====== TEMPO ====== //SCHNELL, Alexander. Wirklichkeitsbilder. Tübingen: Mohr Siebeck, 2015.// * A experiência do tempo, mesmo no nível cotidiano e "ainda" não fenomenológico, remete a uma multiplicidade de experiências, como o tempo cíclico do calendário e o tempo vivido da existência pessoal * A interpretação fenomenológica do tempo lida com diferentes tipos de tempo, como confirmado por Husserl, Heidegger, Fink, Levinas e Richir, mas o sentido fenomenológico dessa multiplicidade de níveis não deve levar a conclusões precipitadas * A distinção mais fundamental e frequente é entre tempo "subjetivamente vivido" e "objetivamente mensurável", mas o uso dos termos "subjetivo" e "objetivo" é problemático, pois não se sabe exatamente o que é o "subjetivo" e porque a experiência subjetiva do tempo pode ser compartilhada **II. A constituição do tempo: uma abordagem fenomenológica** * Para definir o tempo fenomenologicamente, é preciso evitar a alternativa entre uma determinação "subjetiva" e "objetiva", pois a experiência do tempo não se reduz a nenhuma das duas * A abordagem de Kant é útil, mas insuficiente, pois ele oscila entre uma forma a priori e uma determinação reflexiva, e o tempo não é nem "subjetivo" nem "objetivo" no sentido kantiano * A questão é como determinar a "idealidade" transcendental do tempo no sentido fenomenológico, se ele é ao mesmo tempo empiricamente "real" * Os comentadores não concordam sobre quantos níveis de tempo as análises de Husserl distinguem, mas na famosa distinção do §34 das Lições sobre o Tempo, ele fala dos "objetos da experiência no tempo objetivo", das "multiplicidades de aparecimento constituintes de diferentes níveis" e do "fluxo absoluto da consciência constituinte do tempo" * A passagem organizada por Edith Stein distingue entre o "ser da experiência", o "pré-empírico" e o "fluxo da consciência" * Uma segunda leitura possível, baseada em um texto de 1913, distingue entre uma "temporalidade pré-fenomenal, pré-imanente" e o tempo imanente, o que sugere uma estrutura de dois níveis, ou três se incluirmos o tempo objetivo * A dificuldade é compreender o status ontológico do "pré-empírico", "pré-fenomenal", "pré-imanente" e "pré-real", bem como a performance constitutiva do nível imanente no e através do pré-imanente * Outra leitura vê o empírico e o pré-empírico como "duas intencionalidades inseparavelmente unitárias, como dois lados de uma mesma coisa", tecidas juntas no fluxo da consciência **III. Consciência do tempo e, mais uma vez, autoconsciência** * A constituição da consciência do tempo coloca problemas que as análises descritivas não conseguem resolver, exigindo sua superação * Husserl define o "pré-fenomenal" como a "forma implícita" da maneira de ser-dado de um ser que só pode ser transformado em uma dada efetiva na consideração reflexiva * A questão central é o status fenomenológico dessa "pré-fenomenalidade" na constituição do tempo * Uma primeira resposta, ainda no âmbito da fenomenologia descritiva, equipara a pré-fenomenalidade à "autoconsciência pré-reflexiva do ato", interpretando a descrição husserliana da consciência interna do tempo como uma análise da estrutura da auto-aparição pré-reflexiva de nossas experiências em geral * O "urbewusstsein" não é um ato de apreensão, mas uma "pré-consciência" que torna cada ato simultaneamente intencional e autoconsciente, o que resolve o problema do regresso infinito e mostra a inadequação do esquema apreensão/conteúdo de apreensão para a constituição do tempo * A resposta mais convincente para a possibilidade de uma autoconsciência pré-reflexiva é dada por Schelling, para quem o surgimento do tempo e o da autoconsciência são cooriginários * O "eu" torna-se objeto para si mesmo como sentido interno quando o tempo (não como algo já intuído externamente, mas como ponto, como limite) surge para ele * A atividade do eu, quando se torna objeto para si mesma, é o tempo, e o eu é o próprio tempo pensado em atividade * A análise de Schelling aborda o problema da constituição do tempo antes da pressuposição de um tempo já constituído no mundo, levantando duas dificuldades * Em Kant, a primeira dificuldade é o status ambíguo do tempo: ele tem realidade empírica, mas apenas idealidade transcendental, o que parece torná-lo puramente subjetivo, embora deva haver algo que corresponda a essa forma a priori para que possa afetar