====== Lógica Hermenêutica ====== //RICŒUR, Paul. Écrits et conférences II. Paris: Éd. du Seuil, 2008.// ** “Lógica hermenêutica”? ** * A possibilidade de falar em lógica hermenêutica reaparece após Hans Lipps, não como simples retorno a uma filosofia da vida superada, mas como esforço da hermenêutica pós-heideggeriana para refletir sobre as condições de possibilidade de seu próprio discurso e situar-se diante das preocupações lógicas da filosofia contemporânea. ** 1. Radicalização antilógica? ** * A radicalização heideggeriana da hermenêutica parece afastar-se das questões epistemológicas de Dilthey, nas quais se buscava defender a autonomia das ciências do espírito, distinguir compreensão e explicação e fundar essa diferença na capacidade de transposição para uma vida psíquica alheia. * Heidegger rompe com esse modo de interrogação ao deslocar a hermenêutica para a ontologia, fazendo da pergunta pelo Dasein o caminho preparatório para a questão do sentido do ser. * A compreensão deixa de ser primeiramente método das ciências do espírito e torna-se estrutura do ser-no-mundo, enquanto a interpretação desenvolve a compreensão já articulada na situação. * A hermenêutica heideggeriana recusa começar pelo discurso proposicional, pois o primeiro meio de articulação é o próprio ser-no-mundo e só depois a compreensão se explicita em discurso. * A pergunta pelas condições de possibilidade deixa de remeter a um sujeito epistemológico kantiano e passa a remeter ao ser lançado-projetante, cuja estrutura é mais bem designada como cuidado do que como conhecimento. * A subordinação da epistemologia à ontologia culmina quando a metodologia das ciências históricas é substituída pela historicidade do Dasein, pois antes de a história ter objeto e método já se é histórico. * A hermenêutica radicalizada de Heidegger possui motivação anti-epistemológica e antilógica, mas não pode evitar uma interrogação de segundo grau sobre a possibilidade e o estatuto de seu próprio discurso. * A verdade hermenêutica exige situar o logos hermenêutico em relação ao logos apofântico, pois a capacidade desveladora da compreensão e da situação deve medir-se com a pretensão de verdade da proposição. * A analítica existencial mostra que a hermenêutica não retorna ao irracional, mas opera por distinções, determinações e relações, articulando existenciais como ser-no-mundo, situação e compreensão. * A diferença entre existenciais e categorias, embora fundada em modos distintos de ser, só aparece no discurso como diferença categorial, obrigando a hermenêutica a enfrentar a questão das condições de possibilidade de seu próprio dizer. * A hermenêutica heideggeriana não elimina sua origem nas ciências do espírito, pois continua pretendendo fundá-las, ainda que só esboce a passagem da historicidade ontológica para a ciência histórica objetiva. * A derivação da história-ciência a partir da historicidade permanece incompleta, pois Heidegger realiza a subida ao fundamento sem completar o retorno às categorias epistemológicas das ciências humanas. * A justificação ontológica do círculo hermenêutico mostra sua força originária na relação entre pré-compreensão e situação, mas não resolve as dificuldades específicas da interpretação de textos. * O retorno heideggeriano ao fundamento torna secundárias questões antigas da exegese, da filologia e da jurisprudência, embora a capacidade de retomá-las meça a pretensão fundamental da hermenêutica. ** 2. Verdade e/ou método? ** * A obra Verdade e método, de Gadamer, constitui o segundo momento de passagem entre a hermenêutica das ciências humanas e a investigação sobre a condição epistemológica da hermenêutica. * O título de Gadamer parece sugerir uma alternativa entre verdade e método, sobretudo para leitores formados pela filosofia analítica. * A experiência de partida de Gadamer é a distanciamento alienante que sustenta a objetividade das ciências humanas e pressupõe a ruptura do pertencimento primordial àquilo que se interpreta. * O debate entre distanciamento alienante e experiência de pertencimento percorre as esferas estética, histórica e linguística, nas quais a apreensão da coisa bela, a tradição e a co-pertença ao dito precedem a objetivação metódica. * A estética fornece à hermenêutica um ponto de apoio decisivo contra a pretensão da consciência julgadora de dominar o sentido, abrindo caminho para a experiência histórica e linguística. * A segunda parte de Verdade e método concentra o antimetodologismo de Gadamer na reabilitação do preconceito, da tradição e da autoridade, na história dos efeitos e na fusão dos horizontes. * O preconceito deixa de ser apenas obstáculo iluminista ao pensamento e passa a designar a projeção, no plano do juízo, da condição fundamental de pertencer a tradições. * A