====== História simbólica do corpo: Cristianismo (1993) ====== //RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.// * É estranho considerar o cristianismo neste contexto, pois suas origens não são filosóficas, mas religiosas, constituindo-se nos primeiros séculos da era cristã. * Surgiu no quadro do judaísmo (já helenizado no século I) e do complexo sincretismo helenístico mediterrâneo. * Este período é mal documentado historicamente, e a dominação cristã a partir do século IV levou a uma reorganização de seus arquivos, dificultando o rastreamento de influências pagãs. * A doutrina da encarnação divina colocou uma questão nova e inesperada para o pensamento filosófico. * Os gregos pensaram o //tornar-se deus// do homem, mas nunca o //tornar-se homem// de Deus. * O cristianismo, a partir do monoteísmo judaico, propôs este paradoxo. * Isto implicou uma nova instituição do homem, do corpo e da psique, dando os primeiros elementos do que hoje chamamos psicologia. * Na tradição grega (mitologia, épica, filosofia), a divinização do homem passa pela //glória// que o inscreve na memória coletiva. * Pode ser uma glória benéfica (levando à imortalidade entre os deuses) ou maléfica (exemplo de hybris punida nos Infernos). * No cristianismo, há uma inversão: a encarnação divina se traduz na humilhação e morte de Jesus na cruz. * O que impressiona nos Evangelhos é a //doçura// e a //humildade//, não um excesso sublime de terror ou violência fundadora. * Se há excesso na vida de Jesus, é um //excesso de humanidade//, não de inumanidade divina. * O divino se revela no excesso do humano, transitando pelos seres e coisas mais humildes. * Não há ideia de glória triunfante; toda pessoa, independentemente de posição social ou reputação, porta uma centelha divina. * O pecado é apreendido como //paixão// que se endurece e se toma a si mesma por origem e objeto (paixão orgulhosa). * A encarnação de Deus no "Filho" humano significa a //unidade da carne// como unidade íntima e contínua da alma e do corpo. * Mas a doutrina cristã tem outro versante: sua autocompreensão como fundação de uma nova religião. * Ela não termina na crucificação (que poderia significar fracasso), mas na //ressurreição//. * A ressurreição atesta a significação transcendente: não há cadáver (o túmulo está vazio) e o corpo vive após a morte como corpo invisível mas encarnado. * Este corpo ou carne transfigurada e deslocalizada vive em cada cristão; a //eucaristia// é sua encenação simbólica (regeneração pela incorporação do pão e do vinho). * Este é o //"corpo glorioso"// ou //"corpo místico"//, também identificado com a assembleia dos fiéis (Igreja). * Toda a ambiguidade está nesta glorificação de Jesus como Cristo na ressurreição. * É como se o homem, como no pensamento pagão, se tornasse novamente Deus ao reunir-se ao Pai. * Ao instituir-se como Igreja triunfante e hierárquica, a Igreja retomou o esquema pagão de fundação, mas carregando o risco de seu questionamento. * Jesus, como Messias e Rei, é glorificado na ressurreição, tornando-se o "Senhor" dos crentes e a fonte teológico-política da autoridade eclesiástica (o Papa) e temporal (o rei como "vigário" de Cristo). * Pode-se dizer que a novidade da mensagem cristã foi pervertida na origem, o que não impediu dissidências que buscaram retornar à sua autenticidade. * Há sempre duas tendências contraditórias no cristianismo: * Uma tendência pactuou com os poderes políticos temporais, impondo-se pela sociedade, muitas vezes com violência. * Outra tendência, como força interna de subversão, pregou o retorno à humildade e doçura evangélicas. * Na primeira tendência, reproduz-se a separação alma/corpo, buscando apoio no corpus grego para se elaborar. * Na segunda, a centelha divina está na //intimidade mais íntima// do homem encarnado, como eco da encarnação. * Esta intimidade extrema é o //excesso de humanidade// (com sofrimentos e misérias) como Deus no homem. * Deus não está fora, no mundo profano, mas no mais íntimo do interior, no retorno que faz o homem se descobrir sempre já acolhido por Deus. * O cristianismo, como mostra a obra decisiva de //Santo Agostinho//, desemboca numa verdadeira //cultura ativa da interioridade humana//. * Resultou uma reelaboração simbólica da noção de //alma (psyché)//. * Para os gregos, a alma era fundamentalmente impessoal, com individuação contingente. * No cristianismo, pela encarnação, a alma é //essencialmente individual//, centrada num //si// que é o si divino. * Seu caráter oculto e misterioso faz viver, nas profundezas, o si individual – seja na abertura que transfigura tudo (inclusive o corpo), seja na revolta que o obscurece e opacifica (vivido no desordem das paixões). * A abertura e a revolta são de extrema sutileza, jogando-se em nuances ínfimas, o que levou a um refinamento (e ambiguidade) enorme na elaboração psicológica da interioridade. * Esta experiência pode chegar à tortura dos tormentos interiores e, em alguns místicos, à tortura do corpo (com elementos estoicos). * Tudo se joga entre: * O encontro do divino no mais íntimo de si, onde o corpo é transfigurado em //carne// (já como corpo indeterminado em excesso, no registro da prática religiosa). * E o encontro recusado, onde a centelha divina, ao se tornar um Deus enganador e "maligno", abandona o corpo, deixando-o surgir como obstáculo ou instrumento do engano. * As psicopatologias não estão longe neste reverso instável da figura do Cristo redentor para a de um Deus vingativo e maquinador – um "complô contra a vida", como diria Nietzsche. * A longa história desta cultura da interioridade, desde Agostinho até os Tempos Modernos, não pode ser traçada aqui em detalhe. * Mesmo com a laicização e "desculturação" recente (possível fim da "era cristã"), esta cultura é a antepassada de nossa //subjetividade moderna//. * É a maneira como, pela centração no "eu", constituiu-se a psicologia que conhecemos – ao menos ideologicamente – para descrever e classificar nossos "estados de alma" e "estados de espírito". * Ela também contribuiu para tornar o mundo "exterior" uma materialidade inanimada, objeto das ciências objetivas da natureza. * Com isto, já tocamos na obra própria dos filósofos dos Tempos Modernos. {{tag>Richir corpo cristianismo}}