====== Modelo Texto ====== //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// ** O modelo do texto: a ação sensata considerada como um texto ** * A hermenêutica designa primeiramente as regras exigidas pela interpretação dos documentos escritos da cultura, permanecendo fiel ao conceito diltheyano de Auslegung, entendido como interpretação dos signos fixados pela escrita e por formas análogas de inscrição. * As ciências humanas podem ser chamadas hermenêuticas quando seu objeto apresenta traços constitutivos do texto e quando sua metodologia mobiliza procedimentos análogos aos da interpretação textual. * A investigação se orienta por duas questões: em que medida o texto serve de paradigma para o objeto das ciências sociais e até que ponto a metodologia da interpretação textual serve de paradigma para a interpretação nas ciências humanas. ** I. O paradigma do texto ** * A distinção entre linguagem falada e linguagem escrita exige o conceito preliminar de discurso, pois é como discurso que a linguagem pode ser falada ou escrita. * O discurso deve ser entendido como evento de linguagem, em contraposição ao sistema ou código linguístico. * A frase, e não o signo isolado, constitui a unidade de base do discurso, razão pela qual a linguística da frase sustenta uma teoria do discurso como evento. * O discurso se realiza temporalmente e no presente, ao passo que o sistema da língua permanece virtual e alheio ao tempo. * O discurso remete a seu locutor por meio de indicadores de subjetividade, tornando-se autorreferencial. * O discurso refere-se sempre a algo, pois atualiza a função simbólica da linguagem e pretende descrever, exprimir ou representar um mundo. * O discurso dirige-se a um outro, pois somente nele as mensagens são trocadas e a linguagem se torna comunicação efetiva. * Os quatro traços do discurso fazem dele um evento, cuja realização deve ser examinada diferentemente na oralidade e na escrita. * O discurso falado é um acontecimento fugitivo que aparece e desaparece, e por isso somente o discurso, não o sistema atemporal da língua, exige fixação. * O mito do Fedro mostra que a escrita surge como socorro à fraqueza do discurso enquanto evento, mas aquilo que ela fixa não é o acontecimento do dizer, e sim o dito da fala, isto é, a significação do evento de palavra. * A questão decisiva passa a ser determinar o que é dito quando a fala é fixada como significação. * A hermenêutica deve recorrer à teoria dos atos de linguagem de Austin e Searle, segundo a qual o ato de falar comporta níveis locucionário, ilocucionário e perlocucionário. * O ato locucionário se exterioriza na frase, o ato ilocucionário pode ser fixado por paradigmas gramaticais que exprimem sua força, e o ato perlocucionário, embora menos inscritível, também participa em grau menor da exteriorização intencional do discurso. * A significação do ato de linguagem deve abranger a frase, a força ilocucionária e a ação perlocucionária na medida em que esses níveis são codificados, identificáveis e reiteráveis. * A passagem do dizer ao dito exige novas precisões a partir dos demais traços do discurso. * No discurso oral, a intenção subjetiva do locutor e a significação do discurso se recobrem, de modo que compreender o que o locutor quer dizer e compreender o que o discurso quer dizer parecem coincidir. * No discurso escrito, a intenção do autor e a intenção do texto deixam de coincidir, e essa dissociação entre significação verbal e intenção mental constitui o verdadeiro alcance da inscrição. * O texto não deixa de ter autor, mas seu sentido se desprende do horizonte psicológico finito de quem o escreveu, fazendo com que apenas a interpretação possa socorrer a significação quando a presença física e psíquica do autor já não pode fazê-lo. * O discurso ultrapassa o evento também porque se refere a um mundo, e, no discurso oral, essa referência permanece ligada à situação comum dos interlocutores por meio de gestos, dêiticos, tempos verbais e demais formas ostensivas. * O texto não perde a referência ao ser escrito, mas liberta essa referência da mostração situacional, abrindo um mundo de referências não ostensivas que ampliam o ambiente imediato em direção a novas dimensões do ser-no-mundo. * A compreensão textual confirma a tese heideggeriana de que se compreende primeiro não uma pessoa, mas um projeto, isto é, a abertura de um novo modo de ser-no-mundo. * A referência textual acompanha também Wilhelm von Humboldt, pois a função maior da linguagem é estabelecer a relação entre homem e mundo, sem a qual restaria apenas um jogo absurdo de significantes errantes. * A escrita realiza exemplarmente o quarto traço do discurso, pois já não se dirige apenas a um interlocutor presente, mas a qualquer um capaz de ler, criando seu próprio auditório. * A universalidade do destinatário escrito revela