====== Intersubjetividade ====== //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// ** Hegel e Husserl sobre a intersubjetividade ** * A comparação entre Hegel e Husserl deve concentrar-se no capítulo “Geist” da Fenomenologia do Espírito e na quinta Meditação cartesiana, a fim de perguntar se a fenomenologia husserliana consegue substituir o conceito hegeliano de espírito objetivo por uma teoria da intersubjetividade. * A questão dirige-se sobretudo a Husserl, mas só se torna possível porque Hegel legou a tarefa de enfrentar as dificuldades da vida comum, histórica e institucional sem recorrer necessariamente à dialética do espírito. * A aproximação entre as duas fenomenologias não se reduz a uma homonímia, pois o capítulo hegeliano sobre o Geist concerne ao espírito no elemento da consciência, permitindo uma comparação real com Husserl. ** I. O espírito hegeliano no elemento da consciência ** * A Fenomenologia do Espírito é ciência da experiência da consciência, pois a consciência permanece o meio no qual se recapitulam as modalidades pelas quais o humano descobre a verdade. * Mesmo quando o itinerário deixa de ser o de uma consciência individual e se torna experiência histórica, a fenomenologia hegeliana permanece uma fenomenologia no elemento da consciência. * A relação entre Hegel e Husserl é cruzada, pois Husserl oferece uma fenomenologia da consciência que se eleva à problemática do espírito, enquanto Hegel oferece uma fenomenologia do espírito que permanece no meio da consciência. * O capítulo “Geist” supera a fenomenologia da consciência, mas ainda é necessário mostrar em que sentido continua a ser fenomenológico. * O espírito diz algo que consciência, consciência de si e razão ainda não diziam, pois designa a efetividade ética concreta realizada em ações, obras e instituições. * A consciência torna-se universal somente ao ingressar no mundo da cultura, dos costumes, das instituições e da história, de modo que o espírito é a efetividade ética diante da qual os estágios anteriores permanecem abstratos. * O espírito hegeliano parece exceder o campo husserliano porque nele termina o reino da consciência separada de seu outro, e toda alteridade parece superada. * A Enciclopédia restringe o termo fenomenologia ao segmento em que a consciência visa um outro fora de si, enquanto a filosofia do espírito objetivo se situa fora desse campo fenomenológico. * A diferença entre espírito e consciência consiste em que o espírito não é tensão para um outro que lhe falta, mas imanência de suas determinações, reconciliação entre fato e sentido e fim da separação entre racionalidade e existência. * A pergunta decisiva não é apenas se Husserl pode igualar ou substituir o espírito hegeliano, mas se esse espírito precisa de fato ser igualado ou substituído. * A fenomenologia de Hegel não é uma fenomenologia da consciência, mas uma fenomenologia do espírito no elemento da consciência, porque o espírito ainda não é plenamente igual a si mesmo e conserva momentos de dor, separação, luta e distância. * O capítulo VI permanece fenomenológico porque o espírito só será plenamente consciência e consciência de si nas esferas posteriores da religião e do saber absoluto. * A teoria do Geist continua fenomenológica porque o espírito certo de si mesmo funciona como critério hermenêutico das figuras anteriores, revelando nelas falta, alienação e separação. * A morte da bela totalidade ética da cidade grega faz ressurgir a consciência infeliz na tragédia, mostrando que a história do espírito ainda passa pelas dores da consciência. * A pessoa jurídica romana e a alma cristã aparecem como consciências dilaceradas diante de um senhor do mundo. * A cultura coincide com alienação quando a entrada no mundo cultural exige dessaisissement, saída de si, oposição a si e reencontro apenas por meio de separação e dilaceração. * A consciência atravessa o poder, a riqueza, o discurso, a fé e as Luzes antes de alcançar a certeza de si mesma. * A experiência da Terreur mostra que uma liberdade abstrata, sem mediação institucional, torna-se mortal por permanecer pura negatividade. * A crítica hegeliana liga a liberdade não mediada e o imperativo sem conteúdo ao mesmo mal-estar da consciência, pois ambos recusam a passagem pela instituição. * O espírito ultrapassa a consciência, mas só se torna certo de si atravessando suas angústias e estreitos, e é essa passagem que constitui a fenomenologia. * A interseção com Husserl torna-se possível, embora a consciência hegeliana seja histórica e não transcendental, pois nasce da dor do arrancamento e não se coloca acima da história. ** II. A intersubjetividade segundo Husserl contra o espírito segundo Hegel ** * A questão consiste em saber se a teoria husserliana da intersubjetividade