tradição exprime a finitude histórica da compreensão de si, e a autoridade não se reduz a dominação, pois repousa no reconhecimento de uma superioridade recebida. * As ciências do espírito se edificam sobre o solo da transmissão e da recepção das tradições, e a investigação histórica só formula perguntas sensatas a partir de uma tradição que a interpela. * A Wirkungsgeschichte exprime a consciência de estar exposto à ação da história, de tal modo que essa eficácia não pode ser objetivada de fora porque participa do próprio sentido do fenômeno histórico. * A história dos efeitos possui sentido negativo ao excluir todo saber absoluto sobre o passado e sentido positivo ao mediar o acesso ao que se torna significativo, memorável e digno de ser narrado. * A fusão dos horizontes mostra que a eficácia histórica não aprisiona no passado, pois a compreensão se dá na tensão entre o ponto de vista próprio e o ponto de vista outro. * A fusão dos horizontes recusa tanto a inclusão objetivista quanto a superação especulativa, afirmando que a transferência para outra cultura pressupõe uma entente prévia sobre a coisa mesma. * A relação entre verdade e método não é simples oposição, pois a hermenêutica filosófica reflete sobre condições não epistemológicas da própria epistemologia. * A reabilitação do preconceito não implica submissão a toda tradição, pois a preservação de um legado cultural envolve crítica e debate entre inovação e conservação. * A aplicação constitui o momento crítico pelo qual o sentido recebido é atualizado em situação nova, como mostra a hermenêutica jurídica no trabalho do juiz. * A história dos efeitos exige o complemento crítico da distância histórica, pois a eficácia do passado se exerce mediante a proximidade do longínquo e não pela supressão da distância. * A fusão dos horizontes encontra seu complemento crítico na estrutura dialógica da pergunta e da resposta, pela qual a compreensão se desenvolve dentro de uma comunidade linguística. ** 3. A pretensão da hermenêutica à universalidade posta em questão ** * A batalha epistemológica em torno da hermenêutica concentra-se na questão de sua pretensão à universalidade. * A hermenêutica parece universal quando subordina toda explicação a uma compreensão prévia do mundo, mas parece limitada quando funciona apenas como arte interpretativa das ciências do espírito. * Apel e Habermas acentuam a cientificidade da hermenêutica em detrimento de sua universalidade, situando-a num conjunto científico mais amplo. * Habermas substitui a consciência da tradição por uma teoria dos interesses do conhecimento, distinguindo interesse técnico, interesse prático de comunicação e interesse emancipatório. * As ciências histórico-hermenêuticas correspondem ao interesse prático pela comunicação, pela interpretação de mensagens, pela tradição textual e pela interiorização de normas sociais. * O interesse emancipatório desloca a discussão para as ciências sociais críticas, sobretudo a crítica das ideologias e a psicanálise. * A crítica das ideologias toma como campo as comunicações sistematicamente distorcidas, enquanto a psicanálise oferece o modelo de uma explicação quase objetiva de processos opacos. * A hermenêutica encontra limite quando a distorção não é simples má compreensão interna à linguagem, mas efeito de forças sociais, trabalho, dominação e violência. * A tradição torna-se ambígua porque designa tanto a dependência legítima de um passado transmitido quanto conteúdos ideologicamente congelados de relações humanas. * A hermenêutica pode ser acusada de idealismo linguístico quando ignora a dependência do discurso em relação às forças sociais que produzem distorções sistemáticas. * O fenômeno ideológico constitui experiência-limite da hermenêutica, pois exige procedimentos explicativos e não apenas uma explicitação mais penetrante da compreensão. * Habermas recusa a ontologização gadameriana do acordo, pois a experiência feliz da entente não pode ser canonizada como paradigma de toda ação comunicativa. * A crítica das ideologias pensa como antecipação reguladora aquilo que a hermenêutica pensa como tradição assumida, colocando à frente a ideia de comunicação sem limite e sem coerção. * A emancipação supõe uma ressimbolização orientada para o fim da violência, fazendo de um horizonte escatológico de não violência o equivalente crítico da ontologia hermenêutica da entente. * Apel procura restituir à teoria da ciência seu alcance epistemológico sem reduzi-la à lógica analítica da ciência, mediante uma ampliação transcendental da questão kantiana. * A unificação linguística do sentido precede a unificação categorial da experiência, envolvendo um a priori corporal e social ligado aos interesses da práxis. * A complementaridade entre cientificismo