o discurso em sua amplitude, pois ele se liberta do evento momentâneo, da presença do autor, da referência ostensiva e dos limites do face a face. * O objeto das ciências humanas pode ser aproximado do paradigma do texto quando a conduta sensatamente orientada, definida por Max Weber, é considerada segundo caracteres de legibilidade. ** 1. A fixação da ação ** * A ação sensata só se torna objeto de ciência quando passa por uma objetivação equivalente à fixação escrita do discurso. * A ação pode tornar-se objeto científico sem perder sua significância quando, por uma objetivação análoga à escrita, deixa de ser pura transação entre agentes e se torna configuração interpretável por suas conexões internas. * A objetivação da ação é possível porque certos traços internos do agir a aproximam do ato de linguagem e transformam o fazer em uma espécie de enunciação. * A ação possui uma estrutura semelhante ao ato locucionário, pois seu conteúdo proposicional pode ser identificado e reidentificado como o mesmo. * Os verbos de ação, conforme Anthony Kenny, constituem uma classe específica de predicados, irredutível à cópula e capaz de admitir diferentes argumentos na estrutura proposicional da ação. * O estatuto dos complementos dos verbos de ação mostra que certas ações, especialmente atos mentais como crer, pensar, querer e imaginar, envolvem sujeitos existentes e complementos que não existem do mesmo modo. * A estrutura proposicional da ação permite distinguir estado, atividade, efetuação, objeto formal e objeto material, mediante a lógica gramatical dos verbos de ação. * O conteúdo proposicional da ação constitui uma estrutura noemática capaz de ser fixada, destacada do processo de interação e tornada objeto de interpretação. * O noema da ação possui também traços ilocucionários, pois os atos performativos de linguagem descritos por Austin oferecem paradigmas para uma tipologia e uma criteriologia da ação. * A ação pode ser identificada por seu conteúdo proposicional e por sua força ilocucionária, e esses dois aspectos compõem seu conteúdo de sentido. * A inscrição do evento de ação depende de seu conteúdo de sentido, o que conduz à questão sobre aquilo que corresponde à escrita no campo do agir. * A metáfora da marca ajuda a pensar a inscrição da ação, pois certos acontecimentos deixam sua marca no tempo e solicitam leitura mais do que simples audição. * Os demais critérios de textualidade permitem precisar a natureza dessa fixação da ação. ** 2. A autonomização da ação ** * Assim como o texto se desprende de seu autor, a ação se desprende de seu agente e desenvolve consequências próprias, constituindo sua dimensão social. * A distância entre agente e ação torna problemática a atribuição de responsabilidade, especialmente nas ações complexas em que certos segmentos se afastam da intenção inicial e exigem inferência semelhante à atribuição de autoria em crítica literária. * O curso dos acontecimentos desempenha, para a ação, uma função análoga ao suporte material da escrita, pois o tempo social conserva efeitos duráveis e configurações persistentes. * A metáfora do registro ou do dossiê mostra que ações anotadas para exame posterior podem ser julgadas, culpadas ou creditadas, e que a reputação funciona como equivalente informal de tais registros. * A história pode ser entendida como o registro da ação humana, a quase-coisa sobre a qual os atos deixam traços e marcas que escapam ao controle dos agentes individuais. * Pela sedimentação no tempo social, as ações humanas tornam-se instituições, pois sua significação deixa de coincidir com a intenção dos agentes e se articula em obras regidas por regras. * A objetividade própria das ciências sociais procede da fixação social da ação sensata. ** 3. Pertinência e importância ** * Uma ação sensata possui importância quando sua significação ultrapassa a pertinência limitada à situação inicial em que ocorreu. * Uma ação importante desenvolve significações que podem ser atualizadas em situações diferentes daquela de sua produção, adquirindo pertinência durável ou mesmo omnitemporal. * As grandes obras culturais ultrapassam suas condições sociais de produção, assim como o texto desenvolve novas referências e abre novos mundos. * A autonomia das superestruturas em relação às infraestruturas encontra seu paradigma nas referências não ostensivas do texto, pois a obra não apenas reflete seu tempo, mas abre um mundo próprio. ** 4. A ação humana como “obra aberta” ** * A significação da ação humana dirige-se a uma série indefinida de leitores possíveis, pois sua interpretação decisiva pertence à história e não apenas aos contemporâneos. * A ação humana é obra aberta porque abre novas referências e permanece à espera de interpretações práticas posteriores que decidam seu sentido. * A dialética entre obra e interpretações