pode ocupar o lugar da teoria hegeliana do espírito. * O primeiro argumento exige compreender a constituição husserliana não como criação soberana de sentido, mas como explicitação ou Auslegung. * A constituição em Husserl deve ser entendida como trabalho de explicitação, e apenas nesse sentido pode ser comparada ao espírito hegeliano apreendido no elemento da consciência. * A interpretação idealista da fenomenologia husserliana favorece a aparência de um sujeito soberano do sentido, mas Husserl oferece recursos para sair desse idealismo subjetivo. * O primeiro recurso contra o idealismo subjetivo é o fio condutor transcendental do objeto, pois a constituição parte sempre de um polo de identidade já dado e desdobra retrospectivamente suas camadas de sentido. * O segundo recurso é que a constituição de outrem também parte de um sentido já dado, pois o solipsismo funciona como hipótese hiperbólica para mostrar a pobreza de uma experiência reduzida ao próprio. * A redução ao próprio mostra que a objetividade do mundo exige uma rede intersubjetiva, e não apenas o “eu penso” kantiano. * O solipsismo transforma em tarefa aquilo que parecia fato evidente: compreender como há outros, uma natureza comum e uma comunidade humana. * A constituição de outrem toma como fio condutor a direção já compreendida, na atitude natural e na linguagem ordinária, para um outro eu. * A filosofia transcendental apoia-se na atitude natural como reserva de sentido e de aporias, pois transforma em enigma aquilo que se sabia ou se acreditava saber. * A constituição é explicitação quando desdobra o potencial de sentido de uma experiência e revela seus horizontes internos e externos. * A explicitação pode ser pensada de maneira mais dialética do que Husserl a concebeu, sobretudo quando experiências negativas tornam produtivas as contradições. * A fenomenologia como Auslegung do ego não implica domínio do processo de sentido, mas participação em um trabalho infinito que constitui o próprio eu. * O segundo argumento concerne ao papel da analogia entre os ego, pois esse princípio ocupa o lugar que o Geist hegeliano pretendia ocupar. * A analogia significa que o alter ego é outro ego como eu, constituindo o princípio último e insuperável da intersubjetividade. * A analogia husserliana deve ser distinguida de qualquer raciocínio por analogia, pois não se trata de inferir a experiência de outrem a partir de uma comparação entre comportamentos. * A crítica do raciocínio por analogia é condição para compreender o uso transcendental da analogia, fundado na percepção direta de outrem como outro sujeito. * A percepção de outrem é uma percepção interpretante que já apreende não uma coisa mais complexa, mas um sujeito para si mesmo. * A co-posição de dois sujeitos rompe a simetria entre percepção da coisa e percepção do comportamento, revelando a duplicação do ego na expressão alter ego. * O fio da imaginação também conduz à dificuldade central, pois imaginar-se no lugar de outrem ajuda a ler sua experiência, mas permanece neutro quanto à posição real de sua existência. * A analogia husserliana explica o “como” de “como eu”: o outro pensa, sente e age como eu, sem que isso constitua argumento lógico ou anterioridade cronológica do próprio sobre outrem. * A significação ego é transferida analogicamente de mim a ti, de modo que a segunda pessoa significa outra primeira pessoa. * A analogia da significação ego é comparável à analogia do ser na tradição escolástica, pois não é unívoca nem equívoca, mas analógica. * A analogia é princípio transcendental de experiências perceptivas, imaginativas e culturais, regulando também o raciocínio jurídico e a imputação moral da ação a um agente. * O princípio analógico afirma que todos os outros comigo, antes de mim e depois de mim são “eu como eu”, capazes de imputar a si mesmos sua própria experiência. * A analogia estende-se, com Alfred Schutz, aos contemporâneos, predecessores e sucessores, alcançando inclusive aqueles que não podem ser conhecidos diretamente. * O homem é semelhante mesmo quando não é próximo, e a analogia preserva a igualdade da significação “eu” nas segundas e terceiras pessoas. * O terceiro argumento afirma que Husserl deve sustentar todas as construções culturais e históricas apenas pela analogia do ego, sem recorrer a uma entidade suplementar chamada espírito. * A teoria husserliana precisa ser lida em conjunto com uma sociologia compreensiva, especialmente a de Max Weber, para oferecer conteúdo empírico ao transcendental vazio da intersubjetividade. * Husserl estabelece que a constituição do estrangeiro no próprio é reversível, pois cada eu deve poder perceber-se como outro entre outros. * Husserl estabelece também que a existência social pressupõe uma natureza