os sentidos * A segunda dificuldade, presente nas Lições sobre o Tempo de Husserl, é que, mesmo que se consiga dar conta da constituição do tempo "objetivo", permanece a questão de como a temporalidade dessa intencionalidade constituinte do tempo é, por sua vez, constituída * Os fenômenos originários constituintes do tempo não podem ser "objetivos" (pois isso seria uma petição de princípio) nem meramente "subjetivos" (pois isso levaria a um regresso infinito) * A análise de Schelling oferece uma resposta ao mostrar que a autoconsciência é a condição da consciência do tempo, e a consciência do tempo é a condição da autoconsciência * O "instante" vivo é o tempo vivo, e o eu só pode fazer brilhar seu ser ativo e vivo no instante, de modo que "o eu mesmo é o tempo pensado em atividade" * Heidegger desenvolve a ideia da cooriginalidade da autoconsciência e da consciência do tempo a partir da interpretação do tempo kantiano como "auto-afeição pura", que é a estrutura essencial da subjetividade * O tempo é o que forma o "de-si-para... e de-volta-para-si", constituindo a estrutura de encontro com o ente, e a "constância" é o horizonte da mesmidade no qual o objetual se torna experienciável * Merleau-Ponty retoma essa ideia ao mostrar que a temporalidade é igualada à autoposição do sujeito, onde o afetante e o afetado são um, e essa ek-stase é a subjetividade * O tempo é "tempo que se sabe", pois a projeção do presente no futuro é o arquétipo da relação do self consigo mesmo, designando uma interioridade ou mesmidade **IV. Considerações generativas sobre os três tipos de temporalidade** * Os procedimentos descritivos (Husserl) e especulativo-dedutivos (Fichte, Schelling) são insuficientes para dar conta da constituição do tempo, e a abordagem construtiva fenomenológica oferece uma saída * A equiparação da pré-fenomenalidade à autoconsciência pré-reflexiva é justificada, mas não se a estrutura pré-reflexiva for considerada "epifenomenal" em relação à consciência imanente, exigindo uma construção fenomenológica * A intencionalidade genuinamente constituinte do tempo não pode ser ativo-signitiva nem passivo-intuitiva, e a vivacidade do tempo se esquiva de qualquer dedução metafísica * A construção fenomenológica, diferentemente da dedução, "descobre" o arquétipo e o télos da construção somente na própria construção, e não os pressupõe como válidos * Correspondendo aos "três gêneros" da construção fenomenológica, podem-se distinguir três tipos de temporalidade: tempo vivido, tempo instituído e tempo pré-imanente * Constitutivamente, eles não se movem em uma escala linear de três níveis, mas o tempo pré-imanente constitui a temporalidade tanto do tempo vivido quanto do tempo instituído **1. Tempo vivido** * O tempo vivido, que é o tempo no sentido fenomenológico pleno e genuíno, é caracterizado por uma grande variedade de modos de aparecimento e pode se impor de diferentes maneiras * Cada ente tem seu "tempo próprio", e o tempo vivido não é intersubjetivo nem inserido em um quadro extra-egológico, mas o mundo aparece como uma "dimensão" do eu * A radical ausência de reflexão é uma característica essencial do tempo vivido, e a heterogeneidade entre a vivência do tempo e a reflexão explica a dificuldade de "explicar" a experiência do tempo * As características do tempo vivido são a multiplicidade dos modos de aparecimento, a temporalidade própria de cada ente e a ausência de reflexão **2. Tempo instituído** * Embora o tempo vivido esteja ligado à existência viva do eu, cada vivência parece ocorrer em um quadro temporal "anônimo", e a humanidade instituiu um tempo uniforme como medida para a medição cotidiana * O tempo instituído é unitário, mas essa unidade não é um atributo fortuito nem de natureza empírica, sendo instituída pela reflexão, enquanto na prática o tempo nunca pode ser medido "exatamente" * O tempo instituído apresenta uma dupla dificuldade: um contraste entre a multiplicidade de tempos próprios a cada ente e a unidade do tempo instituído, e um contraste dentro do próprio tempo instituído entre um quadro temporal "absoluto" pré-empírico e pré-reflexivo e sua fixação na reflexão * A reflexão não é o meio adequado para compreender e justificar a constituição do tempo, sendo necessária uma construção fenomenológica do "terceiro gênero" que, como uma reflexão da reflexão, explicite o próprio "temporal" tanto do