====== Fato intramundano e o evento no sentido "evental" ====== (ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:40-46) * O aprofundamento do primeiro traço fenomênico do evento: a incapacidade de atribuição de seu suporte ôntico e a questão de sua determinação universal. * O reconhecimento do caráter preliminar, ingênuo e unilateral das análises anteriores sobre a incapacidade de atribuição ôntica. * A delimitação desta característica aos "fatos intramundanos", como o relâmpago ou a chegada do trem, que "não sobrevêm propriamente a ninguém, ou antes, a ninguém em particular". * A introdução da questão dos eventos "pessoais", cujo "sujeito" de atribuição é univocamente determinável, e que "me sobrevêm a mim mesmo, a ti mesmo". * A reavaliação crítica dos fatos intramundanos e o reconhecimento de sua necessária relação com um "sujeito" que os faz aparecer. * A constatação de que a afirmação anterior de que a chuva não sobrevém "a ninguém" em particular só era possível pelo preço de um desconhecimento. * A afirmação fenomenológica fundamental: "o evento não pode aparecer, e se produzir assim sob o horizonte de um mundo, senão se alguém ao menos está aí para apreendê-lo". * A definição trivial, porém crucial, de que "todo fenômeno – e o evento deve poder aparecer para ser objeto de uma 'fenomenologia' – é fenômeno //para//... um 'sujeito', uma pessoa, suscetível de o fazer aparecer". * A formulação da questão decisiva: "os fatos intramundanos são também eventos 'pessoais'; mas os eventos pessoais são necessariamente fatos intramundanos?". * A distinção fenomenológica rigorosa entre três aspectos da relação do evento com aquele a quem ele sobrevém. * O primeiro aspecto: "o fato de o evento sobrevir enquanto tal, com suas modificações intramundanas próprias: e para dizê-lo mais rigorosamente: como estas mesmas modificações". * O segundo aspecto: "a necessidade, para que este evento possa sobrevir enquanto tal, que ele sobrevenha a alguém, que um 'sujeito' esteja justamente aí para apreendê-lo". * A caracterização deste sujeito de atribuição ôntica como um ente com uma determinação particular: "aquela de poder fazer aparecer o que assim se produz a partir de si mesmo". * A introdução do conceito de "//adveniente//" (advenant) para designar este ente privilegiado. * A elaboração do conceito de "//mostração//" (a partir de Claudel e da noção hegeliana de //[[lx>termos:e:erscheinung|Erscheinung]]//) para nomear a manifestação do evento como puro "se produzir" a partir de si mesmo. * A citação da definição de Hegel: "A mostração (//Erscheinung//) é o nascer e o desaparecer que ele mesmo não nasce nem desaparece". * O terceiro aspecto: "o sentido desta atribuição ôntica privilegiada ao //adveniente// que varia em função do tipo de evento em questão, assim como as relações que aqui entram em jogo entre o evento, o //adveniente// e o mundo". * A distinção fundamental entre o fato intramundano e o evento no sentido propriamente evental (//événemential//). * A caracterização do fato intramundano: ele tem um sujeito de atribuição privilegiado (o //adventício//), mas este não é posto em jogo em sua ipseidade. * O //advneniente// é "puro espectador", "implicado sem dúvida no espetáculo, mas não ao ponto de se compreender a si mesmo a partir do evento". * A intercambialidade do testemunho: "este relâmpago poderia ser visto indiferentemente por qualquer outro ou por mim mesmo sem que sua tensão fenomênica de sentido fosse de modo algum alterada". * A caracterização do evento propriamente evental: ele é sempre //endereçado// e implica insubstituivelmente aquele a quem advém. * A diferença crucial: "enquanto o fato intramundano, com efeito, não se dirige a ninguém em particular e se produz indiferentemente para toda testemunha, o evento é sempre //endereçado//". * A implicação estrita do //adveniente//: "aquele que compreende o que lhe advém como lhe advindo precisamente a ele mesmo está //ipso facto// engajado naquilo que compreende". * A não-objetividade do evento: "o evento nunca é 'objetivo' como pode sê-lo o fato, ele não se presta a nenhuma observação imparcial". * A elaboração da tarefa de uma hermenêutica evental da aventura humana. * A definição da tarefa: "Esta hermenêutica eventalista da aventura humana à luz do evento tomado em seu sentido propriamente eventalista constitui a tarefa primeira e última de uma fenomenologia do evento". * O recurso à etimologia de "evento" (//evenire//) como "sobrevir" e "incumbir" (//échoir//) a alguém. * A exemplificação através do evento do luto: a morte de um próximo como fato objetivo versus o luto como evento que me alcança insubstituivelmente. * A análise: "o fato ele mesmo é para mim um evento, na medida em que a perda do ente querido, ao me atingir em pleno coração, transtorna a totalidade dos possíveis que se articulam para mim em mundo". * A reconfiguração do mundo: "o evento não é nada além desta reconfiguração impessoal de meus possíveis e do mundo que advém em um fato e pela qual ele abre uma falha em minha própria aventura". * A solidão eventalista: "como todo evento verdadeiro, aquele da perda de um próximo me deixa só, irremediavelmente: só diante do evento que me incumbe em pessoa e não é destinado em próprio senão a mim mesmo". * A conciliação da neutralidade do evento com seu caráter endereçado e a questão da contrapartida positiva da indeterminação do fato intramundano. * A síntese: "de uma parte, o evento em si mesmo é neutro, pois é o que advém em fato, em um fato, mas de outra parte, por seu sentido mesmo, ele aparece indissociável de um endereço ou de uma destinação". * A diferença principial com o fato: "embora neutro com relação a mim mesmo, o evento, ao contrário do fato, nunca pode ser //ob-jeto// (entendido etimologicamente como puro vis-a-vis: //[[lx>termos:g:gegenstand|Gegenstand]]//)". * A retomada da terceira determinação do fato intramundano: "a indeterminação de sua atribuição ôntica tem por contrapartida positiva o contexto eventalista no qual ele aparece, e em relação ao qual ele toma sentido – o que designamos, de maneira ainda obscura, como seu 'mundo'?". {{tag>Romano fato evento}}