====== História simbólica do corpo: Estoicismo (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * O estoicismo representa uma mudança radical de clima filosófico, inserida na mutação global da civilização grega após a perda de independência das cidades. * Há algo de "reativo" e, para nós, assustador na radicalidade do retorno a componentes pré-socráticos e arcaicos da cultura grega, recarregando de modo estranho termos da língua filosófica. * O estoicismo é simultaneamente um materialismo e um monismo. * Com exceção do pensamento lógico, do vazio exterior ao mundo, do lugar e do tempo, //tudo é corpóreo//, incluindo as virtudes, a alma, os deuses e todos os valores. * A alma (psyché) é um corpo (sôma), ou seja, um vivente (zoon) ou animal. * O próprio mundo é um corpo e um vivente, sustentado por um divino corpóreo que o percorre completamente, presente fisicamente em cada partícula. * O cosmos (a ordem do mundo) é mantido pelo equilíbrio harmônico de um princípio ativo (a natureza ou //physis//) e um princípio passivo (a matéria, contínua e sem lacunas). * A natureza é divina, potência demiúrgica, mas anônima, intimamente ligada ao corpo do mundo, assim como a alma humana o é ao seu corpo. * A vida do mundo é una, assim como a vida do homem. * Tudo decorre da distribuição harmônica da matéria nos corpos, ao longo do //logos// divino, segundo seu grau de sutileza, desde o estado opaco e caótico até o mais transparente, que é o do espírito (//pneuma//, "o sopro"). * Conforme escreve M. Daraki, o estoicismo "é uma filosofia do homem contínuo num mundo contínuo". * Nada pode obstar à natureza, que é a "Forte" e a "Invicta". * A sabedoria consiste em ser conforme à natureza, e é nesta conformidade que o sábio realiza sua natureza. * A natureza se torna sagrada, exigindo uma prática de forte conotação religiosa para alcançar essa conformidade. * Viver como uno, em um corpo uno, dentro de um mundo uno, só pode ser resultado de uma inspiração e de uma ascese. * Esta ascese é também um //exercício de morte// (//melétè thanatou//), que recorre a técnicas corporais mais arcaicas (como em Platão), mas em um espírito totalmente diferente, implicando um retraimento radical do mundo social. * O próprio do sábio estoico é querer ser a //encarnação da virtude total//, assemelhando-se aos deuses, não mais como filósofo (amante da sabedoria), mas como sábio (//sophos//) ele mesmo. * Ele se considera herdeiro da linhagem dos "heróis" gregos (como Aquiles ou Ulisses) e da tradição do ascetismo helênico. * O acesso à sabedoria é condicionado por uma verdadeira //cultura do corpo//, uma técnica (ex.: respiratória) ou exercício de morte para "purgar" a vida ordinária. * Esta prática submete o corpo a uma repressão particularmente dura, sustentada por uma simbólica por vezes macabra – podendo chegar a um tipo de canibalismo metafórico. * Exemplo: a Zenão de Cítio, fundador da escola, o oráculo respondeu que levaria a melhor vida "tornando-se da cor dos mortos". * A morte violenta reduz o homem ao corpo-cadáver (//corpus// também significava cadáver em latim). O sábio deve escolher sua morte, libertando-se do corpo em vida para ser um deus vivo. * O amor à vida é desarrazoado; o combate contra o homem encarnado é feroz e complexo. * Ao invés de fazer a alma deixar o corpo (absurdo no monismo), este combate deve levar ao //domínio perfeito do corpo//, tão paralisante quanto a morte, pois o corpo deve estar integral e continuamente ligado à vida profunda do sábio. * A //ataraxia// estoica ("ausência de perturbação") deve conduzir o corpo à verdadeira unidade com a alma, tornando-o transparente a ela e à ordem cósmica da natureza divina. * Tal prática, uma verdadeira instituição do corpo, supõe uma redistribuição completa de todos os termos que definem o corpo resistente à ascese, rebelde ao equilíbrio cósmico e natural. * O estoicismo revela aqui sua //natureza aristocrática// (no sentido apolítico). * Disciplinar o corpo a este ponto supõe refinamentos "psicológicos" incríveis: os estoicos conceberam até 76 paixões e 31 desejos (segundo M. Daraki). * Supõe também que a maioria dos homens (//phauloi//, "inconvertíveis") seja incapaz disso. * A prática dessa via permite entrever, através das afecções e paixões (excessivas e desordenadas), as profundezas abissais em que elas se aninham. * "Para os estoicos, os homens observáveis entregam-se passivamente aos "abismos" interiores e não merecem o título de homem. Este título pertence apenas ao sábio, em quem o abismo nutre o êxtase" (M. Daraki) – o //êxtase// como "estar fora de si" no Todo que é a vida bem-aventurada. * A ascese estoica é //seletiva//; não visa separar o pensamento da sensibilidade, mas distinguir duas "disposições" da alma inteira: a do sábio e a do //phaulos//. * O sábio é originariamente "inspirado"; não é apenas a razão (//logos//) que o distingue, pois as paixões humanas também têm suas razões (pervertidas). * A alma do não-sábio está doente, possuída por uma "má loucura" (//mania//) que a entrega à desordem. A alma do sábio é conduzida pela //boa mania//, propriamente divina. * É uma doutrina curiosa, mas constitui um dos casos maiores de nossa tradição, em múltiplas formas mais ou menos degradadas. * Sua estranheza vem do fato de que a consideração da unidade íntima da alma e do corpo na própria corporeidade da alma conduz à mais extrema disciplina do corpo concebível: fazê-lo entrar, pela ascese, na unidade cósmica. * Se a expressão não fosse anacrônica, poder-se-ia falar de um "puritanismo" levado ao limite, a ponto de se tornar sectário e conduzir ao desprezo da vida comum do corpo e dos homens. {{tag>Richir corpo estoicismo}}