * A irresponsabilidade na época da clausura * Com o fim da história epocal, ser irresponsável não significa mais contravenir a um ordenamento da presença * Na época da clausura, ser irresponsável é contrapor-se à vinda múltipla que é a presença desconstruída * O que se contrapõe a tal vinda múltipla, ao //phyein//, ao //Ereignis//? * É todo ente e todo ato que "procura persistir", que "procura endurecer-se na permanência", que "não quer ceder seu lugar" * É tudo o que se assemelha de perto ou de longe à //hýbris// de um princípio epocal * O tempo é duração apenas sob e pelo reino desses princípios * Com a descoberta de um tempo outro, seria irresponsável todo a priori prático que se obstinasse contra o fluxo e que emprestasse sobrevida à economia principial * Consequência da ruptura da metafísica: o deslocamento anárquico da responsabilidade * A ruptura que é o fim (possível) da metafísica dissolve no instável aquilo por que e de que se pode ser responsabilizado * A virada permite pensar um deslocamento não apenas econômico, mas anárquico da responsabilidade * Este deslocamento final tira a responsabilidade da regência de uma instância primeira e a situa em outro lugar: o da vinda à presença * Ao mesmo tempo, situa a existência em seu lugar originário, onde ela se cumpre ao sabor do evento de apropriação mútua e de suas modalidades * O deslocamento anárquico da responsabilidade é a condição prática para pensar a diferença entre mundo e coisa * Em uma economia desprovida de princípio epocal, a existência responsorial será responder aos modos sempre novos pelos quais as coisas se unem em um mundo e dele diferem * Será inscrever seus atos no jogo de identidade e diferença entre coisa e mundo * A questão prática final * Quaisquer que sejam as dificuldades da desconstrução da responsabilidade em Heidegger, só se poderá responder à questão "Para você, como está a diferença?" de uma maneira prática