comum, pois o mundo natural não se multiplica conforme as consciências que o percebem. * A comunicação da experiência das coisas naturais é pressuposta pela comunicação dos objetos culturais. * A comunidade hierarquiza-se até formar objetividades espirituais de diferentes graus, como Estado e instituições persistentes, sem exigir uma entidade distinta das inter-relações dos ego. * A tese husserliana em sociologia consiste em perseguir a analogia do ego do nível mais baixo ao mais alto das comunidades, sem invocar espírito objetivo. * A resposta de Husserl a Hegel só se completa ao ser lida com Max Weber, pois Husserl fornece as condições transcendentais e Weber fornece as análises empíricas da sociologia compreensiva. * Max Weber distingue ação humana de simples comportamento porque a ação pode ser interpretada compreensivamente por seus agentes em termos de significações visadas. * A sociologia compreensiva exclui o que é estranho à questão do sentido, como inundações ou doenças, e toma o indivíduo como portador de sentido. * O individualismo metodológico de Weber constitui a decisão anti-hegeliana fundamental, pois instituições só são compreensíveis enquanto remetem às motivações dos agentes. * A ação social, em Weber, é ação significante orientada para outro, não se reduzindo ao diálogo, mas abrangendo coordenação, rotina, prestígio, cooperação, competição, luta e violência. * O social é inicialmente qualificativo da ação individual orientada por motivos compreensíveis, e não uma substância coletiva autônoma. * Weber denuncia a ilusão jurídica que atribui a sujeitos coletivos obrigações como se fossem pessoas morais dotadas de substância própria. * O Estado, para a sociologia compreensiva, é um agir-com, isto é, uma coação de indivíduos em relações recíprocas, e não uma entidade espiritual superior. * A terceira definição weberiana da ação responde diretamente a Hegel ao reduzir a aparência objetiva das instituições à probabilidade de certo curso de ação. * A probabilidade de um curso de ação combate a reificação das instituições, pois o grau de probabilidade constitui o grau de existência de uma relação social. * O Estado deixa de existir quando deixa de existir a probabilidade de que determinada espécie de ação orientada significativamente ocorra. * As metáforas organicistas só têm valor heurístico e se tornam enganosas quando pretendem explicar o social como totalidade orgânica em vez de reconduzi-lo à compreensão interpretativa das ações. * A dessubstancialização das entidades coletivas realizada por Weber concretiza o projeto husserliano dos últimos parágrafos da quinta Meditação cartesiana. * A articulação entre a analogia transcendental do ego em Husserl e os tipos ideais empíricos de Weber constitui a resposta completa da fenomenologia husserliana à fenomenologia hegeliana. * Husserl oferece o princípio formal a priori da analogia do ego, segundo o qual só há relações intersubjetivas e nunca coisas sociais substanciais. * Weber oferece o conteúdo empírico da vida social por meio da descrição dos tipos ideais. * Uma fenomenologia da intersubjetividade pode substituir parcialmente uma fenomenologia do espírito, embora Hegel permaneça superior pela amplitude de sua Darstellung da experiência histórica social, política, cultural e espiritual. * A superioridade hegeliana quanto aos conteúdos não é absoluta, pois Weber pode superá-lo em economia, política e história comparada das religiões. * Hegel também se distingue pelo uso sistemático das contradições produtivas, embora a negatividade talvez seja apenas uma das estratégias possíveis da explicitação. * A Auslegung husserliana preserva maior variedade de figuras da mutualidade intersubjetiva ao não reduzir toda explicitação ao modelo dialético da negatividade. * A vantagem decisiva de Husserl sobre Hegel é recusar a hipóstase das entidades coletivas e reduzi-las sempre a redes de interações. * A substituição da intersubjetividade pelo espírito objetivo preserva os critérios mínimos da ação humana: projetos, intenções, motivos e agentes capazes de imputar a si mesmos seus atos. * O abandono desses critérios conduz à hipóstase das entidades sociais e políticas, à sacralização do poder e ao temor diante do Estado. * A analogia do ego funciona como protesto crítico contra a reificação das relações humanas, mostrando que a reificação define o mal da história e não sua constituição originária. * Se a analogia do ego é o transcendental das relações intersubjetivas, torna-se tarefa teórica e prática fazer prevalecer a similitude do homem como semelhante nas relações com contemporâneos, predecessores e sucessores. * A intersubjetividade husserliana pode tornar-se instância crítica à qual o próprio Geist hegeliano deve ser submetido.