e hermenêutica exige rejeitar a ciência unificada neopositivista e retomar a distinção entre compreender e explicar. * A compreensão possui dimensão epistemológica própria porque participa da constituição do sentido nas ciências hermenêuticas. * A filosofia analítica da história reforça a hermenêutica ao resistir ao modelo explicativo de Hempel e Popper, mostrando que a história exige compreender razões de agir em situações singulares. * A hermenêutica torna-se Sprachhermeneutik quando desloca o centro da questão do ser para o caráter linguístico da compreensão do mundo. * A aproximação entre Heidegger, Gadamer e Wittgenstein assenta-se na crítica ao psicologismo e na ideia de que a compreensão é pública e linguisticamente articulada. * A compreensão histórica é uma retificação crítica de práticas narrativas já exercidas no horizonte de uma tradição cultural antes da história tornar-se ciência. * A complementaridade entre explicação objetiva e entendimento intersubjetivo deve valer para toda forma de conhecimento, pois toda práxis técnica pressupõe uma comunidade de comunicação e normas compartilhadas. * Apel e Habermas afastam-se de Gadamer porque a aplicação, embora atualize a tradição, parece insuficiente para o relacionamento moderno com tradições que já não falam imediatamente. * A apropriação moderna do passado exige atravessar a distância e a dúvida, fazendo da distanciação uma condição tanto da apropriação quanto da abstração metódica. * A quase objetivação praticada pelas ciências sociais críticas trata formações culturais tornadas estranhas como sintomas de relações reais e de estruturas materiais opacas. * A explicação crítica necessita de conceitos de segundo grau, mas a hermenêutica recorda que essa suspensão parcial da comunicação visa reintegrar significações alienadas numa compreensão de si mais mediata. * O saber quase objetivo do modelo terapêutico não deve converter-se em técnica de domínio dos homens, pois sua finalidade última é a reflexão e a autocompreensão. * A crítica das ideologias ocupa posição mediadora entre hermenêutica e cientificismo por reunir explicação quase objetiva e retorno à compreensão de si. ** 4. A réplica da hermenêutica ** ** a) ** * A defesa da universalidade hermenêutica distingue a visada universal da hermenêutica e o caráter limitado dos campos de experiência de onde a reflexão parte. * A experiência histórica em Gadamer não esgota a hermenêutica, pois é enquadrada pela experiência da arte e pela experiência linguística, que contêm o princípio de superação dos domínios particulares. * A retórica antiga oferece outro ponto de partida para a universalidade hermenêutica, pois enfrenta a dissolução de vínculos tradicionais e procura trazer à consciência aquilo que se torna evanescente. * A retórica, embora limitada ao discurso oral e à persuasão provável, mostra sua ubiquidade porque até a ciência só se torna culturalmente eficaz por meio dos recursos de compreensão da linguagem comum. * A hermenêutica literária de Jauss renova a experiência estética ao articular produção, recepção e comunicação, enraizando a interpretação erudita na jouissance compreensiva. * Jauss distingue-se de Gadamer ao subordinar a autoridade das obras clássicas à produtividade da compreensão e ao restituir importância à jouissance estética. * A jouissance estética opõe-se à estética negativa de Adorno ao afirmar a função subversiva e educativa da obra de arte contra a passividade da cultura de consumo. * A história hermenêutica dos afetos desinteressados mostra que a arte une negação do mundo, transposição estética, distanciamento dos papéis sociais, identificação lúdica e inauguração de novas normas de ação. * A estética da recepção acrescenta à hermenêutica uma dimensão não estritamente linguística, reforçando o primado do sensus communis sobre o saber conceitual. * A reflexão hermenêutica também emerge nos vínculos entre política e ética, quando se recupera o sentido concreto de éthos, nomos, Sittlichkeit e polis contra reduções normativas ou estatais. * A recuperação da praxis como vida regulada pelos costumes da comunidade permite restaurar a phronèsis e o sensus communis diante das pretensões exclusivas do saber científico. ** b) ** * A hermenêutica responde à acusação de idealismo linguístico integrando ao processo de compreensão o segmento explicativo ou quase explicativo das ciências sociais críticas. * A explicação objetiva das distorções sistemáticas deve terminar numa nova compreensão mediada, de modo que a crítica só se preserva do dogmatismo se não se opuser abstratamente a toda tradição. * O modelo psicanalítico é reconhecido como quase explicação de processos de dessimbolização, mas deve ser criticado quando absolutiza a reflexão ou concede ao