introduz a metodologia da interpretação. ** II. O paradigma da interpretação textual ** * A analogia do texto mostra sua fecundidade também no plano da metodologia. * O paradigma textual oferece nova abordagem à relação entre explicar e compreender nas ciências humanas, pois desloca a questão da dicotomia diltheyana para a objetivação própria do discurso como texto. * A objetivação do discurso em texto responde melhor à perplexidade de Dilthey, pois a leitura mostra uma relação dialética entre explicar e compreender. * A dialética da leitura resulta da originalidade da relação escrever-ler, que não se reduz à situação dialogal entre falar e ouvir. * A hermenêutica textual critica a tradição romântica por tomar o diálogo como modelo da interpretação, quando é a leitura que revela o que já há de hermenêutico na compreensão dialogal. * O paradigma da leitura deriva da objetividade do texto, constituída pela fixação da significação, pela dissociação da intenção do autor, pelo desenvolvimento de referências não ostensivas e pela universalidade dos destinatários. * A explicação nasce no interior da esfera dos signos, e não por transferência do modelo das ciências naturais para o campo espiritual. * A dialética entre explicação e compreensão deve ser considerada em dois movimentos: da compreensão à explicação e da explicação à compreensão. ** 1. Da compreensão à explicação ** * A primeira figura da dialética decorre da tese de que compreender um texto não significa reencontrar seu autor, pois a disjunção entre significação e intenção exige construir a significação objetiva. * A compreensão justa não se resolve pelo retorno à intenção presumida do autor, pois a significação objetiva pode ser construída de múltiplas maneiras. * A interpretação assume a forma de um processo em que conjectura e validação correspondem, respectivamente, aos momentos divinatório e gramatical da hermenêutica. * A necessidade de conjecturar não deriva apenas da linguagem metafórica, mas da natureza do texto como totalidade que não se reduz à sucessão linear de frases isoladas. * A relação entre todo e partes exige um juízo reflexionante, pois a reconstrução do texto depende circularmente de uma hipótese sobre o todo e da construção dos detalhes. * O texto é também um indivíduo cuja localização e individualização se fazem pelo fechamento progressivo de conceitos genéricos relativos ao gênero literário, à classe textual e às estruturas que nele se cruzam. * O texto pode ser abordado de diferentes perspectivas, pois seus temas não possuem a mesma altitude e cada leitura envolve uma unilateralidade conjectural. * O problema da interpretação nasce da própria intenção verbal do texto, que é uma totalidade cumulativa e holística, aberta a uma pluralidade de leituras e construções. * A validação das conjecturas aproxima-se mais de uma lógica da probabilidade do que de uma lógica da verificação empírica, constituindo uma disciplina argumentativa semelhante à interpretação jurídica. * O equilíbrio entre o gênio da conjectura e a ciência da validação constitui o equivalente moderno da dialética entre verstehen e erklären. * O círculo hermenêutico entre conjectura e validação não é vicioso, pois os procedimentos de invalidação e o conflito entre interpretações rivais funcionam como critério de superioridade relativa. * A pluralidade de construções possíveis não implica equivalência de todas as interpretações, pois o texto é um campo limitado de construções e a validação permite mover-se entre dogmatismo e ceticismo. * A dialética entre conjecturar e validar possui valor paradigmático para as ciências humanas, porque ações, acontecimentos históricos e fenômenos sociais também comportam uma plurivocidade limitada por sua própria natureza. * A relação entre intenção e motivação da ação mostra que compreender uma ação envolve responder ao “por quê?” mediante motivos entendidos como razões, e não apenas como causas. * A razão de agir permite considerar a ação como tal ou tal, tornando desejos e crenças fontes de sentido e abrindo a possibilidade de argumentar sobre a significação da ação. * A base motivacional da ação pode ser construída interpretativamente, pois os caracteres de desejabilidade que explicam a ação revelam uma plurivocidade semelhante à do texto. * A extensão da conjectura ao campo da ação é legitimada porque a argumentação sobre uma ação distancia desejos e crenças, submetendo-os à confrontação com pontos de vista opostos. * A validação também pode ser estendida ao campo da ação, pois a imputação de atos a agentes recorre a procedimentos próximos do raciocínio jurídico. * L. A. Hart mostra que o raciocínio jurídico constrói decisões de referência única mediante refutação de desculpas e defesas, oferecendo um modelo geral de validação para a crítica literária e as ciências sociais. * A