tempo vivido quanto do tempo instituído **3. Tempo pré-imanente** * O conceito de construção fenomenológica está ligado à problemática do tempo por oferecer uma solução para a disputa sobre se a atividade sintética espontânea do eu transcendental é temporal ou não * Para Kant, o "eu penso" não é dado, não é presente, e a espontaneidade não é temporal; para Fichte e Husserl, a intuição intelectual e a intencionalidade implicam uma forma de atividade e de autodação que é, de certa forma, auto-presente * Construir fenomenologicamente significa reivindicar uma forma de autodação que não remete nem a uma pura passividade nem a uma inserção da espontaneidade em um quadro temporal-sensível * O que é construído fenomenologicamente se realiza em um movimento de "zig-zag" entre os fenômenos não explicáveis descritivamente e o que deve ser construído, trazendo à tona "fenômenos" que estão aquém da separação entre ente e conhecido e que exibem "estruturas pré-intencionais" * A construção se realiza através do que Husserl chamou de "processo originário" nos Manuscritos de Bernau, que consiste em fases que se preenchem e é irreversível * Ao contrário da suposição de Husserl, o processo originário deve ser descontínuo, pois só assim é fenomenologicamente demonstrável * Cada fase é um todo "retencional" e "protencional", composto por um "núcleo" (uma "fase originária") de preenchimento máximo e por núcleos modificados cujo preenchimento tende a zero * O núcleo originário não é uma impressão hilética pura, mas "é o que é apenas como núcleo pré-intencionalmente encerrado", e a "nuclearidade" dos núcleos modificados diminui à medida que a modificação avança * Essa construção fenomenológica traz à tona uma "in-tencionalidade" preenchedora e "esvaziadora", e há uma "relação de intensidade" entre o tempo imanente e o pré-imanente * A estrutura do processo originário não é uma retenção ou protensão de um conteúdo, mas a abertura de um campo de "núcleos" que estão aquém da separação entre ser e conhecer, constituindo a temporalidade pré-imanente * A lei essencial que rege a relação entre a fase originária e as fases com menor grau de preenchimento é que cada "intenção" no campo "protencional" remete ao núcleo originário como seu "terminus ad quem", e no campo "retencional" ela "empobrece" à medida que se afasta da fase originária * O processo originário é um "campo de tensão" que estrutura a subjetividade transcendental como "vida" intencional, onde o campo "protencional-retencional" constitui a própria intencionalidade * A auto-aparição do processo originário é possibilitada por uma dupla irradiação de "in-tenções" — uma gradação in-tencional positiva e negativa — cujo ponto de intersecção na fase originária constitui a consciência de um presente originário * O processo originário não se torna autoconsciente "posteriormente", mas é consciente de si mesmo em um fluxo de "núcleos" mediados protencional e retencionalmente, em um presente que também flui * Essa estrutura de dupla irradiação torna possível a autoconsciência "simultânea" do processo originário e de todo tempo instituído e vivido, e a referência à temporalidade objetiva é realizada pelo preenchimento das fases do processo originário * A auto-aparição do processo originário não deve ser confundida com o ponto de vista reflexivo do fenomenólogo, pois a autoconsciência do processo originário não é "reflexiva" no sentido clássico, nem é uma consciência posicional, surgindo apenas na construção fenomenológica **V. Conclusão** * O aspecto mais difícil da exposição é tornar compreensível o status "intencional" dos fenômenos originariamente constituintes do tempo, cuja dificuldade reside na ambiguidade da "pré-intencionalidade" * A "pré-intencionalidade" não é uma intencionalidade de ato e, como tal, é "pré-intencional", mas ainda assim é constitutiva para a referência intencional-temporal e, portanto, "ur-intencional" * O conceito de "tudo-intencionalidade", que contém uma forte afirmação e uma não menos forte negação, é uma aproximação para essa dupla significação * Construída fenomenologicamente e apreendida em uma "reflexão da reflexão", a "tudo-intencionalidade" é o núcleo da tentativa de lançar uma nova luz sobre um problema ainda não resolvido de forma convincente * A problemática do tempo pode servir de base para uma "fenomenologia da ambivalência" ou da "ambiguidade"