especialista poder excessivo sobre a comunicação social. * A relação hermenêutica autêntica entre parceiros sociais não deve ser confundida com a relação médico-paciente, sob pena de transformar conflitos legítimos em patologias a serem administradas. * A hermenêutica só preserva sua credibilidade se mostrar concretamente como a explicação se intercala entre uma compreensão inicial e uma compreensão terminal mais mediada. * A dialética entre pertencimento e distanciação permite articular interpretação e crítica nos campos da análise textual, da história e da teoria da ação. * A análise textual mostra que a escrita e a inscrição fundam a autonomia do texto diante da intenção do autor, das condições sociológicas de produção e do destinatário original. * A autonomia textual permite que a coisa do texto ultrapasse o mundo do autor e se abra a leituras ilimitadas em contextos socioculturais diversos. * A distanciamento pertence à mediação do texto e torna legítima a explicação sem destruir a compreensão. * A teoria da história exige articular a investigação objetiva e explicativa com a compreensão narrativa sem a qual os fatos não teriam significação histórica. * A teoria da ação mostra que a oposição entre explicação causal e compreensão intencional é insustentável, pois motivo e causa se entrelaçam na experiência do agir. * O corpo próprio constitui a raiz comum da causalidade e da motivação, ligando explicação e compreensão no plano da ação. * A noção de intervenção intencional no mundo permite compor as condições da explicação e da compreensão, pois agir é interferir num sistema causal a partir de uma intenção. * A ação humana só se compreende quando os sistemas de causalidade são articulados às razões, aos projetos e às situações dos agentes. * A hermenêutica crítica deve reconhecer a legitimidade da explicação e, ao mesmo tempo, impedir que ela se converta em objetivação dogmática separada da compreensão. ** c) ** * A confrontação entre hermenêutica e filosofia analítica da linguagem reabre a questão de uma lógica hermenêutica em sentido não formalista. * A filosofia analítica aproxima-se da hermenêutica quando reconhece, em Wittgenstein, que jogos de linguagem estão ligados a formas de vida. * A crítica wittgensteiniana ao linguagem privado converge com a hermenêutica ao recusar uma compreensão puramente subjetiva e interior. * A afinidade entre Heidegger, Gadamer e Wittgenstein aparece na recusa do solipsismo, da coisa em si e do sujeito absoluto como problemas herdados da metafísica. * A divergência decisiva está em que Wittgenstein tende a dissolver os problemas especulativos como ilusões gramaticais, enquanto a hermenêutica procura reconduzir a tradição metafísica a formas mais originárias de compreensão. * A filosofia analítica, ao tentar escapar do puro convencionalismo e refletir sobre as condições de seus próprios jogos de linguagem, aproxima-se de uma hermenêutica do linguagem. * A hermenêutica, ao tentar formular proposicionalmente sua própria lógica, aproxima-se de uma reflexão crítica sobre o jogo de linguagem da filosofia e sua relação com outros jogos institucionalizados. * O debate decisivo diz respeito ao modo como a filosofia se relaciona com sua própria história, seja como ruptura radical com a tradição, seja como reapropriação mediada da filosofia especulativa. * Zimmermann reconhece uma hermenêutica dos jogos de linguagem em Wittgenstein, fundada no linguagem natural como base e horizonte de toda compreensão de sentido. * A hermenêutica wittgensteiniana desloca a pré-compreensão para as pressuposições factuais do falar nas formas de vida, recusando tanto o mentalismo quanto o behaviorismo. * A inclusão de Wittgenstein no campo hermenêutico amplia a hermenêutica das ciências do espírito e corrige o privilégio da historicidade em favor da facticidade dos jogos de linguagem cotidianos. * A ramificação do conceito de hermenêutica põe em risco sua identidade, ao abrir alternativas entre arte da compreensão linguística, experiência compreensiva não verbal, reprodução do sentido passado e produção de sentido em contextos novos. * A hermenêutica divide-se ainda entre autoridade da tradição e instância crítica, entre universalidade da compreensão e limitação diante de estruturas não intencionais da existência. * A reflexão hermenêutica sobre si mesma oscila entre assumir sua própria finitude histórica e transcender-se numa filosofia transcendental orientada pela ideia reguladora de comunicação racional sem entraves. * A fidelidade à prioridade da pré-compreensão preserva a finitude hermenêutica, mas ameaça sua cientificidade; a reinscrição transcendental defende uma cientificidade ampliada, mas parece contrariar a prioridade da pré-compreensão sobre a reflexão. {{tag>Ricoeur}}