====== Prefácio ====== //JRCST1// 1. Chamar-se-á Prefácio, seguindo indicação do próprio Heidegger, ao breve texto com que se inicia Ser e tempo, texto de menos de uma página, introduzido por uma citação de O Sofista de Platão, que serve de introdução a toda a obra. 2. Esse breve texto, de apenas dois parágrafos, tem por finalidade retomar uma pergunta filosófica absolutamente central, que a rigor não é apenas uma pergunta da filosofia, mas a pergunta filosófica por excelência: a pergunta pelo ser, tratando-se de anudar a própria investigação de Ser e tempo com a tradição e mostrar assim a continuidade da investigação própria com a filosofia mais antiga. * A citação de Platão não é mero adorno literário, mas testemunho do pensar da Grécia, do qual Heidegger é e quer ser continuador, remetendo a citação de O Sofista, por sua vez, ao pensar de Parmênides, posto em questão pelo Estrangeiro de O Sofista. * O Estrangeiro finge, no diálogo de Platão, estar conversando com os filósofos anteriores, colocando-lhes o problema do que querem dizer cada vez que falam do on, do ser, parecendo que eles não se perguntam pelo que diz essa palavra, contentando-se em averiguar se esse ser é um só ou se são vários. * O diálogo O Sofista enfrenta os filósofos antigos e muito especialmente Parmênides, pondo em questão a tese central parmenídea de que só o ser é e que o não-ser não é, devendo por isso ficar excluído de toda investigação, defendendo Platão, representado pelo Estrangeiro, que também o não-ser de algum modo é, não sendo a separação entre ser e não-ser absoluta nem tão categórica como Parmênides pretende. * Trata-se, pois, de averiguar exatamente o que é isso que se chama on, ser, o mesmo que Heidegger pretende averiguar em Ser e tempo, não sendo a pergunta de Heidegger uma pergunta nova, mas uma velha pergunta, que moveu Platão e, antes dele, Parmênides e os filósofos pós-parmenídeos. 3. A citação platônica afirma que manifestamente há muito tempo se está familiarizado com o que propriamente se quer dizer ao usar a expressão ente, sendo o que Heidegger traduz por estar familiarizado o que no texto grego de Platão se chama gygnóskete, verbo que indica um conhecimento direto, um saber por contato imediato, e neste caso um crer saber por contato direto, sendo a frase obviamente irônica e crítica. * O texto prossegue afirmando que outrora se acreditava compreendê-lo, mas que agora se encontra em aporia, havendo aqui dois momentos, outrora e agora, correspondentes à passagem, dada por Platão, do discipulado a respeito de Parmênides ao pensamento platônico atual. * O que Platão diz pela boca do Estrangeiro, Heidegger também o diz com as palavras de Platão, encontrando-se também ele em aporia, isto é, numa situação de perplexidade, de não saber, sendo esse não saber o que impulsiona toda a obra Ser e tempo. 4. O texto prossegue retomando a pergunta platônica, dirigida agora aos contemporâneos de Heidegger, indagando se se tem hoje uma resposta à pergunta acerca do que propriamente se quer dizer com a palavra ente, sendo essencial aqui o advérbio propriamente, equivalente a precisamente, claramente, questionando-se assim se mudou a situação desde Platão, respondendo-se de modo taxativo que de nenhum modo. * Não se está hoje em situação melhor do que a de Platão quanto ao que quer dizer ente, entenda-se ser, não se sabendo propriamente o que se diz quando se diz é, palavra chave que impregna todos os discursos, como quando a mãe adverte o filho, o mestre ensina aos alunos ou o namorado elogia a namorada, empregando-se em todos esses dizeres a palavra ser e compreendendo-se mutuamente, mas não se podendo responder teoricamente com precisão o que se diz quando se diz ser, encontrando-se aí a aporia. 5. Conclui-se que é necessário colocar de novo a pergunta pelo sentido do ser, aparecendo aqui pela primeira vez o grande tema de Ser e tempo, significando por ora a palavra sentido apenas o que se quer dizer, o que se quer dizer com essa palavra, retomando a frase conclusiva a pergunta de Platão, exigindo esse novo colocar-se da pergunta não uma simples repetição do antigo planteamento, mas uma retomada ([[lx>termos:w:wiederholung|Wiederholung]]) da pergunta feita outrora pelos filósofos gregos, uma nova maneira, mais originária, do mesmo que antigamente se perguntava, pedindo-se refazer a pergunta de outrora à altura do tempo presente. 