====== Ideologia e Utopia ====== //RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.// ** A ideologia e a utopia: duas expressões do imaginário social ** * A ideologia e a utopia são fenômenos fundamentais do imaginário social, pelos quais se articulam expectativas voltadas ao futuro, tradições herdadas do passado e iniciativas no presente, revelando a estrutura essencialmente conflitiva da imaginação coletiva. * A compreensão conjunta da ideologia e da utopia encontra dificuldades porque ambas são usualmente tomadas em sentido polêmico e pejorativo, embora cada uma possua função construtiva e destrutiva no imaginário social. * A ideologia costuma ser reduzida à distorção e à dissimulação da pertença social, enquanto a utopia costuma ser acusada de fuga do real e de sonho político incapaz de considerar as condições concretas da ação. * A análise deve ordenar os níveis de significação da ideologia e da utopia, compará-los paralelamente e buscar sua correlação profunda no nível mais fundamental de cada uma. ** I. A ideologia ** * A ideologia deve ser examinada em três usos igualmente legítimos, correspondentes a três níveis de profundidade. * A ideologia como distorção-dissimulação parte do uso marxiano do termo, no qual a imagem invertida da câmara escura serve de metáfora para compreender a representação falsificada da realidade. * A crítica feuerbachiana da religião fornece a Marx o paradigma da inversão ideológica, pois os predicados humanos são projetados em um sujeito divino imaginário e retornam como predicados humanos de um sujeito divino. * O sentido propriamente marxista da ideologia liga as representações à praxis, fazendo da ideologia o reflexo imaginário pelo qual a vida real dos homens é falsificada. * A tarefa revolucionária vincula-se à teoria da ideologia na medida em que deve recolocar sobre os pés o homem que anda de cabeça para baixo, reconduzindo as ideias do céu imaginário à terra da praxis. * No primeiro Marx, a ideologia se opõe à praxis, e só posteriormente, com a constituição doutrinal do marxismo, passa a ser oposta globalmente à ciência. * O primeiro conceito marxista de ideologia não deve ser rejeitado, mas situado em relação a uma função mais fundamental e constitutiva da realidade social e da praxis. * A metáfora da inversão deixa sem explicação o modo pelo qual a vida real poderia produzir uma imagem de si mesma, a menos que se reconheça na própria ação uma mediação simbólica suscetível de perversão. * O imaginário é coextensivo ao processo da praxis, pois uma imagem falsa só pode nascer da realidade se a ação já estiver atravessada por imaginação. * No segundo nível, a ideologia aparece menos como parasita falsificador do que como justificadora, especialmente quando interesses particulares de uma classe se apresentam como interesses universais. * A justificação ideológica liga-se ao fenômeno da dominação, mais amplo que a luta de classes, pois toda dominação tende a justificar-se por noções capazes de passar por universais. * A retórica do discurso público responde à necessidade de persuasão da dominação, fornecendo ideias pseudo-universais e figuras capazes de sustentar a autoridade. * Nenhuma sociedade funciona sem normas, regras e simbolismo social, e esse simbolismo exige uma retórica pública que, em si mesma, pertence ao funcionamento normal do discurso misturado à praxis. * A retórica pública torna-se ideológica quando se põe a serviço da legitimação da autoridade. * Todo sistema de autoridade reivindica legitimidade em grau superior à crença que os subordinados podem oferecer, exigindo uma mais-valia de crença. * Onde há poder há reivindicação de legitimidade, e onde há reivindicação de legitimidade há recurso à retórica pública para persuadir. * O segundo nível do fenômeno ideológico é definido pela legitimação, não pela dissimulação, embora deva permanecer sempre suspeito por exceder a crença disponível. * As teorias do contrato social mostram a dificuldade de explicar o salto pelo qual se passa da guerra à paz civil, pois esse salto implica o nascimento da autoridade e o início da legitimação. * O fenômeno da autoridade não pode ser engendrado a partir de um grau zero acessível, mas só compreendido a partir de bases mais profundas. * O terceiro nível da ideologia é sua função de integração, mais fundamental que a legitimação e a dissimulação. * As cerimônias comemorativas mostram que uma comunidade reatualiza simbolicamente os acontecimentos que considera fundadores de sua identidade. * A ideologia serve de relais da memória coletiva, fazendo com que o valor inaugural dos eventos fundadores se torne crença do grupo inteiro. * O acontecimento fundador só pode ser revivido por interpretações que o remodelam depois do fato, fazendo-o representar-se ideologicamente à consciência coletiva. * Todo grupo adquire consistência e permanência pela imagem estável e durável que dá a si mesmo, e essa imagem exprime o nível mais profundo da ideologia. * A função de integração só se perpetua passando pela legitimação e pela dissimulação, pois a memória fundadora tende a ritualizar-se, esquematizar-se e domesticar-se. * A ideologia conserva poder mobilizador ao tornar-se justificadora da autoridade pela qual a comunidade se expressa como grande indivíduo histórico. * A commemoração transforma-se facilmente em argumentação estereotipada, pela qual