validação tem caráter polêmico, pois textos e ações manifestam sua plurivocidade no conflito das interpretações, sem que exista nas ciências humanas um último veredito equivalente à decisão imposta pela força pública. ** 2. Da explicação à compreensão ** * A segunda figura da dialética parte da função referencial do texto, que ultrapassa a simples designação ostensiva da situação comum aos interlocutores. * A suspensão da referência ostensiva permite duas atitudes de leitura: tratar o texto como entidade sem mundo ou efetuar suas referências potenciais em uma nova situação. * A leitura estrutural prolonga legitimamente a suspensão da referência ostensiva e se instala na clausura do texto como sistema fechado de signos. * A literatura pode ser convertida metodologicamente em análogo da língua, pois a constituição do texto e do sistema de textos autoriza tratá-los como sistemas fechados. * A atitude explicativa aplicada ao texto deriva do domínio semiológico e não das ciências da natureza, pois abstrai sistemas de processos e define unidades por suas oposições internas. * O modelo estrutural aplica-se aos textos como sequências de signos superiores à frase, e Claude Lévi-Strauss o emprega exemplarmente na análise dos mitos. * As grandes unidades do mito podem ser tratadas segundo regras análogas às unidades linguísticas menores, permitindo explicar o mito sem ainda interpretá-lo. * A análise formal dos mitos não pode reduzir-se a uma álgebra vazia, pois mesmo os mythèmes de Lévi-Strauss permanecem frases portadoras de significação e referência. * As oposições mediadas pelo mito têm sentido porque concernem a nascimento, morte, cegueira, lucidez, sexualidade e verdade. * A análise estrutural conduz da semântica de superfície do mito narrado à semântica profunda das situações-limite que constituem seu referente último. * A análise estrutural é uma etapa necessária entre interpretação ingênua e interpretação erudita, permitindo situar explicação e compreensão em dois estágios de um único arco hermenêutico. * A semântica profunda do texto não é a intenção do autor, mas aquilo de que o texto trata, isto é, o mundo aberto por suas referências não ostensivas. * Compreender um texto é seguir seu movimento do sentido à referência, do que ele diz àquilo sobre o que fala, graças à mediação da análise estrutural. * A análise estrutural justifica a abordagem objetiva e corrige a abordagem subjetiva, impedindo que a compreensão seja identificada à apreensão intuitiva de uma intenção escondida. * A segunda figura da dialética entre explicar e compreender tem valor paradigmático para todo o campo das ciências humanas. * O modelo estrutural pode estender-se a fenômenos sociais na medida em que estes apresentam caráter semiológico e relações análogas às dos sistemas de signos. * A realidade social é fundamentalmente simbólica quando a função semiótica de substituir e representar coisas por signos aparece como fundamento, e não como simples superestrutura da vida social. * A explicação estrutural difere da causalidade humiana, pois privilegia correlações internas em sistemas semióticos e exige reformular a motivação social fora do antigo debate entre motivos e causas. * A semântica profunda possui função mediadora entre análise estrutural e apropriação, permitindo que a apropriação perca seu caráter psicológico e adquira função epistemológica. * Os fenômenos sociais também possuem semântica profunda, pois suas estruturas se confrontam com perplexidades da existência e conflitos enraizados na vida humana. * As estruturas sociais têm dimensão referencial porque projetam um mundo que ultrapassa a simples situação, permitindo passar de interpretações superficiais a interpretações profundas por meio da análise estrutural. * As configurações significantes das ciências humanas exigem compromisso pessoal semelhante ao do leitor diante da semântica profunda de um texto, mas esse compromisso deve ser mediado por procedimentos explicativos. * A compreensão não consiste em apreender imediatamente uma vida psíquica alheia nem em identificar-se emocionalmente com uma intenção mental, pois ela é inteiramente mediada pelas explicações que precede e acompanha. * A apropriação pessoal tem como contraparte a significação dinâmica revelada pela explicação, isto é, a capacidade de um texto ou fenômeno humano abrir um mundo. * O paradigma da interpretação textual autoriza incluir o engajamento pessoal final no conjunto das mediações objetivas e explicativas, sem destruir a cientificidade das ciências humanas. * A retificação da noção de engajamento pessoal conserva o círculo hermenêutico como estrutura inevitável do conhecimento das coisas humanas, mas impede que ele se torne círculo vicioso. * A correlação recíproca entre explicação e compreensão constitui, finalmente, o círculo hermenêutico.