6. Prossegue-se perguntando se ao menos hoje se está perplexo pelo fato de não se compreender a expressão ser, isto é, se se está em situação análoga à dos filósofos gregos, respondendo-se novamente que de nenhum modo, não se encontrando a situação atual semelhante à de Platão, tendo ocorrido entre ambos muitas coisas, entre outras, e sobretudo, a perda ao longo da tradição do sentido para o enigma que encerra essa breve e simples palavra que é a palavra ser. * Dessa perda do estranho e teoreticamente incompreensível que é o ser falará a Introdução no parágrafo 1, concluindo-se então ser necessário, por ora, despertar novamente uma compreensão para o sentido dessa pergunta, não se tratando agora do sentido do ser, mas do sentido da pergunta pelo ser, tendo a palavra sentido mudado bruscamente de sentido. * Até então sentido do ser significava significação do ser, o compreendido por meio da palavra ser, passando agora sentido da pergunta pelo ser a significar importância, necessidade, urgência de colocar a pergunta pelo ser, sendo essa, sem dúvida, a chave de todo o prefácio: não se está perplexo por não entender teoricamente o que significa ser porque já se crê sabê-lo, tendo o ser perdido para nós seu mistério, deixado de ser algo estranho, incompreensível. * Cita-se que aquilo que, estando oculto, incitava e mantinha na inquietude o filosofar antigo converteu-se em algo óbvio e claro como o sol. 7. Ao propor que se esforce por despertar uma compreensão para o sentido da pergunta pelo ser, mostra-se a primeira exigência de toda a obra Ser e tempo: estabelecer as condições para que a existência se ponha em marcha rumo à busca do sentido do ser, chegando com essa frase o Prefácio a seu ápice, referindo-se o que se segue às grandes linhas em que se há de desenvolver Ser e tempo. * Cita-se que a elaboração concreta da pergunta pelo sentido do ser é o propósito do presente tratado, escrevendo-se Ser e tempo para elaborar de forma concreta essa pergunta, significando elaboração ([[lx>termos:a:ausarbeitung|Ausarbeitung]]) o desenvolvimento completo e exaustivo da pergunta, desenvolvimento que implica obviamente a resposta a essa pergunta. * Significar concreta essa elaboração quer dizer que é necessário não apenas formular em geral a pergunta, mas desdobrá-la em todas as suas direções como atitude da existência humana, isto é, ver tudo o que vai implicado não apenas no perguntado, mas também no próprio perguntar enquanto tal, isto é, enquanto ato vivo de um ente particularíssimo, aquele ente que Heidegger chamará o Dasein. 8. Cita-se que a interpretação do tempo como horizonte de possibilidade para toda compreensão do ser em geral é sua meta provisória, referindo-se essa frase à primeira tarefa que Ser e tempo deve abordar, equivalente ao desenvolvimento de sua Primeira parte. 9. Nessa Primeira parte deve-se esclarecer o tempo, entenda-se o tempo originário, não o tempo vulgar a que ordinariamente se refere, fazendo o tempo originário as vezes de horizonte de possibilidade para a compreensão do ser em geral, isto é, abrindo um espaço dentro do qual é necessário mover-se para toda compreensão do ser em geral, do ser em toda a extensão da palavra, sendo essa interpretação do tempo como horizonte para toda compreensão do ser o objetivo da Primeira parte de Ser e tempo. 10. Compreende-se agora o título dessa obra, que busca esclarecer o sentido do ser à luz do tempo originário, não significando Ser e tempo Ser e, além disso, tempo, mas significando Ser, a partir do tempo, Ser, visto ou compreendido a partir do tempo. 11. Este parágrafo do Prefácio, lembrando-se que no texto alemão há apenas dois parágrafos, diz qual será o propósito da Introdução: fixar a meta provisória, isto é, precisar o que deve averiguar-se quando se quer interpretar o tempo como horizonte da compreensão do ser. * O tempo implica a existência humana, o [[lx>termos:d:dasein|Dasein]], ficando o tempo interpretado quando se analisa o Dasein em sua constituição de ser, em sua estrutura própria, sendo o tempo o sentido do ser do Dasein, servindo esse mesmo tempo, constitutivo do Dasein, de horizonte para a compreensão do ser. * Para fixar a meta que é a interpretação do tempo como horizonte de possibilidade para toda compreensão do ser em geral, será necessário fazer uma análise do Dasein, o que ficará fixado ou proposto em suas grandes linhas na Introdução, devendo esta apresentar também uma aclaração introdutória das investigações incluídas e exigidas pelo propósito final de toda a obra, isto é, pelas duas partes de Ser e tempo, e apresentar ainda o caminho até esse fim, isto é, a metodologia a ser empregada. {{tag>Rivera JRCST1 Platão ser STJR SZ}}