===== Eventalidade ===== (ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:32) 1. A relação entre Evento e possível permanece indeterminada enquanto não se esclarece o sentido do verbo reconfigurar e o modo como o Evento se articula com a noção de possibilidade do Adveniente. 2. O fato intramundano mantém com o possível uma relação de efetuação ([[lx>termos:v:vollzug|Vollzug]]), na qual a possibilidade equivale à propensão a se realizar, de modo que a realidade do possível cresce proporcionalmente à sua efetuabilidade. 3. Essa definição de possibilidade como efetuabilidade não se aplica sem mais à aventura humana, diante da qual se opõem duas teses sobre a origem dos possíveis do Adveniente. * Numa primeira tese, o Adveniente possui, desde o nascimento, um horizonte de possibilidades já determinadas biológica, social e historicamente, que ele apenas atualiza ao longo de sua existência, sem qualquer criação genuína de possíveis. * Numa segunda tese, ao contrário, um horizonte originário de possibilidades vazias e indeterminadas dá lugar a uma aventura consistente na determinação progressiva e mútua desses possíveis, que se tornam compossíveis por restrição recíproca. 4. As duas teses apresentadas revelam-se, a um exame mais atento, equivalentes entre si, e insuficientes para dar conta do possível tal como se oferece ao Adveniente. * A segunda tese não consegue explicar a mudança de estatuto modal do possível, sendo forçada, por coerência, a admitir, à maneira de Leibniz, a existência prévia de compossíveis contidos na noção completa de cada indivíduo e presentes no entendimento divino. * O determinismo (Determinismus) só triunfa sobre a liberdade enquanto o possível for pensado a partir de sua efetuabilidade, de modo que abandonar esse horizonte reabre inteiramente o problema da liberdade. 5. Uma terceira via faz do possível algo possibilizado não por possíveis já dados nem por possíveis vazios, mas pelo projeto ([[lx>termos:e:entwurf|Entwurf]]) que os torna seus, ainda que tal possibilização pelo projeto permaneça inscrita no horizonte do mundo já articulado, revelando-se por isso menos originária que a possibilização operada pelo próprio Evento, o único capaz de abrir um mundo ao reconfigurar seus possíveis. 6. O Evento, ao sobrevir na própria aventura, ilumina sob nova luz os mesmos possíveis que antes articulavam o mundo do sujeito, como o atesta a passagem de L'Éducation sentimentale, de Flaubert, relativa ao retorno de Frédéric após o encontro com Madame Arnoux. * O relevante, do ponto de vista de uma hermenêutica evental, não é a psicologia da personagem, mas o teor de sentido do próprio Evento enquanto reconfigura a totalidade das possibilidades intrínsecas do Adveniente. * Reconfigurar as possibilidades equivale a possibilizá-las novamente, e essa possibilidade aberta unicamente pelo Evento recebe o nome de Eventalidade (Éventualité), distinta do sentido corrente de eventualidade, de mera contingência. 7. Não há possível para o Adveniente sem projeto, nem projeto sem possível — paradoxo que remete à tese heideggeriana da co-originariedade entre possíveis e projeto, ambos enraizados no ser como existir ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]], ek-sistieren), embora tal solução suprima o retardo irredutível que estrutura todo projeto como resposta diferida ao excesso do Evento. 8. A Eventalidade é mais originária que a possibilidade configurada pelo projeto, pois lhe confere seu sentido e sua carga de porvir, vindo de um porvir absoluto sem relação com o presente, de modo que só o projeto capaz de se deixar transformar pelo improjetável merece o nome de projeto verdadeiro. 9. A Eventalidade não provém do sujeito, mas lhe sobrevém e o submerge; contra o dito segundo o qual ao impossível ninguém está obrigado, só ao impossível se está verdadeiramente obrigado. * Esse impossível ao qual todo projeto está votado não é o absolutamente impossível, mas aquilo que, relativamente a toda efetuação e a toda antecipação, constitui o impossível propriamente dito. * A denominação de tarefa ([[lx>termos:a:aufgabe|Aufgabe]]) para esse possível que nos tem obscurece, com sua conotação de obrigação, a gratuidade de um possível dado sem razão, em excesso de todo projeto. 10. O sentido mais alto do possível é rigorosamente o impossível, não havendo previamente uma totalidade de projetos pelos quais o Adveniente se abriria o possível e, num segundo momento, possibilidades factícias oriundas dos eventos, nem tampouco um poder-ser ([[lx>termos:s:seinkonnen|Seinkönnen]]) formal antecipável pelo antecipar da morte, uma vez que todo possível já se destina ao sujeito como previamente aberto e determinado pelo Evento e pela configuração de mundo que este faz surgir. 11. A Eventalidade do possível não se opõe à sua efetividade, mas lhe é indissociável, pois o próprio Evento também se produz como fato, sendo somente nessa medida capaz de introduzir na aventura humana o excedente de possibilidades que o torna irredutível à sua efetuação intramundana. * O processo da escrita de uma obra ilustra essa possibilização compatível com a efetuação: o possível singular que o livro representa ganha Eventalidade à medida que possibilidades antes indeterminadas se realizam progressivamente. * Claudel caracteriza esse possível próprio à obra poética, situado não no infinito indefinido, mas na inesgotabilidade do definido. 12. No Evento da decisão, à medida que se realizam as possibilidades antes indeterminadas do Adveniente, abre-se, para além da decisão efetuada, a Eventalidade de um possível excedente que o próprio sujeito é para si mesmo, irredutível a todo projeto e constituindo, face aos possíveis já realizados ou projetados, uma im-possibilidade. 13. A decisão, ao deter o possível fatício resultante de uma deliberação inscrita em motivos e móveis prévios, libera por isso mesmo a Eventalidade de um possível outro, indecidível e inantecipável, que confere à decisão sua seriedade e a transforma em Evento. * Toda decisão verdadeira renuncia a qualquer domínio sobre o possível que faz advir, deixando-se anteceder e orientar por um possível excedente do qual ela não é a medida; decidir-se ao indecidido implica decidir-se ao indecidível. * Cézanne ilustra, pelo estado de virgindade do mundo diante da tela, o modo como o pintor só alcança o possível inacessível a seu projeto ao se deixar alcançar por ele. 14. À medida que o possível que o sujeito é ele mesmo se realiza e ganha determinação, cresce correlativamente em possibilidade o possível excedente e eventual, inacessível a toda realização e a todo projeto; o sujeito é chamado a mais do que pode e descobre, a cada instante, poder mais do que acreditava poder, sendo todo projeto, como o livro para o escritor ou o quadro para o pintor, votado a esse inacessível que só se atinge deixando-se por ele atingir. 15. O possível eventual só se dá como o avesso da própria impossibilidade do Adveniente, possibilidade e impossibilidade constituindo o avesso e o direito de um mesmo fenômeno ao qual toda aventura está irremediavelmente ligada, de modo que é o im-possível que designa, em primeiro lugar, na relação com o Adveniente, o nome mais próprio da possibilidade. {{tag>Romano evento}}