====== Dasein se executa a si mesmo ====== (RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:25-26) 1. Qualquer que seja a interpretação que o [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] faz sua, o fato é que seu ser sempre se projeta em certas possibilidades, isto é, que seu ser se executa a si mesmo na aceitação das possibilidades alheias oferecidas, não existindo o Dasein caso não o fizesse, sendo existir sempre existir por si mesmo, ainda que o si-mesmo escolhido seja o si-mesmo anônimo dos topoi do impessoal, de modo que, do ponto de vista da execução de seu ser, o Dasein sempre se projeta num compreender efetivo no qual, em definitivo, se joga o seu próprio ser. 2. Por baixo da interpretação imprópria de si mesmo e sustentando-a, o Dasein põe em jogo real e verdadeiramente seu ser, esse ser que se caracteriza por ser cada vez meu, isto é, pela condição de sempre-meu ([[lx>termos:j:jemeinigkeit|Jemeinigkeit]]), havendo na execução de seu ser que então tem lugar uma [[lx>termos:v:vorontologische-seinsverstandnis|compreensão pré-ontológica]] desse mesmo ser. * Mais abaixo da explicitude encobridora da interpretação em que imediata e regularmente se encontra instalado, o Dasein possui uma compreensão muda, sem palavras e puramente executiva de seu ser, radicando nessa compreensão pré-ontológica, que o Dasein é em e por si mesmo, a possibilidade de acesso ao verdadeiro ser do Dasein. 3. Permanece em questão como nomear essa compreensão não explicitada, carente de interpretação adequada, silenciosa, obscura e soterrada, sendo as designações heideggerianas fugidias e partindo quase sempre do explícito da compreensão teórica para nomear o previamente implícito com termos negativos, que apenas dizem o que esse compreender implícito não é. * Fala-se do inexpresso, do não chamativo, do oculto, do tácito, do originário em contraste com o derivado, do indeterminado frente ao determinado do conhecimento temático, do não destacado, do puramente experimentado, falando-se também de uma experiência de fundo ([[lx>termos:g:grunderfahrung|Grunderfahrung]]). 4. Um exemplo entre muitos encontra-se no parágrafo [[obra:etem:et7|7]] de Ser e tempo, referente ao método da investigação, no qual Heidegger indaga o que a fenomenologia deve fazer ver, o que se deve chamar fenômeno num sentido eminente, o que por essência necessariamente deve ser tema de uma demonstração explícita, respondendo que é evidentemente aquilo que, de modo imediato e regular, precisamente não se mostra, mas que ao mesmo tempo pertence essencialmente ao que imediata e regularmente se mostra, a ponto de constituir seu sentido e fundamento. 5. Esse texto merece comentário: aquilo que a fenomenologia de Ser e tempo deve fazer ver de modo explícito é precisamente o que na existência cotidiana não se mostra, entendendo-se que não se mostra numa interpretação explícita, interpretação essa que não precisa ser teórico-filosófica, podendo ser, e ordinariamente sendo, a mera interpretação vital chamada [[lx>termos:a:auslegung|Auslegung]]. 6. Aquilo que não se mostra com explicitude tem, de alguma forma, de mostrar-se para que a fenomenologia possa descrevê-lo tal como é em si mesmo, de modo que aquilo que se diz não se mostrar no sentido do mostrar-se explícito da Auslegung, mostra-se, contudo, em outro sentido, ao qual alude uma nota do Hüttenexemplar acrescentada à frase sobre o que pertence essencialmente ao que imediata e regularmente se mostra, constituindo seu sentido e fundamento, nota em que Heidegger anota verdade do ser ([[lx>termos:w:wahrheit-des-seins|Wahrheit des Seins]]). 7. Deixa-se por ora em suspenso essa anotação, que sem dúvida pertence a uma época posterior, afirmando-se por ora, seguindo Heidegger, que aquilo que imediata e regularmente não se mostra pertence essencialmente ao que imediata e regularmente se mostra, a ponto de constituir seu sentido e fundamento, o que significa estar em conexão essencial com o que se mostra e, por conseguinte, também de alguma forma mostrar-se a si mesmo. 8. As duas palavras sentido e fundamento nomeiam o originário que se esconde atrás do que a princípio se exibe, sendo agora, por exceção, duas palavras positivas, que apontam para o que, desde as próprias entranhas do Dasein, está permitindo o acesso à explicitação teorética. {{tag>Rivera Dasein}}