o grupo afirma que é bom ser como é. * A ideologia degenera quando sua função justificadora se converte em grade artificial e autoritária para interpretar o grupo, a história e o mundo. * A ideologia pode contaminar ética, religião e ciência, como mostram as distinções entre ciência burguesa e proletária ou entre arte burguesa e proletária. * A ciência e a tecnologia também podem tornar-se ideológicas quando a função de manipulação e controle substitui comunicação, avaliação ética e meditação metafísica ou religiosa. * A degeneração da ideologia não deve ocultar seu papel positivo, pois um grupo só representa sua existência por uma imagem idealizada de si, ainda que essa imagem gere racionalização, ritualização e slogans. * A hierarquia da ideologia deve ser percorrida nos dois sentidos: a ilusão é corrupção da legitimação enraizada na integração, mas toda idealização tende também à distorção, à dissimulação e ao falso. ** II. A utopia ** * A análise da ideologia exige uma análise paralela da utopia porque a ideologia interpreta, reforça e conserva a vida real do grupo, enquanto a utopia projeta a imaginação para fora do real, em um outro lugar que é também lugar nenhum. * A utopia deve ser pensada também como ucronia, pois desloca o imaginário não só para outro espaço, mas para outro tempo. * A utopia, em seu nível fundamental, é complemento necessário da ideologia: se a ideologia preserva a realidade, a utopia a põe radicalmente em questão. * A utopia exprime as potencialidades de um grupo reprimidas pela ordem existente e funciona como exercício de imaginação para pensar um “autrement qu’être” do social. * A história das utopias mostra que nenhum domínio social escapa à imaginação de alternativas: família, apropriação, consumo, política e religião. * As utopias produzem projetos opostos porque não se definem por conteúdos comuns, mas pela função de propor uma sociedade alternativa. * A utopia responde ao “ser assim e não de outro modo” da ideologia por meio de um “alhures” e de um “outro modo de ser”. * No segundo nível, a utopia corresponde à legitimação ideológica ao pôr em questão as formas de poder exercidas na família, na economia, na política, na cultura e na religião. * As utopias são variações imaginativas sobre o poder, ameaçando a estabilidade e a permanência do real por meio de um desvio entre imaginário e realidade. * Karl Mannheim permite compreender a utopia como exigência de realização histórica dos sonhos acumulados pela imaginação religiosa e política. * Em Thomas Münzer, a utopia quer ser escatologia realizada, trazendo para o meio da história aquilo que a pregação cristã adia para o fim da história. * A radicalidade utópica apaga a distinção entre expectativa, memória e iniciativa, exigindo a realização imediata do reino de Deus na terra. * A fraqueza da utopia aparece quando, ao gerar poderes, anuncia tiranias futuras talvez piores do que aquelas que pretende derrubar. * A mentalidade utópica carece de reflexão prática e política sobre os apoios que pode encontrar no real existente, nas instituições e no crível disponível de uma época. * A utopia salta para o alhures e corre o risco de produzir um discurso louco ou sanguinário. * O imaginário utópico pode construir uma nova prisão em esquemas tanto mais coercitivos quanto menos submetidos às resistências do real. * A utopia tende a desprezar a lógica da ação e a não indicar o primeiro passo possível a partir do real existente. * A patologia da utopia é inversa à da ideologia: onde a ideologia reforça a praxis até a dissimulação, a utopia dissolve o real em esquemas perfectionistas e irrealizáveis. * A lógica utópica do tudo ou nada substitui a lógica da ação, ignorando que o desejável e o realizável não coincidem e que toda ação engendra contradições inevitáveis. * A degeneração utópica conduz alguns à fuga pela escrita, outros à nostalgia do paraíso perdido e outros à violência indiscriminada. * A função libertadora da utopia deve ser reencontrada sob suas caricaturas, pois imaginar o não lugar mantém aberto o campo do possível. * A utopia impede que o horizonte de expectativa se funda com o campo da experiência, mantendo aberta a distância entre esperança e tradição. * A ideologia e a utopia se entrecruzam necessariamente no imaginário social como tensão entre função de integração e função de subversão. * A ideologia e a utopia correspondem, no plano social, à imaginação reprodutora e à imaginação produtora. * O imaginário social exerce sua função excêntrica pela utopia e sua função de redobramento do real pela ideologia. * O imaginário social só é alcançado por meio de formas patológicas e inversas de falsa consciência, ideologia e utopia. * O poder criador da imaginação só se deixa apropriar criticamente mediante o confronto com as duas figuras da consciência falsa. * A crítica radical das ideologias exige a função utópica de contestação e projeção para um alhures radical. * A cura da loucura utópica exige a função sadia da ideologia, isto é, sua capacidade de oferecer a uma comunidade histórica uma identidade narrativa. * O paradoxo do imaginário social consiste em que só se pode sonhar um alhures a partir de uma identidade narrativa conquistada pela interpretação das tradições, enquanto as ideologias que dissimulam essa identidade exigem uma consciência capaz de olhar-se a partir de lugar nenhum.